Sobre protestos, redes sociais, novas e velhas mídias e a nada mole vida dos jornalistas [Alexandre Inagaki]


Sobre protestos, redes sociais, novas e velhas mídias e a nada mole vida dos jornalistas

Participei, na edição mais recente do youPIX Rio, de um debate sobre a influência que redes sociais, mídias alternativas e a chamada mídia tradicional tiveram na construção da opinião e na disseminação de informações sobre os protestos que tomam conta das ruas do Brasil desde junho. A conversa, moderada por David Butter, acabou se tornando um embate acalorado, protagonizado por Rafucko (videomaker e ativista que chegou a ser preso durante manifestação de rua em julho), Pedro Dória (editor executivo do jornal O Globo) e Filipe Peçanha (repórter da Mídia Ninja).

 http://www.youtube.com/watch?v=i7WVIJERmmo 

O painel, que começou discutindo a adoção de novas tecnologias na cobertura das manifestações, tomou rumos mais quentes a partir do momento em que Rafucko – após uma fala com tom professoral na qual Dória buscou diferenciar o jornalismo profissional da cobertura feita pela mídia independente, chamada de “jornalismo engajado” – exibiu a polêmica edição de 17de outubro do jornal O Globo, estampando os rostos de três manifestantes presos pela PM carioca, adjetivados de “vândalos”. A partir dessa intervenção, os ânimos ficaram exaltados. E a plateia do youPIX, também agindo de forma passional, nitidamente passou a se manifestar contra o “representante do establishment” no debate.



O debate, espelhando a dinâmica das discussões de Twitter, que no calor do momento são movidas à base de paixão e falta de distanciamento crítico, por vezes saiu das raias. Não posso concordar, por exemplo, com a afirmação do Filipe de que manifestantes possuem “legitimidade” para expulsar jornalistas durante os protestos nas ruas. O que aconteceu, por exemplo, com Caco Barcellos durante gravações do Profissão Repórter que cobriu os protestos nas ruas de São Paulo, foi inaceitável, em uma reação irracional de uma multidão que só atentou para o microfone da Globo, ignorando o histórico profissional de um autor de obras como Rota 66, na qual denunciou a ação de matadores da ROTA da PM de SP. A esses exaltados, recomendo a leitura de uma entrevista com Caco que, diga-se de passagem, foi feita por Bruno Torturra, um dos idealizadores da Mídia Ninja.

Outro momento mais animado ocorreu quando Rafucko afirmou que vivemos em um regime autoritário. Rodrigo de Almeida, diretor de jornalismo do portal iG, discordou e fez um contraponto: “Me surpreendem essas palavras de que vivemos em um país autoritário. O que há no Brasil é uma democracia. É até um paradoxo isso de viver em um regime autoritário ou não porque nunca se viveu tamanha liberdade de opinião, de difusão da informação e de diversificação da produção.” Ok. De fato, estamos num regime democrático. Porém, quando há pessoas que são torturadas até a morte (vide o caso Amarildo, uma exceção em meio a tantas outras histórias que sequer chegam aos holofotes midiáticos), não tenho como não respeitar a ressalva feita pelo Rafucko. Além disso, a tão propagada pulverização da propagação de opiniões e meios de informação esbarra em fatores como os filtros-bolha, as mudanças nos algoritmos do Google e as limitações na visualização de posts do Facebook a quem não compra anúncios na plataforma. E mostram que, embora tenhamos mais meios de expressão, o controle da comunicação permanece sob o jogo de poucas e grandes corporações.

De qualquer modo, o saldo do debate no youPIX foi amplamente positivo. Divergências à parte, foi gratificante participar de um bate-papo que levantou questões relevantes discutidas em alto nível. A participação de Rafucko, (ir)responsável por um canal fundamental no YouTube, foi admirável. E, digam o que disserem de Pedro Dória, o fato é que ele deu a cara para bater e teve coragem ao representar um grupo de comunicação desproporcionalmente vilanizado pelas redes sociais. Ainda é muito cedo para chegarmos a alguma conclusão sobre todas as movimentações catalisadas por uma história que está apenas começando, mas não hesito em afirmar que vivemos tempos privilegiados de uma era na qual transições são a única constante.

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P.S. 1: Sobre as mudanças no jornalismo, recomendo duas leituras: O que podemos fazer para salvar o jornalismo, de Pedro Burgos, e Precisamos falar sobre modelo de negócios (para salvar o jornalismo), de Fred Di Giacomo.

P.S. 2: A vida não está mesmo fácil para os coleguinhas. Como se não bastassem os constantes passaralhos, durma-se com esse barulho: “Agressões a jornalistas cresceram 166% nos últimos 12 meses, aponta Abert”.

Alexandre Inagaki é jornalista, consultor de projetos de comunicação digital, japaraguaio, cínico cênico, poeta bissexto, air drummer, fã de Cortázar, Cabral, Mizoguchi, Gaiman e Hitchcock, torcedor do Guarani Futebol Clube, leonino e futuro fundador do Clube dos Procrastinadores Anônimos, não necessariamente nesta ordem.

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