TRILOGIA A MOCINHA DO MERCADO CENTRAL [Isabela Lapa e Kellen Pavão]

TRILOGIA A MOCINHA DO MERCADO CENTRAL

Stella Maris Rezende é a responsável pela trilogia “A Menina do Mercado Central”, composta pelos livros “A Menina do Mercado Central”, “A sobrinha do poeta” e “As gêmeas da família”. Com histórias intensas, criativas, inteligentes e bem construídas, a escritora nos leva a um passeio por pequenas cidades de Minas Gerais e nos permite conhecer personagens incríveis, diferentes e encantadores.

Mesmo sendo uma trilogia as histórias são independentes e podem ser lidas de forma individual ou fora de ordem. No entanto, acredito que quem ler qualquer deles fará questão de ler os demais, afinal, não tem como não se apaixonar com a narrativa gostosa e quase poética de Stella, que usa uma linguagem rica e repleta de características típicas do povo mineiro.


No livro “A Mocinha do Mercado Central” conhecemos Maria, uma menina de Dores do Indaiá, que fruto de um estupro sempre foi amada pela mãe, que mesmo com os traumas a via como uma bênção. Maria era completamente fascinada pelos significados dos nomes e por viagens, então decidiu enfrentar uma aventura ao redor do país e em cada cidade que viajava escolhia um nome, para cada nome formava uma nova personalidade.

Um grande destaque do livro é a paixão de Maria por Selton Mello, que aparece como personagem no meio da história e dá um ar especial a tudo. É preciso mencionar que a aparição de Selton foi tão importante e diferenciada que o ator foi convidado para fazer a apresentação do livro, o que fez com muito prazer – escreveu lindas palavras para uma escritora que, como ele disse, sequer conheceu, mas que mudou a sua forma de ver a vida.
Entre todas as viagens de Maria, a mais importante foi a que ela fez para São João Del Rey. Lá um acontecimento marcante mudou os rumos da sua trajetória, o que comprovou que a vida se revela nas suas surpresas e nos seus mistérios.

A história, que é uma lição de vida, de coragem e de amor mostra que podemos ser tudo o que quisermos e que as atitudes das pessoas não podem mudar a nossa forma de ver o mundo. Este livro foi vencedor do prêmio Jabuti nas categorias “Melhor Livro Juvenil” e “Livro do Ano de Ficção”. 

"Um dia ela contaria a ele sobre as viagens que fez, ao decidir por esse ou aquele nome? Contaria cada experiência, cada sonho, cada possibilidade?
Não sei, ela disse.
Não sei, assim recomeçava o filme da vida deles".


No segundo volume da trilogia, “A sobrinha do Poeta”, conhecemos os moradores de Dores do Indaiá que foram surpreendidos por escritos misteriosos nos livros localizados na "sexta prateleira de baixo para cima da sexta estante diante da janela de vidro". Esta situação causou grande agitação nas pessoas da cidade, que começaram a criar teorias e hipóteses para o fato, umas plausíveis, outras sem lógica, mas a verdade é que todos falavam sobre o assunto, alguns até sonhavam.

A narrativa do livro é leve e agradável e Stella nos conduz a uma história misteriosa, cujo segredo é preservado até as últimas páginas, o que torna tudo mais envolvente e atraente. É importante mencionar que na medida em que a história se desenrola a escritora nos apresenta ao íntimo dos personagens, o que nos permite perceber as nuances da alma humana. Outro fator interessante é o que livro mostra a importância da leitura na vida das pessoas e faz várias menções ao trabalho do poeta Emílio Moura. 

Um destaque interessante é que o livro ganhou o prêmio "Bolsa para autores com obra em fase de construção", da Fundação Biblioteca Nacional. 



"Leodegária pensou em dizer: não acho bom uma pessoa escrever com canetinha iriscor num livros da biblioteca da escola de Dores, mas o mais grave é que há poucos leitores em Dores. Daí, a gente saber que temos um leitor que também gosta de escrever dá um alívio sabe? O erro passa a não ser tão grave assim. Precisamos olhar tudo isso com outros olhos. O mais importante é o incondicional direito de ler e escrever".


Por fim, no último livro, “As gêmeas da família”, conhecemos três irmãs que viviam no período da Ditatura Militar e além do sofrimento com as pressões do período eram vítimas de uma maldição da família e de uma estranha promessa da mãe.

As garotas, que no início não eram muito amigas, dividiam uma enorme paixão por uma cantora italiana chamada Rita Pavone e esta paixão mudou a vida delas. Isto porque, quando souberam que a cantora faria uma apresentação no Rio de Janeiro começaram a organizar uma viagem à cidade maravilhosa. Esse projeto aproximou as três, que se tornaram grandes amigas e fez com que elas tivessem a oportunidade de se aproximar da mãe. Porém, a viagem não trouxe só surpresas felizes. Lá as meninas conheceram a dor, a perda e descobriram a importância de ter amigos e família. 

Vários pontos chamaram a minha atenção neste último livro, que sem dúvida se tornou o meu preferido entre os três: 

- Os nomes das três irmãs: Maria da Caridade (Rosade), Maria da Fé (Azulfé) e Maria Esperança (Verdança);


"Rosade: - Em nome do meu nome, faço a caridade de suportar vocês, mas assim que eu puder, desapareço no mundo, igual o meu pai fez."

"Azulfé: - Em nome do meu nome tenho fé de que ainda terei uma vida inteira de felicidade sem nenhuma maritaca gêmea perto de mim, ara se vou."

"Verdança: - Em nome do meu nome mantenho a esperança de que não preciso me livrar de vocês. Para mim, já é como se não existissem, eu sou filha única."
- A narrativa em terceira pessoa foi estruturada sob o ponto de vista dos objetos que estavam ao redor das personagens e que observavam algo sobre elas. Assim, conhecemos as garotas pela ótica do retrato, da máquina, da maçaneta da porta, do calor da tarde etc.

"Mesmo consciente da má vontade que as filhas tinham em relação à mãe, a maçaneta gostava das trigêmeas. Gostava dos mistérios que as cercavam ou viviam dentro delas.  Era uma maçaneta sempre atenta, solícita, prestativa. E aprendera muito sobre as pessoas, desde que fora instalada naquela casa". 
- Trata-se de uma história de amadurecimento. Stella mostrou que a vida não tem regras pré-estabelecidas, mas que em suas surpresas, curvas, desgostos e dores que nos tornamos pessoas melhores e mais fortes. A leitura ensina a importância de ter amigos e de estar aberto às mudanças. 

"- Vivemos bem embora às vezes a gente se estranhe. As pessoas às vezes se estranham. As coisas às vezes se estranham. O estranhumano está em toda parte". 

Leiam os livros, presenteiem as crianças e conheçam o universo maravilhoso dessa escritora incrível e “estranhumana”. São histórias especiais, que foram escritas com um carinho enorme e que sem dúvida formarão novos leitores!
 

 
Stella Maris Rezende Mestra em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília, professora, cantora, atriz, artista plástica, dramaturga, mas o que eu mais sou mesmo é escritora, uma contadeira de histórias fascinada pelas palavras e pelas entrelinhas.

Sou uma artista que lida com a magia da linguagem, as imagens, a imaginação, as metáforas, as ambiguidades, a mentira, a verdade, os mistérios, as delicadas e as terríveis perguntas da condição humana.
 Clique aqui, para saber mais um pouco desta talentosa escritora.


Isabela Lapa e Kellen Pavão – Administradoras do blog Universo dos Leitores, que fala de livros e de tudo que estiver relacionado a estes pequenos pedaços de papel que nos transferem do mundo real para o universo dos sonhos, das palavras e da felicidade!

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