Vez em quando [Cinthia Kriemler]


Vez em quando 

por Cinthia Kriemler 

Um cheiro de saudade cruza por mim. Um perfume, talvez um aroma de pele. Não dá mais tempo de impedir a memória, nem de punir a sentinela da razão que se atrasou por uns segundos. Já estou impregnada desse vento de passado que me força companhia.

O cheiro de café torrado insiste em fazer cócegas no meu cérebro, dizendo que não vai ser fácil me livrar da sua lembrança. Pois que seja. Não sou mais alguém em agonia. Depois de você, tornei-me matéria sólida, como as lajes e os granitos. Sem os rompantes, sem a histeria da partida. Nenhum sofrimento à superfície, nenhuma tristeza deslocada. Apenas o suficiente para prosseguir humana.

Não consigo fixar seu rosto no meu pensamento. Foi assim também na primeira vez em que nos encontramos. As pessoas eram sempre pontos distorcidos em minhas fugas de álcool fácil e carnes esquecíveis. E você estava lá, numa daquelas noites que terminavam só depois da madrugada.

Além do prazer, dois hábitos me acompanhavam fielmente: eu nunca dormia fora da minha própria cama, nem chegava em casa sem uma boa xícara de café forte. Na verdade, eu sempre tive medo de acordar em camas estranhas. Como se olhar em volta e não reconhecer os objetos me impedisse de saber para onde ir embora. Eu pertencia a todas as camas, mas deitava meu sono em meu próprio colchão, repleto de mim. O café forte era um ritual de purificação. Nada que cortasse o efeito da bebida ou o sono, somente um amuleto de dignidade que me deixava voltar para casa sem contaminar de embriaguez o ar.

Quando nos encontramos pela primeira vez, sua boca exalava café torrado. Por trás do balcão, uma mistura de amargos e doces flutuava abaixo de uma placa esnobe, onde se lia: Chez Fernand.

— Um café?

— Forte, por favor.

— Alguma coisa para comer?

— Não.

− Um croissant fresquinho? É a especialidade da família.

Fiz que não com a cabeça, enquanto afastava a sensação de náusea que me vinha por pensar em comida. Mas achei gentil a insistência. E tive certeza de que voltaria ali quando estivesse sóbria.

Voltei, duas semanas depois, numa madrugada de chuva. Nenhum álcool naquela noite, nenhuma cama de onde tivesse saltado. Fui para enxergar o rosto ao qual pertencia aquela boca de café torrado. Atrás do balcão, dois rapazes se ocupavam dos expressos e dos chocolates. Ninguém que eu pudesse associar à voz modulada e cheirosa que tinha agradado aos meus instintos. Eu já me preparava para me levantar sem pedir nada, quando o mais alto dos dois se aproximou de mim:

— Como vai? Que bom que você voltou! Um café?

Era ele! A boca de café torrado, os dentes claros, benfeitos. Um menino! Quantos anos? Uns 24, no máximo 25.

— Um chocolate com creme, por favor — respondi depressa, subitamente sem jeito para incluir um licor no pedido.

— Chuva forte, hein? — perguntou com delicadeza, enquanto colocava a bebida.

Não respondi. Homens mais jovens não faziam parte dos meus vícios. Minha ânsia de afeto sempre fora aplacada por gente como eu, descartável, invisível, desraizada. E pelo álcool que me permitia tudo o que eu quisesse. E pelo sexo que me fazia atravessar a madrugada insone. Nada de amor, essa coisa estranha que se oferece em desencontro. Não, nada de homens jovens. Eles têm o péssimo vício de amar.

— Eu sou Fernand. O da placa — revelou, vaidoso. — Como é o seu nome?

— Aimée.

— Aimée! Amada... Significa amada, em francês, você sabia? Minha família é de origem francesa. Que coincidência! É um nome lindo.

Pedi a Deus que me tirasse de lá, porque meus pés não ofereciam essa opção. O rapaz estava flertando comigo, se exibindo para mim. E, mesmo assim, o que ele dizia entrava em meus ouvidos como uma escala afinada. Esperei realmente por um pequeno empurrão, uma lucidez acanhada. Mas tudo falhou. A divindade, os pés, a vontade. E eu mesma derrubei as cercas, deslembrada de que as cercas existem para guardar ou impedir. Fiz como o predador que fareja carne tenra: desprezei as armadilhas, até ser colhido pela dor das estacas.

Fernand e eu fomos felizes por duas chuvas. Ele se fez caber por inteiro em meus espaços vazios. Afastou minhas urgências, ofereceu-me outras. Emprestou-me o riso, o colo, os olhos brilhantes. E eu me completei dele. Ganhei abraços de tirar o fôlego, brinquei sem pressa sobre a cama desfeita, escrevi palavras bobas, sem sentido, em bilhetes e vidros embaçados de chuveiro. Fiz passeios de mãos dadas, desconcertei olhares. Dei gargalhadas no cinema, fiz sexo na escada e me senti bonita de cara lavada.

Então, numa data sem aviso, antes que a terceira chuva pudesse me trazer mais um ano, tomou conta de mim uma antiga sensação de ausências. Não sei se foi um gesto diferente, um jeito de respirar acelerado, uma desatenção proposital. Sei que os fogos de artifício se tornaram, de repente, fósforos usados.

Talvez, se Fernand tivesse morrido, talvez se ele tivesse amado alguém mais jovem que eu, com menos caminhadas, eu teria podido me agarrar ao consolo do plausível. Mas não foi assim. Fernand só queria mesmo ir embora.

Eu ainda não estava pronta para me encontrar com a mulher vazia que morava dentro de mim, mas a solidão me alcançou inflexível numa noite sem forças. E eu me cedi a ela. Com o tempo, acertamos uma trégua. Vez em quando, colho nas ruas um cheiro de saudade. Apenas o suficiente para prosseguir humana.


Cinthia Kriemler - Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

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