Anjos e sapatos [Maria J. Fortuna]

Anjos e sapatos


Sempre tive um pé maior do que o outro, mas com ambos vou levando a vida, caminhando e agradecendo, apesar do desconforto dos sapatos fechados número trinta e cinco.   Nesse caso, o dedão do pé maior, o esquerdo, fica dolorosamente amassado, apertando a unha,  enquanto o do pé direito fica muito folgado dentro do seu par e sai do pé quando ando. De tal forma me acostumei com esse suplicio que acabei me acomodando à situação. É incrível que só agora resolva protestar e tomar providência! Uma delas é comprar dois pares de sapatos iguais com tamanhos diferentes: Um trinta e quatro para o pé direito e trinta e cinco para o esquerdo. Mas esse basta de flagelo, não foi só em relação aos sapatos, mas também no que se refere às dores emocionais. O ruim é a gente se acostumar com elas. Dos sapatos que fazem calos e feridas nos pés, às desconfortáveis feridas e calos do coração.

Confesso que hoje, depois de lamber algumas delas e apalpar certas protuberâncias emocionais cardíacas sensíveis a dor,  senti que, infelizmente,  adquiri aquela calosidade própria do que,   aperta e machuca: a presença de pessoas destrutivas.  Tudo isso porque assumi, dentro de mim, um anjo que suporta sapatos fechados, mesmo com dor no dedão do pé.  De quem apesar do incômodo, continua a tolerar quem lhe agride todo o tempo, testando o estado de compaixão que me amortece dores morais.   No entanto tudo tem um limite! Mora também dentro de mim, um demo que não tolera ferida e apertos, e que se revolta com as aquiescências do tal anjo que não reclama do sufoco.  

Nem anjo, nem demo: somos seres humanos! Esta dicotomia anjo x demo, incentivou-me a escrever histórias infantis, sempre procurando expressar a síntese da relação positivo x negativo. Se meus pés não se encaixam dentro dos sapatos deve haver solução para os embates com pessoas que machucam o coração, antes que a gente se acomode á agonia, e não consiga sair mais do circulo vicioso. Permanecer nesse tipo de relacionamento é se sentir num eterno purgatório!    

 Devo então procurar novas posturas em que possa me reequilibrar, e perder o medo da culpa e do novo , a fim de prosseguir nessa inevitável  viagem pelas estradas, avenidas, ruas e becos da vida, cheios do bafo das contradições, onde  andamos,  nós todos,  por cima da mesma corda bamba. 

Não posso viver aceitando um anjo que me deixa a mercê da autoflagelação pela culpa. Absurdo maior é o de querer carregar a cruz  que não nos pertence. Como se a nossa não pesasse o bastante.  Feito esse ato de auto violência, ficamos  paralisados frente à vontade de amar e ser livre!  Isso deixa o coração doente!

A pretensão vaidosa de querer ser Deus tem um preço muito caro!  Quando não é questão de vida ou de morte. É mergulhar num labirinto sem encontrar saída.

Tenho o demo sim, dentro de mim, mas também tenho o anjo que tolera sapatos fechados. Contudo não quero me culpar por isso.
Melhor repetir a si mesmo que é impossível querer curar as feridas dos que não querem ser curados. Quando a gente mesmo luta para conseguir aceitar a cura das próprias feridas.  Hoje estou ciente disso: que preciso ser curada do hábito de continuar calçando sapatos desajustados.  Vale a pena mudar.  Não basta conhecer o caminho da fuga quando a coisa fica fora de controle.    Preciso saber também da via do enfrentamento. Não em relação às pessoas que me fazem mal, mas aquele comigo mesma. Principalmente em relação aos que   praticam divinamente bem, a arte de culpar os outros por seus flagelos.

Anjo que é anjo tem que ser guerreiro.  Usa armadura para se proteger, mas também  carrega a lança, que mata o dragão da culpa eterna e a espada nas horas de vigília.  Se for esse tipo de anjo, dou-lhe acolhimento. Ele sabe do que é capaz! I Ele tem a solução para pés desiguais e nos ajuda a encontrar o caminho da liberdade!


Maria J. Fortuna-Nasceu em São Luís, Capital do Estado do Maranhão.
Escolhi Serviço Social como profissão. Com toda esta incursão no mundo das artes, descobri que não podia viver longe desse cenário. A literatura havia brotado cedo. Desde menina, sou fascinada pela palavra.
Ingressei na REBRA, onde recebi incentivo e divulgação do meu trabalho e resgatei alguns textos que foram escritos no desenrolar da minha existência, aos quais não dei muito valor na época em que foram produzidos. Recomecei a escrever poesias, crônicas e livros infanto-juvenis.
Publiquei cinco obras infanto-juvenis, ao longo dos últimos anos: O menino do velocípede,  A incrível estória de amor de Mimo e Dedé , ilustrados pela autora, ambos esgotados. O anjinho que queria ser gente, que está na 2ª edição e O pardalzinho desconfiado, com ilustrações de Josias Marinho. Os dois últimos pela Mazza Edições de Belo Horizonte. Em 2008, foi lançada em Portugal outra obra de minha autoria por essa Editora: A sementinha que não queria brotar, com ilustrações de Regina Miranda. Este livro foi adotado pela Prefeitura de Belo Horizonte para as crianças da rede escolar.
Participei de duas Antologias a convite da Editora Rosane Zanini: "A cidade em nós" - em três línguas (2010)," Um dia em minha cidade"(2012). Ambas com crônica. Neste último ano, participei da Antologia: "L´indiscutable talento des Écrivaines Brésiliennes" pela REBRA, com poesia.

0 comentários: