Os Pontos de Luz [Luciene Freitas]

Os Pontos de Luz

...O céu sabe os motivos e desenhos por trás de todas as nuvens, 
e você também saberá, quando se erguer o suficiente
para ver além dos horizontes.

Richard Bach
( Ilusões ) 

Após o inverno as meninas saíram para brincar no terreiro, encontraram o mato crescido. Admiradas saíram para um passeio, com as folhas da carrapateira engendraram uma sombrinha, o que não impedia que o mormaço transformasse as faces na corada cor dos frutos do café maduro.
Os vestidos de chita adequavam-se aos matizes da natureza em festa. O verde mais verde, a beleza das flores, um convite ao mundo encantado. Seguiram colhendo flores, folhas e frutos exóticos da vegetação rasteira. Esqueceram de casa juntando na cestinha de cipó o que lhes era interessante. 

Chegaram ao pé da serra, num olho d’água saciaram a sede. No líquido cristalino brincaram com as imagens distorcidas pelos movimentos. Desenharam sonhos na areia, materializaram formas nas nuvens. 

O tempo correu com o sol, o céu se enfeitou de estrelas. As meninas ultrapassaram a grande porta dos limites! Diante dos olhos, o paraíso!

As distâncias eram visualizadas com nitidez. Num templo de altas colunas com arcos floridos, lustres desciam do teto em formações cristalinas. Amplos espaços de paredes transparentes deixavam escapar as cenas festivas que aconteciam simultaneamente! Anjos-crianças voavam com guirlandas perfumadas. Entre eles o sorriso de anjos conhecidos.

O passado e o futuro unidos no presente, sem horizontes. O grande e o pequeno, o novo e o velho em evidência aconteciam sem distinção.

Num gigantesco painel de fotografias, em branco e preto, encontraram cenas de histórias da vida. Uma delas em fantástico movimento.

Um ser diferente de todos os que já tinham visto abre o painel, move uma palheta brilhante em direção de outro retrato. Nova cena acontece. Ali estavam armazenados os momentos do tempo. Expostas em transparências estavam as histórias que a avó contara. Representadas nas vestes das pessoas, nos móveis, nos mínimos detalhes.

Um batalhão de meninas, vestidas diferentemente, aproximava-se ao som de uma melodia festiva. Nas faces a diversidade das raças ou a miscigenação delas. Comunicavam-se na língua comum que move os corações, brincavam, riam, cantavam, dançavam, num clima atemporal.

Ao lado, numa floresta tropical, o canto mavioso de pássaros! Aves exóticas, com plumagens exuberantes voavam num bailado majestoso. Outras, nos galhos, exibiam caudas que iam ao chão num leque de belas tonalidades.

As meninas flutuavam. Não sentiam necessidades, quaisquer que fossem. Num piscar de olhos coisas extraordinárias acrescentavam o deslumbramento.

Na casa de tijolos aparentes, o desespero deu lugar ao pânico. A noite chegara e nenhum sinal. Desapareceram pela manhã!

As buscas continuaram, expandiram-se e das meninas ninguém nunca deixou de falar. Aquela gente simples, ligada à natureza, atribuía o caso ao sobrenatural. 

O lugarejo ficava entre três serras. A mata virgem fazia o elo entre uma e outra. O bordado da paisagem, em variados tons, ocultava grandes segredos. Antigas cavernas, moradias do homem primitivo, labirintos estreitos e abismos de grotas profundas.

A história correu o mundo. Um arquiteto estrangeiro visitou o local, sugeriu a construção de um ponto que tornasse possível a orientação aos viajantes que por ali transitassem. Havia muitos relatos de gente perdida. A pirâmide foi feita, na Serra do Amaro. De todos os ângulos se avistava.

E as meninas?

Sobrevoaram as copas das árvores feito pássaros; subiram mais e mais, nas nuvens deitaram e rolaram, fizeram chover na terra; desapareceram na imensidão do azul, chegaram ao céu!

Conta-se que nas noites escuras aparecem, na Serra do Ponto, duas tochas de fogo correndo de um lado para o outro, tal qual faróis incandescentes.

Fogo fátuo é o que a ciência registra. No entanto a maioria dos habitantes do lugar teme a visão, que a poucos parece fantástica, acredita ser as almas das meninas numa brincadeira eterna.


Luciene Freitas - Prêmio Vânia Souto Carvalho de Ficção, pela Academia Pernambucana de Letras, em 2009. É pernambucana e tem publicados os seguintes livros: Explosão (poesias); A Dança da Vida (parábolas e contos); Mil Flores (poesias). Encenado no Teatro do SESC em 2004; O Sorriso e o Olhar (parábolas, contos e crônicas); Meu Caminho, textos para reflexão; Uma Guerreira no Tempo, (pesquisa). O resgate de uma época – 1903-1950; a vida e a obra da escritora Martha de Hollanda, primeira eleitora pernambucana. Premiado pela Academia Pernambucana de Letras, em janeiro de 2005; Viagem dos Saltimbancos Escritores pelos Recantos do Nordeste, (cordel); Mergulho Profundo, 264 pensamentos filosóficos; Brincando Só e Brincando de Faz de Conta, Vol. I e II da série No Ritmo da Rima; O Espelho do Tempo, romance de pura emoção; Sob a Ótica das Meninas, 42 contos de um tempo determinado.
Tem trabalhos publicados em jornais e revistas do Brasil, Portugal e Argentina. Participações em várias antologias. Conta com alguns prêmios literários. Pertence ao quadro de sócios da União Brasileira de Escritores (UBE– PE); União Brasileira de Trovadores (UBT– PE); Instituto Histórico e Geográfico da Vitória, Vitória – PE; Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE); Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciências da Vitória de Santo Antão; Grupo Literário Celina de Holanda. Membro correspondente da Academia Irajaense de Letras e Artes (AILA) Irajá / RJ e Academia de Letras de Itapoá / SC.

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