Revista Machado de Assis na AmazonCrossing [Felipe Lindoso]

Revista Machado de Assis na AmazonCrossing


AmazonCrossing, o braço editorial do poderoso sistema global de venda de livros pela internet, anunciou um programa de publicação de autores brasileiros em inglês que promete ser ambicioso. Alguns títulos terão apenas uma versão digital – principalmente os contos – mas os romances terão versão impressa e em audiobooks. A Amazon teve seu interesse pelos autores brasileiros despertado pela homenagem na Feira de Frankfurt, e a Machado de Assis Magazine - a Revista de Literatura Brasileira em Tradução, co-editada pela Biblioteca Nacional e o Itaú Cultural – foi o principal instrumento para a descoberta dos autores que participam do programa.


A história é a seguinte:

Os primeiros livros a serem publicados pela AmazonCrossing, ainda em 2013, são de contos, em versões para Kindle.  Beatriz, livros de contos de Cristóvão Tezza; uma seleção dos contos de Falo de Mulher, de Ivana Arruda Leite; dois contos de Ana Paula Maia (Desmedido Roger e Esporo); uma seleção de contos de Paloma Vidal, Fantasmas, extraído de sua coletânea Mais ao Sul. 

Além desses, ainda este ano serão lançados uma seleção de contos de Tércia Montenegro, extraídos do livro O Tempo em Estado Sólido, e o conto A Pequena Morte, de Cláudia Lage.


A partir de 2014 a Amazon Crossing lança também romances, e os primeiros quatro selecionados são Breve Espaço Entre Cor e Sombra, de Cristóvão Tezza, vencedor do Prêmio Machado de Assis da FBN, em 1998; Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, que também recebeu o prêmio da FBN; o romance de estreia da jornalista Eliane Brum, Uma, Duas; o romance histórico do jornalista Sérgio Rodrigues, Elza, a Garota; e um dos títulos da saga Qu4tro Elementos, Marcada a Fogo, da escritora independente Josy Stoque.

A Machado de Assis Magazine publicou excertos de Sérgio Rodrigues (Elza, a Garota), Eliane Brum (Uma, Duas) e Cláudia Lage (O Mundo de Eufrásia) no número 4, lançado durante a FLIP desde ano; Ivana Arruda Leite (Falo de Mulher), estava presente no número 2 da revista, e Tezza (O Filho Eterno), Ruffato (Estive em Lisboa e Lembrei de Você) e Paloma Vidal (Mais ao Sul), tiveram excertos de suas obras publicadas no primeiro número.

Segundo Gabriella Page-Fort, gerente editorial da AmazonCrossing, a decisão de publicar autores brasileiros foi motivada pela homenagem ao Brasil na Feira Internacional de Livros de Frankfurt deste ano. Já a pesquisa e seleção de autores e textos deu-se a partir da Machado de Assis Magazine. “A partir da revista consultamos agentes e tradutores para mais indicações”, informou.

Alison Entrekin, tradutora de vários dos autores mencionados, informou que efetivamente Gabriella a procurou em busca de informações, e foi a partir desse conjunto de consultas que surgiu a seleção de autores e textos. Cláudia Lage, por exemplo, estava na revista com um trecho de um romance, mas teve selecionado um conto para a publicação inicial.


DIGITAL E IMPRESSO

Gabriella explica que os contos dos autores brasileiros serão publicados inicialmente apenas no formato Kindle, e poderão ser lidos não apenas nos vários modelos de leitores já lançados pela Amazon, como também através de apps disponíveis para tablets, celulares e computadores. “Os romances serão lançados em três formatos: digital, impresso e audiobook”. Segundo a gerente editorial, os audiobooks não serão apenas a transcrição mecânica disponível nos aparelhos Kindle, mas especialmente gravados por atores contratados.

A versão impressa será feita em offset normal na primeira etapa (a gerente da Amazon não informou a tiragem) e depois, eventualmente, por impressão sob demanda. Indagada, Gabriella declarou que os livros estarão disponíveis não apenas através dos canais de comercialização da Amazon, mas serão também ofertados nas livrarias e em outros pontos de venda.

É bom notar, entretanto, que a Amazon sofre um pesado boicote das livrarias tradicionais nos EUA, tanto das cadeias como das livrarias independentes. Os livros editados pela Amazon são fornecidos apenas por encomenda, sendo poucas as livrarias que estocam os títulos.

Apesar dessas limitações, os autores selecionados estão, com razão, entusiasmados com a edição pela AmazonCrossing.

Cristóvão Tezza, ainda na Feira de Frankfurt, informou ao blog do Conexões Itaú Cultural que já está com vários livros publicados em formato digital na Amazon, por meio de outro programa editorial, o KDP Kindle Direct Publishing, a plataforma de autopublicação da empresa americana. “Tenho reservado os direitos de publicação digital dos meus livros, e a experiência de publicação na Amazon tem sido muito interessante”.

Ivana Arruda Leite declarou à reportagem do blog que ficou “agradavelmente surpresa” quando foi contatada pela Amazon. “E mais ainda quando soube que haviam me escolhido pela publicação na Machado de Assis Magazine”.

A AmazonCrossing compra direitos exclusivos para a língua inglesa. O romance de Tezza selecionado, Breve Espaço entre Cor e Sombra, foi publicado originalmente pela Rocco, em 1998, e está esgotado. Isso abriu a oportunidade para a edição em inglês.

Gabriella Page-Fort conta que o programa de tradução e edição de autores brasileiros não tem número definido de títulos, e a prospecção de novos autores continuará. “Mas não recebemos manuscritos não solicitados”, informou.

A seleção de autores brasileiros é a segunda iniciativa da AmazonCrossing de selecionar autores do país homenageado pela Feira de Frankfurt. “Ano passado iniciamos a publicação de autores islandeses, com dez títulos iniciais”, informou Page-Fort. Tal como o Brasil, a Islândia também tem programa de apoio à tradução de seus autores.

 “Já conhecemos e certamente usaremos o programa de Bolsas de Tradução da Biblioteca Nacional brasileira”, declarou a profissional da Amazon.

Gabriella Page-Fort também conheceu a Enciclopédia Virtual da Literatura Brasileira do Itaú Cultural, que está sendo traduzida para o inglês e para o espanhol, e na qual os verbetes de vários autores publicados na Machado de Assis Magazine já estão disponíveis. Da mesma maneira, a editora foi informada sobre as centenas de vídeos com depoimentos e participação de autores nos vários programas do Itaú Cultural, muitos dos quais já dispõem de subtítulos em inglês ou espanhol. Esse material do Itaú Cultural pode ser útil para a iniciativa da Amazon, tanto para escolha de novos autores como para subsidiar informações para os leitores dos livros publicados.


OS PROGRAMAS EDITORIAIS DA AMAZON

A Amazon firmou-se como a grande varejista de livros nos Estados Unidos, e hoje já está instalada em vários outros países, inclusive no Brasil. Altamente eficiente em seus serviços aos clientes, a empresa que tem sede em Seattle, nos EUA, sofre também críticas por seu apetite de crescimento. Sua política de descontos nos preços de livros criou um meio-ambiente de captura de clientes que hoje compram praticamente de tudo da empresa online. Em algumas cidades já está em atuação um programa de vendas de verduras e carnes frescas, entregues na casa dos compradores horas depois de feito o pedido.

O braço editorial da Amazon começou em 2009, com o selo AmazonEncore, inicialmente destinado à republicação de livros esgotados. Foi seguido em 2010 pela AmazonCrossing, dedicada à publicação de traduções. A AmazonCrossing já é hoje, segundo fontes do mercado editorial dos EUA, a maior publicadora de traduções do país. É um fato notável em um mercado editorial notoriamente avesso à publicação de traduções.

Segundo Chad Post, um dos críticos dessa situação de carência de traduções em seu país, não mais que três por cento do total de títulos publicados nos EUA são traduções, o que contrasta amplamente com o panorama de outros países, inclusive o Brasil. Fora dos EUA, as traduções, especialmente na área de ficção, constituem uma parcela muito considerável do mercado, e a maioria desses títulos é originalmente escrita em inglês e proveniente do mercado norte-americano. Segundo Post, em um comentário recente em seu blog, http://www.rochester.edu/College/translation/threepercent/ a AmazonCrossing está contribuindo para que esse panorama seja progressivamente alterado.

Em 2011, Jeff Bezos, o controlador da Amazon, deu um passo audacioso para firmar o braço editorial da empresa, com a contratação de Larry Kirchbaum para dirigir a área. Kirchbaum é um nome bem conhecido do mercado editorial dos EUA: foi CEO do antigo Time Warner Book Group até este ser adquirido pelo grupo Lagardère em 2005 –atendendo agora pelo nome de Hachette Book Group e ainda uma das “seis grandes” editoras dos EUA (na verdade, hoje cinco, com a fusão da Randon House com a Penguin). Kirchbaum depois fundou uma agência literária, que vendeu para assumir a posição na Amazon.

O diretor foi contratado para atrair grandes nomes para o braço editorial da Amazon, mas seus esforços nesse sentido não têm tido muito sucesso, diante do clima de repúdio e boicote que livrarias, agentes e editoras manifestam contra a Amazon.

No entanto, o crescimento da área editorial continua firme. Já são onze selos editoriais, cada um deles dedicado a gêneros específicos, como a AmazonCrossing é para a tradução – Thomas & Mercer foca em mistérios e suspense; AmazonEncore continua o programa de reedições de títulos esgotados; 47North se dedica a ficção científica, fantasia e terror; Montlake se dirige ao público feminino dos romances “água com açúcar”; GrandHarbor publica espiritualidade, auto-descoberta e auto-ajuda; LittleA é destinada à ficção literária; JetCity publica quadrinhos; Two Lions, literatura para crianças, e Skyscape para jovens. E o selo geral, AmazonPublishing procura atrair os autores de obras gerais, incluindo memórias, biografias e romances.


por Felipe Lindoso

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