Viúva de um marido vivo [Ronaldo Magella]

Viúva de um marido vivo

Seu marido morreu? Não, respondia ela, ele é vivo, morto apenas pra o mundo, mas vivo pra ele, apenas pra ele.

Essa era a reclamação de uma amiga que se dizia viúva de um marido vivo, em uma brincadeira triste e amarga. Quando em nossas relações não conseguimos compartilhar uma vida, mas apenas um teto, um espaço, quando não conseguimos viver e conviver coisas, mas apenas silenciar e seguir em frente com um sorriso nos lábios e o coração em lágrimas.

Sabemos bem que talvez seja egoísmo nosso não aceitar os outros como eles são, como querem ser, sim, somos egoístas, admitamos, mas convenhamos, é muito sofrimento viver com alguém muito distante da nossa realidade, alguém que não compartilha dos mesmos desejos, vontades, sonhos, pensamentos. É amargo. Triste. Solitário. Distante.

É claro que podemos conviver com o diferente, com o contraditório, com o distante, mas sejamos sinceros, outra vez, estar com algo, alguém próximo, semelhante, identificável, é mais interessante, e gostoso, dá mais prazer e alegria.

Acontece o que chamamos de solidão acompanhada, quando estamos com alguém, mas não convivemos com ele. Poder chegar em casa e contar com alguém, conversar, ouvir histórias e falar outras, viver um momento juntos, íntimo, singular, deitar no chão frio e assistir um filme, conversar na calçada, acho que seja isso que todos nós procuramos na vida quando pensamos em amor, em casamento, em companheirismo.

Quando perguntavam a minha amiga por que se dizia assim, viúva de um marido vivo, ela sempre dizia que seu marido tinha uma vida e ela outra. “Ele não gosta de sair, não gosta de cinema, ler, de viajar, ele gosta dele mesmo, acredito que ele não gosta de mim, por mais que diga me amar, mas penso que ele tem apenas medo de mudar, se gostasse mesmo de mim, me amasse, perceberia a minha tristeza e tentaria melhorar a nossa vida”.

Só um hiato no depoimento da minha amiga... Há homens insensíveis, repito, relacionamento é diálogo, melhora até o sexo, o amor, o lado financeiro, mas é preciso conversar, sentir o outro, e quando digo sentir, comunicar-se, não precisa-se de palavras muitas vezes para que a dor seja externada. Quando se conhece uma pessoa, quando a sentimos, podemos perceber até pelo olhar, pela energia que emite que ela não está bem e que precisa de nós, há toda uma atmosfera, ou se pode chamar de psicosfera, ou seja, atmosfera psíquica, que indicará sinais claros dos sentimentos. Pois bem...

“Anulei-me durante logos anos, fui sozinha, como digo, viúva de um marido vivo, ele sempre lá em casa, em seu mundo, trancado, vivendo não sei qual vida, enquanto eu esperava sempre pela redenção, por sair, por assistirmos um filme juntos, irmos a qualquer lugar, até mesmo na calçada, precisa sorrir, precisava-me sentir viva, o que parecia mais distante a cada dia, mês, ano que passava, até que desistir de viver”.


Em seu relato ela não culpa o marido por ele ser do jeito que foi e é, mas diz sempre que suportou o que tinha que suportar que perdeu seus melhores anos, que deixou de viver o que a vida poderia lhe proporcionar. “Não sei quais lembranças vou carregar comigo, o que contarei aos meus filhos, netos, não sei do que vou sentir saudade, não tive vida, não vivi o que esperava, sonhei, já nem sei mais se ainda poderei viver, o fato é que, a vida passou por mim e nem rastro deixou para que eu pudesse segui-la, me perdi, me esqueci, agora, bem, agora...”

Certo, é egoísmo quer alguém parecido com a gente e não aceitar os outros como eles são, mas precisamos também pensar no egoísmo das pessoas que só pensam em si mesmas, pessoas que, por não gostarem de cinema, jamais irão com suas namoradas, noivas, esposas ao cinema ver uma filme, pessoas que vivem isoladas em seu egoísmo e não sabem renunciar, ceder por amor, pra ver o outro feliz. Somos sim todos egoístas.

Logo, egoístas, aqueles que não aceitam e aqueles que não mudam, cedem, melhor procurar alguém parecido com a gente, certamente iremos sofrer mesmo, e já que egoísta tudo mundo é....que pelo menos sejamos felizes dentro do possível.



Jornalista e Professor 

Ronaldo Magella é professor, poeta, escritor, blogueiro, radialista, jornalista, cronista, tem 33 anos, é do signo de peixes, não gosta de futebol, prefere livros, é formado em Letras e Jornalismo pela UEPB, tem especialização em linguística, e agora é acadêmico de Pedagogia pela UFPB, adora MPB, Rock, café, romance, paixão e café, não nessa ordem, trabalha hoje com internet, rádio, assessoria de imprensa, leciona, sonha e vive, mas sonha do que vive, afinal, enfim.

6 comentários:

Anônimo disse...

Extraordinário... Como pode em poucas palavras descrever tantos sentimentos. Cuidemos pois, para não sermos protagonistas dessas histórias tão reais..

Luciana Kenia disse...

Eu vivo uma solidão acompanhada, ele me enxerga mas não me vê.

Luciana Kenia disse...

Eu vivo uma solidão acompanhada, ele me enxerga mas não me vê.

Wanessa Ferreira disse...

Gente esse é o relato de uma pessoa próxima a mim é tao triste ! E realmente é sorriso pra fora como se tudo tivesse indo bem e lagrimas por dentro o coração despedaçado ...

Wanessa Ferreira disse...

Gente esse é o relato de uma pessoa próxima a mim é tao triste ! E realmente é sorriso pra fora como se tudo tivesse indo bem e lagrimas por dentro o coração despedaçado ...

Kelly Dantas disse...

Fiquei imaginando o quão triste é sua amiga.