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Jingle bell [Jean Marcel]

Jingle bell


Natal na casa do Afonso e da Clotilde é sempre uma festa! A família toda reunida... Primos, genros, cunhados, vizinhos que se convidaram... Todos juntos com lágrimas nos olhos nos cinco minutos de reflexão... Depois, serão cinco horas de farta consumação!  Quer dizer, nem tudo é consumido, o panetone com frutas cristalizadas, por exemplo, desde sempre faz parte da ceia, muito embora ninguém o aprecie. Mas natal sem panetone não teria a menor graça, não é mesmo? Afinal, tradição é tradição! O mesmo se aplica ao Papai Noel...

– Afonso, as crianças já estão impacientes, o Papai Noel vem ou não vem?

– Pô, Clotilde, pensa que é fácil conseguir um Papai Noel no Natal? Se fosse 
para o réveillon seria moleza...

– Conseguiu ou não conseguiu?

– Bem... Sim, claro que sim!

– Afooooooonnnnso...

– Confia em mim, Clo! Alguma vez eu já pisei na bola?

– Você quer a resposta em ordem cronológica ou por gravidade do acontecido?
BiBiiiiiiiiiiiii

– salvo pelo gongo, o Afonso suspira aliviado ao ouvir a buzina tocando – É ele...

– Paaai, paaaaaai tem alguém chamando lá na frente!

– É o Papai Noel, crianças! Vamos, Clô... Vem... o bom velhinho nos aguarda... 

... 

– De fusca, Afonso? Papai Noel de fusca?! – questiona a Clotilde, assim que chega ao portão da frente de casa, ainda a tempo de vê-lo saindo cambaleando do carro.

– Por cinquenta paus você queria o quê? Um trenó e renas de nariz vermelho?

– Tudo bem, Afonso, mas esse Papai Noel não está magrinho demais? – cochicha decepcionada – E esse bermudão vermelho? Nada a ver!

– Pô, Clotilde, vivemos num país tropical! E é dezembro... verão!

– Mas ele não vem do Polo Norte? As crianças vão desconfiar!

– Relaxa, elas estão estudando aquecimento global no colégio!

– Uhm... Está esquisito! Mas fazer o quê?! Diz pra ele entrar que as crianças já estão indóceis!

– Tá liberado, Magrão... – autoriza o Afonso – Vai entrando! 

– EI, o que é aquilo saindo do carro, Afonso?

– Pô, Clotilde, sei lá... não implica! Devem ser as assistentes dele...

– De biquíni e pompom vermelho?

– Claro... tudo vermelho, Clotilde, inclusive o salto alto!

– Mas nem que a rena tussa! – avisa a Clotilde com as mãos na cintura – Na-na-ni-na-não!

– Mas...

Não teve jeito... Sem chance! O Afonso precisou negociar com o “Papai Noel”, que se recusava a deixá-las esperando na frente de casa, já que nenhum argumento convenceu a Clotilde a autorizar a entrada das tais ajudantes na festa. Evidentemente o gesto foi considerado pelo “bom velhinho” e por toda a ala masculina da família uma séria violação do espírito natalino. Ainda assim, o apelo foi em vão. Já de mau humor, o Papai Noel jogou seu saco nas costas e entrou cambaleando porta adentro, com as crianças pulando à sua volta.

– Pai, pai... Olha o que eu ganhei! – mostra o Júnior para o Afonso, que não acredita no que está vendo.

– Porra, Jonja – se apressa o Afonso em alcançar o amigo travestido de Noel – Pirou? Você está entregando charuto pras crianças?

– Ops, sorry... Errei de bolso. As guloseimas “hic” estão do outro lado! Olha só... Se vires a molecada soprando balão “hic”... me devolve que são camisinhas!

– Jonja! Não acredito... Você está bêbado?!

– Ops, eu? “hic”, Bêbado? Só tomei um “hic” traguinho... Pô, você sabe que sou tímido... – interrompe a explicação para soltar um arroto – Desculpa, escapou! “hic”... Pensa que é fácil vestir essa fantasia na cara dura? Dá licença “hic” que agora preciso entregar os presentes! Fica frio que eu sei tudo de Natal! – e entrou na festa cantando: 

– “Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim?...”



Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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