Livro de cabeceira [Jean Marcel]

Livro de cabeceira


Como todos sabem, o Arnoldo tem no livro, literalmente, o seu melhor companheiro. Tanto assim que defende a tese de que ele, o livro, deveria ser do gênero feminino, para que se sentisse mais à vontade de passar as noites na sua companhia. Afinal, seu ritual de aproximação, que antecede a leitura propriamente dita, é quase uma preliminar amorosa, dada a expectativa e a quantidade de preparativos que realiza para criar o clima ideal. 

Ao chegar em casa com alguma obra recém-adquirida, seu coração começa invariavelmente a bater num ritmo mais acelerado, denunciando o que está por acontecer. Será que vai ser bom? Será tudo o que espera? Que histórias esconde? Conseguirá desvendar seus mistérios? Nossa, como o Arnoldo fica ansioso a cada novo livro! Apesar de toda a experiência acumulada, parece sempre tratar-se da sua primeira vez. Contudo, apesar da expectativa, não se lança aos prazeres da leitura como um adolescente. Ao contrário, coloca-o sobre o balcão da copa, reservando-o para mais tarde. Sabe que tem todo o tempo do mundo. Assim, dedica-se sem pressa à elaboração de uma comida que complete o sabor do livro. Não contente, abre um vinho tinto, separa um cálice que nunca viu seu par, pois é sempre pego no singular, e vão todos para o seu quarto: o livro, o jantar, uma garrafa de vinho argentino ou chileno, o cálice de cristal já lascado por tantas idas e vindas e, comandando a festa com uma excitação juvenil, o Arnoldo. O que se seguirá daí para frente acontece da mesma forma há anos, mas nem por isso tem perdido o encanto. 

Ele apaga a luz principal, acende o abajur de cabeceira, serve o primeiro cálice para si e, aí sim, começa a leitura. As páginas iniciais são as mais importantes. Afinal, depois de tantos anos de experiência, basta o contato com os primeiros parágrafos de uma obra para avaliar a sua qualidade. Durante todo o tempo a televisão do quarto fica ligada, mas sem som, com o claro propósito de humilhá-la diante do rival. De vez em quando, num virar de página ou no fim de mais um capítulo, o Arnoldo dá uma olhadela no que está passando no televisor, somente para ter a oportunidade, ato contínuo, de dar um suspiro de desdém e voltar sua atenção para “quem” realmente o encanta.

O vinho é apreciado somente na sua companhia e como coadjuvante. No mais das vezes toma o cuidado de não exagerar na dose, para não embotar seu raciocínio, degustando, portanto, somente a quantidade suficiente que o incentive a mergulhar sem reservas na história que está sendo revelada. Mesmo assim, acaba sempre adormecendo com o livro no colo ou dividindo com ele seu travesseiro; ou, ainda, acomodado sobre o peito, sem poder precisar no outro dia em que ponto da leitura parou. Na manhã seguinte, surge quase sempre um sorriso tímido ao olhar para o lado e ver, na desordem do quarto, os vestígios de uma noite particular. Horas depois, já no trabalho ou onde quer que esteja, as lembranças do que leu, com suas histórias e tramas, invariavelmente passarão a assombrar a realidade, fazendo-o desejar que o tempo passe logo, permitindo-lhe retomar a leitura na primeira oportunidade. Tudo o que quer é poder voltar para o seu mundo paralelo, muito mais fascinante.

Se por um lado o Arnoldo percebe o poder que os livros exercem sobre ele, entende também que a recíproca é verdadeira. Assim, quando está numa livraria diante das dezenas de prateleiras divididas por assuntos, sente-se tão poderoso como se fora um sultão no seu harém particular, podendo escolher entre gêneros, tamanhos e estilos. Todos à sua disposição e à espera de sua decisão final. E foi dessa forma, com a experiência que só o tempo traz, que o Arnoldo passou a identificar as características, nuances e humores de cada obra, compreendendo que é a companhia que deve ajustar-se ao programa e não o contrário. Desde então escolhe os livros conforme a hora e o local em que deseja saboreá-los. Os de poesia, por exemplo, são “casos passageiros”: ficam no bolso de fora da sua pasta ou no banco de trás do seu carro, para serem “saboreados” no congestionamento do trânsito ou na ante-sala do dentista. Com esses somente “fica” ocasionalmente, sem aviso prévio, dedicando uma atenção parcial, quase sempre limitando-se à leitura de uns poucos trechos aleatórios ou algumas páginas salteadas. Depois, ficam esquecidos, abandonados em lugar ignorado.

Com os best sellers da moda também tem uma relação difícil, variando entre o amor e o ódio. Muito mais ódio do que amor! Para o Arnoldo, a leitura é um ato pessoal, íntimo, quase um segredo sendo revelado ao pé do ouvido. Por isso, entende que a perspectiva de estar lendo algo em conjunto com milhões de outras pessoas subverte esse conceito. Pior ainda se a história virou filme... Aí, ou ignora-os deliberadamente ou fala mal, só por despeito. Lê-os, é verdade, mas por pura obrigação! Às vezes, quando a pressão da mídia é muita, o livro está encabeçando a lista dos mais vendidos e não se fala em outra coisa, tem o prazer sádico de anunciar que não o leu, mesmo sendo mentira, só para chocar o interlocutor. O Arnoldo comprando best seller? Impossível! Recebe-os de amigo invisível ou como presente de aniversário!

Os vendedores já sabem, pois o conhecem há anos: quase nunca o Arnoldo compra o livro de primeira. É extremamente seletivo e tímido! Prefere namorá-lo por dias, às vezes até por semanas, visitando-o quase diariamente onde quer esteja sendo vendido. A cada visita, sob os olhares condescendentes do funcionário, novos trechos são lidos, em pé, próximo da estante, aplacando ou alimentando a ânsia de adquiri-lo, até que finalmente a decisão de levá-lo vença a resistência. Às vezes, porém, desiste na última hora, encantando-se por alguma outra leitura próxima que lhe tome a dianteira na preferência. Nesses casos, muito depois, talvez meses mais tarde, acaba voltando e levando, envergonhado, o livro então preterido.

Como todo homem, o Arnoldo tem lá suas fraquezas, deixando-se levar pelo momento. Uma vez se interessou por um livro só por causa da “casca”, negligenciando seu conteúdo. A capa era de fato muito bonita, de um material diferente, brilhoso, colorido, moderno. Tinha na lombada o título grafado com letras em alto relevo, cujas cores mudavam conforme o ângulo de observação. Não resistiu, foi amor à primeira vista! Comprou por impulso, sem ao menos folheá-lo. Não tinha sequer ideia do conteúdo. Aliás, jamais soube, colocou-o na estante da sala em posição de destaque e nunca mais o tirou de lá.

O Arnoldo também é de fases. Ultimamente vem lendo somente romances históricos. Antes disso estava na fase dos policiais, mas os crimes, mistérios e perseguições começaram a tirar-lhe o sono. Já no início do ano foi diferente: decidiu ler de uma vez, em sequência, todos os livros do Neruda. Um depois do outro, sem descanso. Chama isso de “imersão”, que justifica dizendo que tal esforço, que para ele é um prazer, serve para aproximá-lo do autor. E de fato, quem o conhece já sabe que intimidade é o que busca com seus livros.

No princípio, por exemplo, era contra deixar qualquer marca que o maculasse. Nem o seu nome se atrevia a escrever na contracapa. Depois, com o tempo, notou que o livro aceita essas interações. Desde que, evidentemente, seja algo inteligente, sagaz, irônico ou até mesmo sarcástico. Jamais um lembrete ou uma observação sem importância. Acima de tudo, que a anotação seja algo pessoal. Isso o deixará único. Talvez tenham saído da gráfica centenas de milhares iguais a ele a cada edição. Mas com suas novas marcas, certamente será singular, carregando consigo os vestígios dos que o conheceram. Desde então o Arnoldo descobriu o prazer de adquirir livros já “rodados”, lidos e relidos por outras pessoas, o que torna provável, numa tarde ensolarada de sábado, encontrá-lo fuçando sebos à procura de obras esquecidas. Não estará nunca, é bom que se diga, em busca de nobres preciosidades ou obras antigas e arrogantes. Seu objetivo são os livros genuinamente “usados”, na acepção vulgar da palavra. É impossível para ele, quando encontra um livro verdadeiramente “judiado”, não pensar em quantas camas já repousou aquele espécime, por quais mãos já passou, a quem já impressionou, fez suspirar ou até, quem sabe, emocionou às lágrimas. Às vezes sente-se até enciumado ao encontrar, sem esperar, uma anotação a lápis ao lado de um parágrafo. Uma vez até desistiu da leitura ao se deparar com uma frase do livro sublinhada por algum antigo dono. Não tinha entendido o pensamento do autor e, ao vê-la sublinhada por outro leitor que provavelmente a achou genial, julgou-se inferiorizado. Definitivamente – avaliou – não estava à altura de tal livro.

Mas se por um lado não despreza o livro apesar da sua quilometragem, de outro, não há deleite maior do que saber que será o primeiro a “possuí-lo”. O Arnoldo sente uma satisfação machista em inaugurá-lo, ser o primeiro a virar suas páginas. Saber que nunca, jamais, ninguém antes dele, folheou aquele espécime. Quando o faz, inspira profundamente, deliciando-se com o cheiro púbere que suas páginas exalam. Por isso, se o desejo é de comprar um livro novo, prefere os que vêm fechados, lacrados com aquela fina película transparente a envolvê-los. Afinal, nunca se sabe... Não quer em hipótese alguma levar gato por lebre!

Para o Arnoldo, os livros trazem diferentes surpresas. Uma delas, que o encanta de maneira particular, é quando, por defeito da guilhotina no momento da impressão, vem “premiado” com algumas páginas coladas no canto da folha, impedindo sua leitura. Na visão do Arnoldo isso o valoriza, deixando-o único. Parece até que aquelas páginas são especiais, contendo um segredo a ser revelado. E caso tenha sido emprestado ou comprado de “segunda mão”, revela o embuste ou desinteresse do falso leitor que o antecedeu. Páginas coladas? Que delícia rompê-las com uma régua de plástico ou com a lâmina de uma tesoura aberta.

Incomodado o Arnoldo fica é com aquelas tiras de papel plastificado, com calendário ou propaganda da editora, que as livrarias insistem em acrescentar ao livro vendido para servir de marcador. O Arnoldo nunca gostou delas, prefere usar a própria dobra da contracapa, enfiando-a por entre as folhas. Assim, sente-se orgulhoso quando tem de passar a usar a contracapa de trás, indicando que sua leitura já transpôs a metade do livro. Algumas vezes, porém, usa o método de fazer “orelhinha” na página específica onde parou, pendendo-a para um lado ou para outro, conforme a necessidade. Ao vê-las depois, no livro, os vincos das dobras desfeitas deixadas para trás, percebe de quantos dias precisou para devorá-lo por inteiro.

Como são escolhidos com cuidado, são raros os livros que o decepcionam. Alguns, é verdade, começam sem sal, quase o fazendo desistir. Talvez por culpa da história ou do estilo com que as palavras se juntam. Mas depois acaba sempre se acostumando e, não raro, surpreende-se por estar preocupado diante da iminência de chegar à última página. Aliás, chegar ao fim é sempre um trauma que leva dias para superar. Como o fim de novela televisiva para a dona de casa, um livro também deixa um vazio no seu dia. Saber que os personagens de quem se tornou íntimo cumpriram seu ciclo, viveram suas histórias e agora o deixarão sozinho, produz nele uma sensação de melancolia, algo como despedida em estação de trem. Imagina os personagens no último vagão, indo embora, “felizes para sempre”, provavelmente sem intenção de voltar. A menos, é claro, que o autor decida escrever uma continuação. Mas não, melhor assim! No fundo, ele bem sabe que no cinema, na literatura e na vida as continuações nunca são tão boas como a primeira parte!

Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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