Na luz da escuridão [Cinthia Kriemler]

Na luz da escuridão

Quando Pedro se jogava no chão de terra daquele galpão escuro e sem ruídos, livrava-se do fardo da sua vida empoeirada. Era acostumado ao escuro, já que se levantava muito cedo para o trabalho na lavoura. No campo, só enxergava do dia os pingos redondos e irregulares que insistiam em varar o imenso telhado do seu chapéu de palha. Não tinha tempo para erguer os olhos e, mesmo que tivesse, não via serventia em mirar um céu tão vazio. Nenhuma colheita a ser feita naquele azul sem nuvens. A tal força divina celestial a quem tantos imploravam não se mostrava disponível à doação. Pelo menos não por aquelas bandas. Nem para ele.

A crença dos companheiros pouco lhe importava. A divindade invisível e sem ouvidos a quem todos chamavam de Senhor, e a quem entregavam seus podres fiapos de esperança, parecia-lhe apenas um mágico de truques impiedosos. Para ele, Deus era uma invenção cruel, um jeito de enganar e acomodar os pobres. Mas a ele o tal Senhor não iludia, e por isso mesmo não perdia tempo senão com a hora da boia, no meio da manhã.

Ele tinha sorte. A maioria dos homens da região levava para o campo a marmita minguada que a miséria ora concedia, ora negava. Eram poucos os que conseguiam trabalho que servisse comida, mesmo sabendo que o alimento seria descontado no final da semana de trabalho. Era melhor pagar pela pança cheia que enfraquecer-se com o vazio da fome por causa de uns trocados a mais. Além disso, ficar sob o sol escaldante até as cinco da tarde  não o consumia. A lavoura era o mal menor. A verdadeira desgraça intercalava-se entre o pesado da lida e a fuga noturna para o galpão.

Quando a sirene anunciava o fim da jornada, ele evitava a boleia do caminhão que encurtava o caminho para casa. A pé, ia preparando os sentidos para o sofrimento que sempre lhe fazia as honras quando virava o último cotovelo da estrada. A visão do casebre isolado dava início a um fincar de dentes na boca cascuda. Espremia, macerava mesmo os lábios até que o gosto metálico de sangue molhava a sua boca. Então, de posse do sabor nauseante e sentindo as agulhadas no beiço, entrava pela porta estreita e acanhada de casa ao encontro do inferno. 

Lá, sentado na penumbra, em uma cadeira de pau sem lustro, um homem gordo e grisalho mirava a porta em obsessiva espera. Com a entrada de Pedro, dava continuidade a um ritual de hábitos repulsivos que iniciava horas antes, quando jogava o primeiro copo de aguardente pela goela imunda.

Sebastião parecia inofensivo. E quem não o conhecesse poderia jurar que naquela sala, na penumbra do cômodo sombrio, o dia findaria sem maiores sobressaltos. Mas não. Ainda haveria muita dor antes que a noite descesse por completo.

Pedro nunca dizia nada. E talvez esse silêncio exacerbasse a sanha daquela besta que recendia a álcool acumulado.

— Que hora é essa? — rosnou o bêbado.

— Num sei. Tenho hora certa não.

— Num tem porque tava na vadiagem, num é desinfeliz?

— Tava na colheita, pai.

— E por que tão tarde? Os otro já tão em casa, que vi pasano na estrada faz quase hora.

— Eu vim andando.

— Num gosta da boleia, junto dos home?

— Eu prefiro vim de a pé, pai.

— Tu num senta na boleia junto dos home porque tu te acha mió que eles, né não? Tu é cheio de bosta que nem a tua mãe e o povo dela! Até o teu nome é coisa de gente besta: Pedro... Parece mais é peido! Hahahahaha!

As mesmas provocações, todo fim de tarde. O mesmo algoz, a mesma violência, o mesmo medo. Pedro se calava e pedia licença para ir pegar a janta. Sebastião respondia que ele não ia comer nada para aprender a respeitar a sua autoridade. Pedro abaixava a cabeça e saía de perto do homem embriagado. Então, Sebastião se levantava, arrancava da prateleira improvisada um rebenque desgastado e descia no lombo do filho. Golpeava tanto que às vezes cambaleava.  Depois de se saciar na dor do filho, largava-o e prosseguia em sua rotina de abusos. Pedro ouvia, então, entorpecido, o estupro da irmã, Rosarinho.

Antes, quando a menina tinha alguma esperança de que a bestialidade de Sebastião podia ser detida, ela gritava pelo irmão. Gritos estridentes como os de um bicho preso em armadilha. Com o tempo, tornaram-se apenas sons sufocados pela descrença. Pedro se levantou do chão muitas vezes para tentar ajudá-la, mas só fazia era apanhar mais um tanto, e com mais força ainda.

Aos poucos, Rosarinho cessou até os lamentos. Como um adulto calejado, fechava os olhos e estremecia, enquanto o animal a penetrava. Pedro não conseguia deixar de pensar que ela se calava para poupá-lo de uma nova surra, e a sensação de ser protegido por quem deveria proteger acabava por destroçá-lo ainda mais. A sina de Rosarinho era sem volta.

Ele sentia saudade da mãe. A mulher silenciosa e meiga sucumbira havia anos aos maus-tratos do marido. A única tia que conheceram, irmã da mãe, morava na capital e só tinha aparecido por ali umas três ou quatro vezes, até que Sebastião a encurralara na cozinha, bêbado, tentando estuprá-la. Nunca mais.


E Pedro se dera conta de que não restava mais ninguém por eles. No começo fora mais difícil, porque ele ainda cismava que podia ser feliz. Mas logo percebeu que a esperança doía mais que as lambadas e desistiu de imaginar coisas boas.

Uma noite, assim que o pai dormiu, jogou-se para fora do casebre, aos tropeções. Caminhou pela estrada sem lua, guiando-se pelo instinto. Só notou que havia se distanciado muito de casa quando avistou o galpão desconhecido, plantado no meio do nada como um monstro imóvel. Extasiado, empurrou a enorme porta dupla e recebeu a escuridão. Acolhido por um sopro morno, deixou-se tragar por uma sensação que só mais tarde reconheceria como conforto. Um cheiro confuso e distante chegou às suas narinas, como se o alimento impregnado naquelas paredes  não tivesse partido nos caminhões da fazenda. 


Nessa noite, e em todas as outras que se seguiriam, deitou-se no chão do galpão sem pensar nas horas, enquanto olhava para cima e via o céu de estrelas pelas frestas das telhas. Repousando as tristezas naquela escuridão entremeada por filetes de luz, inventou para si uma vida sem as surras do pai, sem a colheita extenuante, sem os lamentos da Rosarinho estuprada. E, aos poucos, permitiu até que a memória voltasse às trilhas douradas da infância, às cores dos pássaros, ao cheiro do pão que a mãe assava ainda de madrugada para que ele não fosse para o campo sem alimento. Descuidou-se da realidade e sonhou com uma família, com uma mulher tão boa quanto a mãe, e com uma prole bem nutrida.  Em seu sonho, o que esperava por ele a cada fim de tarde era uma mesa de feijão e carne e risos e felicidade. 

Seguiu assim, noite após noite. Sentia a dor da coça, lambia o sangue dos lábios, ouvia os gemidos de Rosarinho, esperava o silêncio da casa e corria para o galpão abandonado. Na volta, sempre faltava pouco para o amanhecer, mas  não sentia cansaço. Seu sono já tinha se alimentado. 

Então, aconteceu aquela noite horrível.

Pedro soube, no momento em que se deitou na escuridão, que o seu colchão de terra havia sido maculado. Faltava poeira sob suas costas. Alguém havia estado ali e pisado tudo sem cuidado. Profanação. Olhando para o alto, sentiu tarde demais o fedor dos excessos de Sebastião.

— Tu achô que ia me enganá até quando, seu merda? — o homem bêbado gritou, levantando a mão para o primeiro murro.

Pedro se encolheu no piso duro para esperar os golpes. Mas, soltando uma gargalhada boçal, o pai mudou de ideia e o apanhou pelo cós da calça, tentando virá-lo de costas para penetrá-lo como fazia com a irmã. E enquanto forçava Pedro a ficar de quatro para a violação, espumava pelos cantos da boca.

— Hoje tu vai sabê quem manda, moleque! Vô te isganá que nem eu fiz com aquela égua da tua mãe!

Muito tempo depois, quando sentiu a dor insuportável nos nódulos da sua mão direita, Pedro percebeu uma viscosidade entre seus dedos. Esfregou as mãos na terra várias vezes, até que parou de senti-las grudando. Um cheiro doce e enjoativo impregnava o ar. Levantou-se, mas na tentativa do primeiro passo tropeçou em alguma coisa que o derrubou. Tateou o chão até sentir de novo as mãos meladas pelo sangue de Sebastião. E sentiu o mau cheiro da aguardente barata que se desprendia do morto. Incapaz de pensar, fugiu sem voltar os olhos para o galpão.

Em casa, chamou por Rosarinho. A menina, surgindo detrás do pano que era usado como cortina, deitou nele o olhar opaco.

— Eu matei o pai, Rosarinho — disse, sem encará-la — Ele foi atrás de mim e quis fazer comigo o que faz com tu. E ainda me disse que esganou a mãe. Aí, eu matei ele, minha irmã. Matei, matei!

— Matou não, Pedro. Quem matou o pai fui eu — a voz dela soou sem inflexão.

— Deixe de bestagem! Num repete isso! Cumé que tu ia ter matado o pai?

— Com a faca... Com a faca dele.

Rosarinho estava fraca da cabeça. Coisa do sofrimento que passava nos estupros. Tinha que ser! No entanto, tudo o que Pedro se lembrava era do pai tentando abusar dele. E, depois, das mãos cobertas de sangue. Mais nada.

— Tu num lembra de nada, num é? — continuou a menina — É porque não foi tu que matou o pai.

— E como foi que tu fez isso, Rosarinho? — ele se desesperou.

— Tem é tempo que eu te sigo toda noite. Tinha medo de ficá aqui sem tu. Eu ficava do lado de fora do galpão, escondida, te esperando. Daí, hoje, eu vi quando o pai chegou lá. Tu bateu muito nele, Pedro. Tu bateu tanto que ele caiu no chão feito um saco vazio. Mas tu num matou ele não. Quando eu entrei, o pai tava desmaiado e tu também. Peguei a faca na cintura dele e enfiei uma, duas, três, quatro...

Olhos vidrados, a menina repetiu no ar o trajeto que a faca fizera no bucho de Sebastião. Dezessete vezes. Pedro tentou abraçá-la, mas ela o empurrou, passando para o outro lado da cortina improvisada, novamente muda.

Ele se descontrolou, sentindo um medo imenso pela irmã. Sabia que logo que amanhecesse a polícia encontraria o cadáver e chegaria até eles. E levariam Rosarinho para longe dali. Acostumara-se a esquecer de si mesmo porque lhe convinha sobreviver à dor, mas não aguentaria ver a vida dela destroçada.

Desesperado, perguntou o que ela fizera com a faca, mas a irmã não respondeu, trancada em seu mundo impenetrável. Vendo que muito em breve haveria claridade, ele correu para o galpão. Era preciso esconder a faca antes que a polícia fosse avisada do corpo.

Não encontrou nada no chão e nem nos matos ao redor da construção. Desesperado, pensou que teria de desistir da busca. Foi quando lhe ocorreu o pensamento. Tateando o corpo de Sebastião, encontrou enfiada em sua barriga a faca que descansava da função macabra de assassinar seu próprio dono. Sem pensar, puxou a arma e a embrulhou na camisa, correndo para longe. Já bem distante do galpão, usou a faca ensanguentada para fazer um buraco fundo e a enterrou. Esfregou novamente os dedos na terra, até que o barro cobriu as manchas marrons do sangue coagulado. Então, arrancou a camisa manchada e rumou para casa. A manhã ainda não tinha chegado quando, nos fundos do casebre, a fumaça das roupas queimadas de Pedro e Rosarinho subiu ao céu, malcheirosa, levando consigo a morte. 

A menina nunca mais falou. Nem no enterro do pai, nem durante as investigações feitas apressadamente pela polícia local. Não houve esforços para encontrar o culpado. Sebastião não valia o empenho. Dias depois, os dois irmãos foram levados para a casa da tia, na capital. Nunca mais voltaram ao galpão. Nem depois que os anos se passaram e ambos retornaram para o campo, para a velha casa, trazendo, a reboque, a companheira e os filhos de Pedro. Os fantasmas do tempo foram enterrados pelos risos das crianças. Na mesa, um cheiro de feijão e de carne.





Cinthia Kriemler - Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

8 comentários:

cecilia disse...

Sensacional, Cinthia Kriemler! Lembra-nos toda a miséria humana tão longe de nós outros privilegiados. E o final redentor, como que a dizer que ainda poderá haver salvação. Parabéns demais pelo seu jeito de narrar. Texto magnífico !

Maria Silvia Queiroz disse...

Nossa, quanta verdade escrita!!! Quanta realidade, pois muitas famílias passam por essa violência!!! Demorei para escrever mas li numa enorme velocidade para saber o desfecho!!! E eu teria feito a mesma coisa, se fosse Rosarinho!!! Amei, amei e amei. PARABÉNS, Cinthia!!! É de tirar o fôlego!!!

Nena Medeiros disse...

Sensacional! Catártico, como bem convém a essas crianças destruídas pela realidade triste desse nosso Brasil.

Nena Medeiros disse...

Sensacional! Catártico, como bem convém a essas crianças destruídas pela realidade triste desse nosso Brasil.

Cinthia Kriemler disse...

Cecilia, Maria Silvia e Nena, muito obrigada pela leitura e pelos comentários! :)

Emerson Braga disse...

Cínthia, vou ter que provar mais tarde da leveza e da ligeireza de Leminski, pois tanto esse fenomenal texto quanto o VIA DOLOROSA, que você publicou na SAMIZDAT, me sugaram as energias, consumiram minhas ideias e sentimentos de modo voraz. A vida desfila por suas palavras mais real do que a vida que vemos por aí. Adentramos não só os galpões e casebres, mas as almas; e, uma vez lá dentro, queremos sair, mas sem pressa, pois já estamos completamente imersos em sua trama literária... Aqui repleta de sombras e escuridão, mas lá no fundo (ainda bem!) sempre nadam alguns peixinhos luminosos. Você arrasa, Cínthia! Sou fã!!!!

Cinthia Kriemler disse...

Emerson, meu querido, muito obrigada! Vale escrever para ganhar comentários como este de alguém que escreve como você! Beijo imenso!

Marco Aurelio Vieira disse...

Esse me tomou o ar. O conto chega a pulsar, como se tivesse vida própria. Sim, obra de arte!