Reencontrar-se [Maria de J. Fortuna]

O Espelho de Picasso
Reencontrar-se

Todo mundo tem dentro de si o eu verdadeiro. É preciso preparar o campo para que ele se revele.  Toda  a  luta contra a nossa sociedade capitalista, que cultiva o consumismo e a hipocrisia,  é a  busca da nossa verdadeira identidade. Para os que creem ou não em um Deus onipresente, é necessário resgatar-se  desse sufoco pelo domínio do poder, das novas tecnologias viciantes, etc...  No meio poluído, em todos os aspectos em que vivemos, fica cada vez mais difícil o “Conhece-te a ti mesmo”. A ocultação do eu, que eu chamo de alma, começa desde a infância, quando obrigamos os pequenos a enxergar através de nossa visão já poluída por circunstâncias que levam ao afastamento do ser, portanto a perda de si mesmo, para se adequar a uma falsa realidade.   Tudo contribui para esse desfoque: atitudes preconceituosas, fanatismo religioso, o cultivo da ignorância pelos poderosos da nações.

Todo mundo tem uma voz interior que clama por ser ouvida. Mas, tragicamente, há vidas que passam pela Terra e partem sem que isso aconteça. Isto porque, por um lado,  foram envolvidas na trama que o poder econômico articula em prol da alienação dos povos. Por outro, o vício da dominação de um membro sobre o outro  invade as famílias, e a disputa se torna catastrófica para as gerações que aí estão e as que virão.

Para isso, nada melhor do que a propagação daquilo que pode nos fazer medo. No caso, os horrorosos noticiários de rádio e TV  que  acontecem 24h em nosso dia a dia, trazendo o medo que paralisa as pessoas. A sociedade cria uma expectativa de comportamento, o chamado “politicamente correto”, que é sempre um convite para mascarar nossa própria identidade.  Pe Fábio de Melo em seu livro Quem me roubou de mim, chama esse processo de  des identificação, sequestro do eu.  Onde entregamos ao outro nossa liberdade de ser e agir. Toda nossa luta diária para proteger ou buscar o eu verdadeiro, resulta no reconhecimento de quem sou e quais são meus limites e possibilidades neste mundo.

Em dado momento, se nos encontramos e nos reconhecemos. É como se partíssemos  uma pedra dura e  fria e,  oculta dentro dela,   déssemos com  nossa verdadeira forma em essência. Sinto esse momento como se a alma rompesse a pedra-casulo  e de lá saísse uma borboleta azul fluorescente! Quebrasse o vidro das bandejas, vendidas aos turistas, que as aprisionam como enfeite, e elas se despregassem dali  em forma de bailado, voando para bem longe daquela opressão. Sutil e suavemente...

Mas não existe viagem mais fascinante do que para o interior de nós mesmos. Existem as falsas viagens através de drogas e álcool em excesso, mas seria como invadir os portais da mente, para mim um templo,  para fugir ou se extasiar diante do “belo”. Há outros meios para buscar o verdadeiro encontro ou reencontro. De perceber a Beleza!

Pertencer a si mesmo não é uma tarefa fácil. Num jardim todas as flores são belas, mas o ato de escolher uma ou algumas quer dizer renunciar a todas as outras. Diante da Natureza maravilhosa em que vivemos, torna-se difícil escolher sem apego, outro obstáculo o qual sempre nos defrontamos.

Às vezes ficamos tão perdidos dentro de nós mesmos que, ou optamos por um reencontro através de uma terapia ou meditação, ou começamos a entrar no trágico processo de nos convencermos que não há, para nós,  outra alternativa que “amar” o dominador e fingindo  ser o que não somos. O que eliminaria a  possibilidade   deste encontro que deve ser amoroso e diário.

Vale a pena arriscar-se a cada momento a ser estranha... Diferente! Faz parte. Mas a recompensa é maravilhosa!  É o que fazia Einstein na  Segunda Guerra Mundial durante a terrível perseguição aos judeus. Ele judeu, no ato de se reencontrar,  tocava seu violino...


Maria J. Fortuna-Nasceu em São Luís, Capital do Estado do Maranhão.
Escolhi Serviço Social como profissão. Com toda esta incursão no mundo das artes, descobri que não podia viver longe desse cenário. A literatura havia brotado cedo. Desde menina, sou fascinada pela palavra.
Ingressei na REBRA, onde recebi incentivo e divulgação do meu trabalho e resgatei alguns textos que foram escritos no desenrolar da minha existência, aos quais não dei muito valor na época em que foram produzidos. Recomecei a escrever poesias, crônicas e livros infanto-juvenis.
Publiquei cinco obras infanto-juvenis, ao longo dos últimos anos: O menino do velocípede,  A incrível estória de amor de Mimo e Dedé , ilustrados pela autora, ambos esgotados. O anjinho que queria ser gente, que está na 2ª edição e O pardalzinho desconfiado, com ilustrações de Josias Marinho. Os dois últimos pela Mazza Edições de Belo Horizonte. Em 2008, foi lançada em Portugal outra obra de minha autoria por essa Editora: A sementinha que não queria brotar, com ilustrações de Regina Miranda. Este livro foi adotado pela Prefeitura de Belo Horizonte para as crianças da rede escolar.
Participei de duas Antologias a convite da Editora Rosane Zanini: "A cidade em nós" - em três línguas (2010)," Um dia em minha cidade"(2012). Ambas com crônica. Neste último ano, participei da Antologia: "L´indiscutable talento des Écrivaines Brésiliennes" pela REBRA, com poesia.

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