A PIOR SOLIDÃO [Celso Moraes F.]

A PIOR SOLIDÃO


Um dos temas por excelência em todos os tempos, desde que o homem aprendeu a se expressar coerentemente sobre coisas abstratas, é a Solidão. Diferencia-se estar sozinho de estar solitário porque o primeiro é uma necessidade de praticamente todo mundo em algum momento da vida, aquela hora em que você precisa estar a sós consigo mesmo, e o segundo é, segundo Platão, a melhor definição de Inferno: quando você quer (ou precisa, ou as duas coisas) de alguma companhia, e não a tem. A solidão é fera, devora, é amiga das horas e prima-irmã do tempo, como bem nos disse Alceu Valença, que ainda afirma que ela faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no coração. Nada mais verdadeiro! Mas a solidão “simples” tem duas variantes tão terríveis ou até piores, e de uma delas falar-se-á aqui.

A primeira é a solidão em meio à multidão, que pode ser, como quase sempre é, composta de familiares e ‘amigos’ que, na verdade, não ligam a mínima uns para os outros e apenas – quando muito – fingem interesse e preocupação. A outra, que merecerá atenção a seguir, é talvez a pior das três: a solidão a dois.

Logo de cara, cheira a paradoxo: você está com alguém. E, ao mesmo tempo, não está. Geralmente, é uma relação unilateral, em que apenas um sente a necessidade do outro, apenas um quer a companhia do outro, apenas um demonstra com palavras e gestos o amor que sente. (Existe a variação dos dois não ligando para o relacionamento, mas esse tipo não causa dor em ninguém, apenas tédio, e é desinteressante para este texto.)

Pode ser que a pessoa ‘ausente em presença’ não se dê conta do que ocorre. Mas, caso ela perceba, pode ocorrer uma dessas duas coisas: não se importar, e que o outro sofra ou suma, ou, pelo contrário, ficar triste por ser a causadora, em boa parte dos casos, involuntária, da dor do outro. Sente-se injusta, porque a balança está desequilibrada. E quando o que se importa e demonstra isso ainda não percebeu o que ocorre, fica meio que ludibriado, sentindo-se feliz com a pessoa quando ela não se sente feliz com ele. Uma vez descoberta a situação, é impossível não se sentir um inútil, um fracasso como companheiro, uma criatura desinteressante que falhou em fazer a parceira feliz como ele – até então – era. Aí, pronto. Nada mais será como antes, a não ser que os dois encontrem uma maneira de reverter o quadro. Vanessa da Mata já ensinava que ‘bom encontro é de dois’. Diálogo a um é monólogo, sem mais.

Entre as celebridades literárias, serão citadas aqui duas que tinham problemas em ser um com o outro.

Clarice Lispector foi casada de 1943 a 1959 com o diplomata Maury Gurgel Valente. Teve com ele dois filhos, e aparentemente tiveram uma vida conjugal sem grandes problemas. Mas uma das maiores escritoras brasileiras tinha uma dificuldade monumental de se entregar e se abrir para o convívio com outra pessoa, mesmo que a amasse de verdade. Uma de suas citações mais conhecidas é: “Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém. Todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando eu estou sozinha”.

Virginia Woolf, escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo, casou-se em 1912 com Leonard Woolf (cujo sobrenome usou na literatura em lugar do Stephen de sua certidão de nascimento). Os dois tinham os mesmos gostos, eram igualmente cultos e eram sócios numa editora que revelou grandes talentos literários. E, mais importante que tudo, os dois se amavam.

Só que Virginia tinha crises depressivas, que pouco a pouco minaram sua capacidade de escrever e mesmo de ler, depois de ter dado ao mundo obras imortais que ainda hoje são cultuadas. E um dia, foi demais para ela. Era 28 de março de 1941. Deixando um bilhete para Leonard e para a irmã Vanessa, as duas pessoas a quem mais amara na vida, logo após mais um colapso nervoso ela vestiu um casaco, encheu seus enormes bolsos com pesadas pedras e entrou no rio Ouse, afogando-se. O corpo só foi encontrado dia 18 de abril. Até hoje emociona ler as partes do bilhete destinadas ao marido:

“Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro ser humano. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar.

(…) Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda a minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V.”

Como se vê, às vezes o amor não é suficiente. Mesmo assim, aqueles que se encontram numa situação similar à de Leonard, com ou sem problemas mais graves da outra parte – nem sempre é uma ‘depressão’ no sentido exato da palavra, mas um estado de tristeza ou uma autoavaliação baixa causada por comentários depreciativos de outras pessoas (e nesse caso é só sair de perto da fonte desses problemas) –, quando amam de verdade buscam de todas as formas ajudar a outra pessoa, trazendo a ela a luz e a felicidade que ela mesma proporciona, mas não usufrui. Em alguns casos, dá certo. Essa história pode ter um final feliz. E qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade torce para que dê certo.

~CMF~ 06012014

"Celso Moraes F nasceu em 1968, e tem vivido boa parte de sua vida em mundos muito particulares, cujas chaves são as artes de modo geral e a literatura e o desenho em particular. Já foi professor por mais de uma década (Literatura, Redação e Filosofia), mas acabou desiludido com o sistema educacional, no que se refere a direções e coordenações - entre os alunos, muitos amigos até hoje e contatos em redes sociais fielmente mantidos. 
Tenho um blog, o Absolutti, onde escreve com certa constância. "

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