ANA CRISTINA CESAR [Raul Arruda Filho]

ANA CRISTINA CESAR 

Sei que cheguei tarde, mas houve um momento em que pensei em me casar com Ana Cristina Cesar. Estava a encenar reprise da cena descrita no poema Happy end, um clássico da geração mimeógrafo. Não tenho certeza, parece que são versos de Cacaso:

o meu amor e eu 

nascemos um para o outro 

agora só falta quem nos apresente

Eis o problema: ninguém nos apresentou. Só conheço a poesia escrita por Ana Cristina Cesar (Ana C, como é costume grafar o seu nome).

É a distância que nos une. Claro, eu a vi em dezenas de fotografias, um punhado de poemas e cartas (nenhuma para mim!). Foi através da projeção imagética que construí o entusiasmo amoroso. Foi através desse mecanismo perverso que acordei do sonho bom e percebi que minha paixão jamais seria correspondida. Nosso encontro nunca foi possível.

Um dos obstáculos estava na diferença de idade, sete anos nos afastaram. Lonjura cronológica ou psicológica mais do que suficiente para separar o interior de Santa Catarina do Rio de Janeiro. Além disso, quando comprei o primeiro de muitos exemplares de A teus pés, ela já estava morta. Eu ainda não sabia disso, só o soube depois de ter presenteado alguns amigos com o livro.

Deslumbramento. O que descobri de imediato é que a mulher capaz de escrever aqueles versos cheios de pontas (feitos para machucar o leitor), provavelmente se divertia asfixiando os homens − para depois soprar lentamente o oxigênio nos pulmões vazios através de beijos enlouquecedores.

Em 1983, ela tinha 31 anos. E uma vivência que me deixaria envergonhado se soubesse um terço dos detalhes sórdidos − que me deixam constrangido, quase vinte anos depois de sua morte. Retrato de época. Entre o Rio de Janeiro e a Inglaterra, um turbilhão de emoções, a voracidade da liberação sexual, a iconoclastia juvenil, a luta contra a repressão política.

O corpo fala, relata, cont(r)ata, delata. Eram de metal precioso as dezenas de corações despedaçados, inclusive o próprio, muitas dessas historias escorrendo sub−repticiamente na Correspondência Incompleta, organizada pelo Armando Freitas Filho e a Heloisa Buarque de Hollanda. São cartas que mencionam outras loucuras, inúmeras "viagens" intelectuais, literárias, químicas, a destruição interna, a perda de contato com o mundo externo – a esperança de encontrar abrigo depois das portas da percepção, lá nos jardins suspensos dos paraísos artificiais.

Estou bonita que é um desperdício, imaginei a poeta sussurrando no meu ouvido. Arrepiou tudo. Ninguém consegue resistir a esse tipo de provocação. Quase cometi uma écloga em retribuição. Coisa de rapaz deslumbrado com mulher fatal. Um haicai já estava de bom tamanho, mas sequer essa síntese fui capaz de compor.

Há um amor que é anestésico, há um amor // que entra de férias. Não queria nenhum dos dois. Queria um pouco mais, muito mais, provavelmente ultrapassar limites. Certamente, em algum momento, alguém me diria que isso é demais. Eu responderia, jamais, ciente de que é difícil manter o controle com Essas molas a gemer no quarto ao lado, trechos da trilha sonora que anuncia a felicidade de outro casal. Entre sobressaltos, colagens de sentimentos alheios e crises de ansiedade, digo para mim mesmo, Te acalma minha loucura! Digo sem acreditar no que estou a dizer, sem saber se serei capaz de cumprir com essa promessa.

Na Correspondência completa, descubro que Thomas era um nome capaz de alterar o eixo do mundo. Diante da possibilidade de repetir cenas de Casablanca, pensei em modificar meu nome. Brincar de ser outro. Mas, o fato é que Não estou conseguindo explicar minha ternura, minha ternura, entende?. Desisti de cometer essa imprudência. Também não aceitei ser chamado de Augusto. Depois de outras leituras, suturas na alma, alguém me informou que alimentar fantasias não diminuiria a minha fome. Ou o apetite que a corroia. 

Cenas de abril foram encenadas no dia 29 de outubro. Arpejos e tragédia suburbana, Ser a greta, // o garbo, as palavras deslizando pela página, corpos colados um ao outro, compondo o poema, o grego teorema, a certeza de que nada, nem mesmo um terremoto, seria capaz de diminuir o desespero e acalmar a dor. No fim da história, nenhum nome de homem ou mulher foi capaz de impedir os passos para atravessar o saguão do mal−entendido, como (d)escreveu o Armando Freitas Filho, em um daqueles poemas−epitáfios que foram escritos depois do vôo sem volta, sem fim, o corpo despedaçado no meio da rua.

Não casei com Ana Cristina Cesar. Inédito e disperso, só me restou repetir – como um mantra: Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.




Raul e a Literatura  
31 de janeiro de 2012 
Raul J.M. Arruda Filho, Doutor em Teoria da Literatura (UFSC, 2008), publicou três livros de poesia (“Um Abraço pra quem Fica”, “Cigarro Apagado no Fundo da Taça” e “Referências”). Leitor de tempo integral, escritor ocasional, segue a proposta por um dos personagens do John Steinbeck: “Devoro histórias como se fossem uvas”. 
Todos os direitos autorais reservados ao autor.

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