Aos colegas escritores e amantes da literatura [Cássio Pantaleoni]

Aos colegas escritores e amantes da literatura

Cássio Pantaleoni 

Recentemente li um artigo interessante na versão digital da Wired (renovada revista britânica sobre tendências tecnológica e científicas). Em linha gerais, a matéria reporta o prêmio conquistado pelo NetFlix pela série original, produzida por eles, intitulada "House of Cards". Entretanto, o que a matéria destaca é que o NetFlix, que além de oferecer conteúdo cinematográfico dos grandes estúdios, passa a integrar o panteão dos geradores de conteúdo. Por conta disso, dada a exclusividade desses conteúdos (que só podem ser acessados no NetFlix), a empresa se candidata a ocupar o lugar da televisão no futuro. Ameaça inclusive gigantes como a HBO, que obriga a sua audiência a assistir seu conteúdo no momento em que ele é transmitido, se obriga a preencher a grade de programação 24 por dia e ainda, ao lançar uma série, para alcançar a audiência desejada e minimizar os investimentos, disponibiliza cada episódio da temporada em uma semana (mesmo considerando que eles estão investindo no HBO GO).

Pois de outra sorte, o Netflix funciona em qualquer lugar, em qualquer dispositivo, a qualquer hora e não se obriga a cumprir grade de programação. A empresa pode inclusive lançar todas as temporadas de uma série no mesmo instante e ter esse conteúdo consumido até o limite do cansaço visual de cada expectador. Interessante?

Pois pensem, os meus colegas escritores, em todo o esforço da mídia e dos fabricantes em divulgar o e-Book. Imaginem a Amazon disponibilizando conteúdo exclusivo, gerado por escritores contratados para tal fim, escritores de renome, que firmam uma parceria com esses provedores de serviço de disponibilização de textos, uma parceria exclusiva. Imagine o seu escritor preferido sendo possível de ser lido apenas através do Kindle, que teria um servidor de inumeráveis títulos como motivador para a sua adoção rápida (a promessa de facilitar todo o acesso, ter imediato acesso ao seu livro de interesse). Imagine que esses livros (a exemplo dos filmes contemplados na fitoteca do NetFlix) estejam ali por um preço mensal de 15 reais.

Interessante, não? Qualquer livro que vc puder ler durante um mês por apenas 15 reais! Vc resistiria a essa oferta? Pois, pensem além: ter-se-ia disponível livros exclusivamente escritos para o servidor Kindle, o servidor Kobo etc etc etc. Nenhum outro device/fornecedor/provedor o teria exceto aquele um específico. Claro que o escritor que conquistasse tal espaço e prestígio seria bem remunerado por obra. Pensem, por que remunerar por exemplar vendido se o que está sendo vendido é um serviço a milhões de usuários-leitores? Ora, esse escritor específico, devido ao sucesso, pediria uma boa quantia de dinheiro por esse trabalho. Algo justo. E quanto aos demais escritores, aspirantes a conquistar o coração de novos leitores? De certo que eles se interessariam em disponibilizar suas obras para tais provedores. Mas como seriam remunerados se não se trata mais de "cópias" e sim de um "serviço"? Espera um pouco! diria você. Então não haveria mais download de livros para um dispositivo específico? Então eu simplesmente acessaria o livro por uma interface web no dispositivo para o ler e depois desocupar todo o espaço em disco do meu dispositivo? Ora, e por que não gente? Mas como os escritores poderão sonhar em fazer dinheiro em um cenário como esse? E as editoras? Ora, o próprio provedor torna-se editora! As livrarias perdem relevância. Bibliotecas?

Imagino escritores produzindo conteúdo, por que querem mostrar o seu trabalho, sem cobrar nada, sem receber um níquel sequer. O universo virtual (a biblioteca-virtual gigantesca) onde residem milhares e milhares de textos que ninguém lê, pois o que estará sempre na primeira página é a obra do escritor que interessa ao provedor, que se submete ao serviço, porque garante a sua remuneração no momento em que entrega a obra de interesse do provedor. Se poucos leem fulano, por que pagar à fulano?

O livro físico tem resistido ainda em decorrência de seu valor além da distração e seu valor enquanto objeto. O livro ainda não nos parece descartável como um filme ou um a série de TV. Ele ainda não está disponível em qualquer lugar, exceto livrarias e bibliotecas. E as editoras cumprem um papel de sugerir esse ou aquele autor, concedem espaço a esses escritores que elas entendem que agregam algum valor aos seus negócios. O escritor ainda é remunerado por obra (o que pode ser bom ou ruim). Mas o maior problema, parece-me, reside na cultura da distração, do entretenimento, da descartabilidade imediata, pois tudo está também imediatamente acessível. O livro que é descartável, que não oferece nada a mais do que uma distração, não resistirá.

Em 2011 dei uma palestra sobre o livro digital, sobre as tendências, e o velado intento com o qual ele flerta. Transformar o livro em jogos, em hyperlinks, em drag-and-drop sempre me pareceu um descaminho do livro. Textos, gente! Texto! Não games, não imagens. A solidão de um texto apenas. O diálogo surdo entre leitor e autor.

Em 2012, em outro evento, aludi novamente à questão do que estava por detrás das intenções do livro-eletrônico; aludi mesmo a essa ideia de serviço sobre a qual discorro aqui. Tudo isso me soa como uma ditadura. Um carrasco que se aproxima indiferente das lágrimas de súplica. Talvez não haja como evitar. É provável que não possa ser evitado. É inclusive possível. Talvez a indústria digital tenha encontrado enfim uma nova moeda de troca: tudo ao alcance dos dedos por 15 reais (ou por alguns bitcoins). Mas o que mais me preocupa é a supressão do caráter próprio da literatura, o caráter de valor. Se todo o texto pode ser enviado ao provedor, corrigido por robôs digitais, formatado automaticamente por robôs digitais, sem o olhar e o juízo de gente que pensa de fato o valor literário, então o que teremos ao final é uma gigantesca biblioteca de falatório inútil, de histórias quaisquer, de textos despreparados. Tudo ao acesso de qualquer um, em qualquer lugar. E todos terão acesso a esse DNA medíocre. E por sua mediocridade, será descartado rapidamente, fazendo com que as gerações futuras migrem para filmes, jogos, enfim: móbiles digitais. Talvez no meio de tudo isso, uma dúzia ou mais de escritores (remunerados pela disposição de colocar o seu texto a serviço da exclusividade do NetFlix ou da Amazon) sobreviverá. Uma dúzia ou uma centena remunerados.

Questiono-me se mesmo o nosso grande Guimarães Rosa conquistaria esse privilégio.

Cuidado, Escritores maiúsculos. Cuidado.

Cássio Pantaleoni é Mestre em Filosofia pela PUCRS no campo de especialização da Fenomenologia e da Hermenêutica. Escritor, finalista da edição de 2011 da Categoria Contos da AGES, finalista do concurso de Contos Machado de Assis do SESC-DF em 2011, Segundo Lugar no 21o. Concurso de Contos Paulo Leminski em 2010, fundador da editora 8INVERSO e profissional da área de Tecnologia da Informação. Autor de "Os Despertos" (2000), "Ninguém disse que era assim" (2002), "Desmascarando a incompetência" (2005), "Histórias para quem gosta de contar histórias" (2010) e "A Sede das Pedras" (2012).

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