Estou aqui [Andre Dias]

Estou aqui

Artigo publicado no site PapodeHomem 

por Andre Dias 

Nem lembro mais do motivo. Não importa. Lembro muito bem é da punição. Recitar um poema para a classe. Lá na frente, perante todos.

— E eu não quero ‘Batatinha quando nasce’, ouviram? Tragam algo de qualidade – disse a professora de português para dois moleques no meio da sala de aula. Um deles era eu.

Para alguém que tinha vergonha de pedir orientação no ponto de ônibus, essa parecia ser uma missão impossível. Motivo pra deixar o horizonte de sobrevida na face da Terra em não mais do que dois dias, prazo dado pela carrasca até o juízo final.

Eu estava tão alterado pela coisa que, quando cheguei em casa, me dei conta que não tinha nem usado os trocados que achei no bolso da calça para comprar aquele chicletão grande com recheio. Numa situação normal, teria sido este o grande evento do dia.

Pois bem, lá fui eu caçar um poema que não fosse bobo. Naquela época, meus livros de cabeceira eram sobre grandes viagens e aventuras de exploradores, além das revistas Quatro Rodas e Placar. Seria difícil achar algo, pensei eu nas profundezas do meu saber.

Minha mãe me sugeriu abrir um baú que havia na sala. Dentro havia livros.
Achei um que tinha poemas. Não me lembro em quantos outros dei uma olhada, mas decidi que daquele sairia o poema que haveria de recitar.

Não tinha “Batatinha quando nasce”, portanto, estava no caminho certo. Já que era para decorar e recitar a coisa, o mínimo que eu precisava era entender o que estava escrito, senão a missão impossível seria mais impossível ainda.

— E se, além de recitar, a professora quiser saber o que significa isso ou aquilo? Pensei eu, já imaginando o aperto que poderia passar.

Eu não entendia nada daqueles poemas ali.

Achei um. Eu sabia o que a autora queria dizer, fazia todo o sentido para mim. Era um pouco grande pra decorar, mas abordava um tema que me chamou a atenção.

Decorei a coisa toda e lá fui eu para o sacrifício, coração na boca. Devo ter emagrecido nesses dois dias, nem vi o resultado do meu time no jogo do meio da semana. O campeonato já deveria estar no quadrangular final do segundo turno, portanto, minha felicidade dependia e muito de um resultado positivo. Mas eu nem me lembrei do jogo.

Bem, depois de poema recitado, o que eu mais queria ouvir era: “Obrigado rapaz, volte para o seu lugar.”

Seguramente, o céu voltaria a ser azul, o ônibus lotado seria o lugar mais confortável e eu poderia, novamente, voltar para o meu mundo. Mas o que eu ouvi não foi bem isso. Se já estava condenado naquele dia, e nada pior pudesse acontecer, o que a professora propôs foi outra condenação ainda maior.

O que a professora disse pra mim? Pois bem:

— Parabéns, rapaz. Era isso o que eu queira. Agora eu quero que você leve este poema para os outros colegas das outras classes, eles merecem ver o que é recitar com propriedade, com sentimento, com segurança.

Segurança? Como assim recitar nas outras classes? Problema deles se não ouviram isso! O castigo não era recitar só aqui? Isso não é justo! O que eu fiz de errado para merecer isso, cacete? Pensava eu lá na frente, congelado, olhos arregalados.

Essa é a pior coisa que pode acontecer se você está na escola. Ninguém quer ser exposto dessa maneira.

Lembro-me que recitei andando no meio da sala, entre os demais alunos, olhando para as pessoas, gesticulando. Eu entendia o poema, portanto havia emoção no que eu recitava. E quando se faz algo com amor, o impacto é maior, o produto é mais profundo, duradouro. Pensando hoje, acho que eu quis mesmo era dar uma mensagem para todos que estavam ali naquele momento. O castigo e o poema foram apenas uma oportunidade.

O poema falava em amizade, em ter amigos. Já não me lembro bem, mas começava com “Ser amigo não é sair para um cafezinho, nem telefonar para dizer alô…”. E terminava com “Ser amigo, é chegar numa tarde fria de inverno e dizer: aqui estou”.

Bem bobinho, mas repleto de significado, como só um poema escolhido por uma criança poderia ser.

* * *

Já faz muito tempo desde esses acontecimentos, mais de 25 anos. Porém, recentemente me lembrei, como se fosse ontem.

Precisei de um amigo, por causa de todas aquelas situações fora dos nossos planos que a vida coloca na nossa frente. E amizade segue sendo uma palavra muito forte para mim. Não sei ao certo quem são, são poucos, bem poucos.

Portanto, achar este ombro poderia ser difícil. Lembrei dela, mas sinceramente não tinha certeza. Resolvi arriscar. Tinha que tentar.

Liguei. Era tarde na noite, chovia.

—  Oi, você pode dar uma volta de carro comigo? Agora?

Assim, sem nenhuma explicação adicional. Estava com o coração na boca.
A resposta?

— Claro! Estou aqui.

ANDRE DIAS
A descrição seria: Andre Dias, 42 anos, engenheiro florestal. Trabalha para salvar as florestas e o planeta. Descansa correndo. Prefere as provas longas, devagar e sempre. Daqueles que se for para correr, chama que ele vai.

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