Novos autores x concursos literários [Maurem Kayna]

Novos autores x concursos literários

O papel dos concursos literários na carreira de novos autores parece que tem ganhado um peso significativo nos últimos tempos. O número de concursos realizados a cada ano é expressivo – segundo matéria da Folha, em 2012 houve mais de trezentos concursos literários abrangendo diferentes gêneros. As premiações variam da emissão de certificados até a publicação em editoras conhecidas ou prêmios em dinheiro (alguns de valores bem convidativos, aliás: o Prêmio São Paulo paga R$200 mil para o vencedor do melhor livro do ano, mas é para obras já publicadas).

Não há dúvida de que receber destaque em um concurso renomado como o Prêmio Sesc de Literatura, por exemplo, pode fazer uma carreira deslanchar. Ter sido a primeira colocada por dois anos consecutivos no concurso do Sesc certamente teve relevância no processo de seleção de Luisa Geisler para os 20 Melhores da Granta; assim como ser selecionado no Prêmio Benvirá em 2011 abriu caminho para Oscar Nakasato receber o Jabuti em 2012.

Para ter os benefícios de um prêmio literário, entretanto, há várias questões que o autor-candidato precisa considerar, como seriedade do concurso / prêmio, custo, tempo disponível e direitos autorais, só para ficar com alguns exemplos. 

Seriedade dos concursos literários 

Sem querer apontar aqui deméritos de “a” ou “b”, sabemos que há ‘certames’ e ‘certames’. Alguns desses concursos são meros caça níqueis – seja pela cobrança de inscrição ou por serem apenas uma estratégia de mercado disfarçada por parte de “editoras” que sobrevivem da vaidade  + ansiedade de autores iniciantes e utilizam supostos concursos para recrutar autores que querem ser publicados e se dispõem a pagar por isso.

Não há demérito algum em querer aproveitar qualquer oportunidade para ser lido, desde que não tenhas exagerada expectativa pois em geral esse tipo de publicação não te fará alcançar um número significativo de leitores. E se decidir encarar esse tipo de estratégia, o faça de modo consciente, sem a ilusão de ser “descoberto” por quem quer que seja, sabendo que se trata de uma dentre tantas modalidades de auto publicação.

É importante destacar, no entanto, que a seriedade do concurso não está relacionada apenas ao seu porte ou à chance de projeção dos vencedores no cenário editorial. Iniciativas pequenas, envolvendo grupos de apaixonados pela escrita / leitura também podem ser sérios e mesmo que não tenham o potencial de lançar novos nomes no mercado, podem, ao menos, responder à ansiedade do autor quanto às impressões que seu texto provoca em alguns leitores. Exemplos desse tipo podemos encontrar nos desafios do Entre Contos (focado em literatura fantástica) e outras iniciativas promovidas por blogs ou comunidades em redes sociais.

Ao autor, cabe ter clareza de objetivos, saber o que pretende ao enviar seu texto, o risco que corre caso não o tenha registrado na Biblioteca Nacional e a consciência de que mesmo um prêmio sério e respeitado não é garantia de torná-lo conhecido e lido em larga escala. 

O custo da participação em concursos literários 

Tenha em mente que a maioria dos concursos exige a entrega do trabalho em mais de uma via (normalmente são solicitadas 3 ou 4 vias impressas). No caso de concursos de contos ou poesias onde são solicitados de 1 a 3 contos, isso pode não significar muito, mas em caso de concursos para livros prontos – de qualquer gênero literário – com número mínimo de páginas variando entre 80 e 150  - isso pode chegar a limitar o número de certames dos quais um autor decide participar.  O custo por concurso varia muito, mas se quiseres controlar esses gastos, considere, no mínimo, custos de impressão / fotocópia + encadernação + correio. Só com sedex com AR (alguns concursos exigem envio por sedex) já cheguei a gastar perto de cem reais (claro que estar no extremo sul do país pode ser uma desvantagem nesse quesito, mas o correio cobra pela combinação volume / peso e papel não é a coisa mais leve que conheço). Lembro que para o Prêmio Governo de Minas Gerais (que solicitava 4 cópias encadernadas de uma obra com pelo menos 80 páginas) gastei quase R$250,00. Se quiser incluir o custo de revisão, estime algo entre R$ 2 e R$5 por página (ou trate bem seus amigos com bons conhecimentos em língua portuguesa que porventura tenham tempo livre… risos).

E quanto a possíveis taxas de inscrição, bem eu tenho como regra geral não participar de concursos que cobram taxas. Com isso não afirmo que todo e qualquer concurso que cobre não seja merecedor de respeito, haverá exceções, certamente. Mas diante da necessidade de selecionar concursos para participar (e da óbvia impossibilidade de participar de todos, inclusive por falta de paciência e interesse) esse é um dos critérios que utilizo. 

Quanto tempo é preciso investir? 

Se o objetivo é conquistar a atenção e respeito dos jurados, é natural que haja esmero na apresentação e na revisão do material, certo? No caso de livros inteiros – seja de contos, romance ou poesia – avalie com carinho a possibilidade de pagar uma revisão, pois toda vez que se volta a um texto que foi revisado somente pelo próprio autor, é quase certo que se encontre algum pequeno erro ou ajuste a ser feito.

Além do tempo a ser dedicado à revisão, a menos que você disponha de alguém para te auxiliar com impressão, cópias, encadernação e idas ao correio, considere algumas horas a menos de sono e alguma negociação de horário com seu chefe para poder dar conta desses aspectos, pois os originais, por fantásticos que sejam, não conseguirão se enfiar no envelope e se encaminhar sozinhos até a agência de correio.

Como ocorrem muitos concursos ao longo do ano, caso tenha um mínimo de disciplina o autor pode mapear os que mais lhe interessam e montar um pequeno plano para não se perder com prazos de envio. Quanto aos calendários de concursos maiores, com prêmios em dinheiro ou publicação, há sites que fornecem uma utilíssima compilação para os autores se organizarem, como Benfazeja e Concursos Literários. 

A questão dos direitos autorais 

Talvez esse não seja um assunto que ocupe a cabeça de muitos autores, especialmente os iniciantes realistas (que não pretendem tirar seu sustento da escrita, ao menos não no curto ou médio prazos), mas é sempre bom ter ciência de que grande parte dos concursos voltados para obras inéditas condiciona o prêmio à cedência dos direitos sobre a obra. Isso significa que o autor sequer poderá publicar e divulgar o seu texto premiado  porque ele pertencerá à organização do certame. A relação custo benefício pode valer a pena, pois eu preferiria ter um livro publicado sob a chancela de um prêmio relevante do que esperar pelos incertos ganhos de uma publicação custeada.

Mas essa é uma decisão que cabe a cada um. Friso apenas a necessidade de conhecer as regras do jogo. 

Participar ou não participar, eis a questão 

Apresentados alguns dos aspectos envolvidos (os que me chamam mais a atenção) não vou fechar o texto recomendando ou incitando ao boicote. Eu participo esporádica e desordenadamente de concursos que julgo interessantes – não todos, porque disciplina e organização, bem como tempo livre não exatamente termos para serem associados à minha pessoa. Já tive alguns resultados capazes de plantar um sorriso animado e passageiro na minha boca, mas nada que tivesse potencial de mudar minhas perspectivas. E assim sigo, tentando administrar o equilíbrio de tempo dedicado à leitura e ao exercício da escrita frente à toda parafernalha que é necessária para tentar obter visibilidade e leitores. E assim seguimos, enquanto isso movimentar sangue nas veias e a vontade dos olhos correrem pelas páginas (seria mais correto dizer caracteres, talvez). 

O que realmente importa em um livro? 

Corro o risco de soar repetitiva, mas, por conta das discussões e artigos  que tenho lido sobre as mudanças ocasionadas nas diferentes formas de narrar (incluindo aí a literatura) em função da tecnologia, não pude deixar de abordar aqui o assunto.

Ninguém costuma questionar a adoção de novas tecnologias no cinema, por exemplo, e não me refiro apenas às produções 3D, falo de todos os efeitos e técnicas possíveis e ainda dos recursos transmedia utilizados para capturar o público. Com livros porém, a questão é diferente. Além de existir certa resistência à inserção de recursos além do texto em livros digitais (e não posso negar que tendo a me incluir na categoria dos resistentes), é preciso considerar que o uso de -ebooks ainda é algo que pode ser considerado recente, mesmo nos mercados onde o formato responde por 20% do faturamento total das editoras, que dirá do Brasil, onde esse percentual recém atingiu a marca dos 3%. Nessa infância do e-book em termos comerciais, é natural que não se tenha ainda encontrado o "estado da arte" na produção dos mesmos. E digo isso não apenas em relação ao bate-boca sobre enhanced e-books, mas à simples edição de qualidade (diagramação, hiperlinks funcionais para notas de edição, navegação entre capítulos) para garantir uma boa experiência de leitura em qualquer aparelho - da tela do computador (a menos indicada) até o smartphone, passando, naturalmente pelos e-readers - aparelhos específicos para leitura, que funcionam muitíssimo bem, sem dever nada à experiência do papel (sim, essa é uma opinião claramente tendenciosa, porque sou uma usuária satisfeira).

De minha parte, sigo reafirmando que o relevante é a qualidade do texto, ainda que a edição bem cuidada, com bom espaçamento entre linhas, margens confortáveis, fonte agradável façam diferença na experiência de leitura, nunca serão mais críticas que o conteúdo. Já a adição de recursos como hiperlinks, videos, imagens, sons, defendida por muitos como enriquecedora da experiência para o "usuário", para mim, é, no geral, mera fonte de dispersão, capaz de afastar o sujeito da imersão no texto e de todos os benefícios propiciados pela leitura atenta. Naturalmente essa visão não se aplica a textos de puro entretenimento, onde o objetivo principal é a diversão (e não estou aqui condenando esse gênero de textos). Refiro-me à inconveniência dessas dispersões em textos densos, desses que nos sacodem a vida, que são prenhes de sentidos, beleza, complexidade humana - a literatura esculpida com afinco (não porque o autor escolhe vocábulos incomuns, mas também pela riqueza de vocabulário), feita com a ambição de capturar a essência de certos aspectos da existência que inquietam todo o ser pensante, obras que podem funcionar melhor do que os livros de auto ajuda, embora eu seja partidária de que arte não tem obrigação de ser útil (até pode, mas não deve), porque nosso cotidiano já está entulhado de utilitarismos.

Por fim, faço coro com aqueles que, talvez por tola melancolia, lamentam que se valorize tão pouco a leitura "pura e simples" como uma atividade tão vital para o ser humano como uma alimentação suficiente em nutrientes.

E para você, o que faz diferença na experiência de leitura? Conte-me, pelo e-mail mk@mauremkayna.com (sou do tipo que ainda manda e-mails ao invés de mensagens em redes sociais) e quem sabe podemos avançar no debate lá no site? 


Maurem Kayna é engenheira florestal, baila flamenco e se interessa por literatura desde criança. Depois de publicações em coletâneas, revistas e portais de literatura na web resolveu apostar na publicação em e-book e começou a se interessar por tudo que orbita o tema, por acreditar que essa forma de publicação pode ser uma das chances de aumentar o número de leitores no Brasil. Autora da coletânea de contos Pedaços de Possibilidade, viabilizado pela iniciativa da Simplíssimo. Sites: mauremkayna@uol.com.br - mauremkayna.com/ - twitter.com/mauremk

1 comentários:

betty badaui disse...

El artículo sobre los Certámenes Literarios es muy interesante, ya que antes de participar hay que contar con elementos asesorativos.
Desde Rosario, cordial saludo.
Betty Badaui