Um Oscar de melhor ator e muitas possibilidades [MELENA RYZIK]

Um Oscar de melhor ator e muitas possibilidades

DO "NEW YORK TIMES"

Artigo publicado na Folha de S.Paulo 

Christian Bale não mudou muito de aparência para "Tudo por Justiça", o que é uma espécie de feito. Como ex-operário siderúrgico no drama dirigido por Scott Cooper, Bale, ator capaz de extrema transformação física, exibe cabelos longos e um cavanhaque, como é comum vê-lo fazer fora das telas. E, no pescoço, uma tatuagem com o código postal de Braddock, Pensilvânia, a locação do filme.

"Ele é alguém que, em momento diferente, teria certamente sido visto como a espinha dorsal do país", diz Bale sobre seu personagem, um homem calado e leal.

Temos também "Trapaça". Para interpretar Irving Rosenfeld, um criminoso que se tornou informante do Serviço Federal de Investigações (FBI), no filme de crime de David O. Russell, baseado frouxamente no escândalo da Abscam, acontecido nos anos 70, Bale ganhou mais de 20 quilos de peso e usa um penteado para esconder a calvície que tanto tem lugar na trama quanto serve de piada. A aparência que ele adotou para o personagem foi inspirada pela de Mel Weinberg, o trapaceiro no qual Irving foi baseado.

"Ele é muito diferente do que eu imaginava", diz Bale, "e parece ter esse lado vulnerável, frágil, que eu não pensava ver em um trapaceiro. O jeito dele me deixou obcecado".

Os dois papéis oferecem a Bale a possibilidade de uma indicação ao Oscar de melhor ator; "Trapaça" fez mais barulho e recebeu mais elogios, mas a disputa será incrivelmente dura este ano, com uma dúzia de protagonistas aceitando mudar seus corpos, encarando filmagens complicadíssimas e levando às telas histórias assustadoras, e muitas vezes reais.

Após o Sindicato de Atores dos Estados Unidos (SAG, na sigla em inglês) anunciar os indicados para seus prêmios, a opinião que passou a ser dominante entre os observadores do Oscar é a de que existem pelo menos seis candidatos óbvios para as cinco vagas na disputa do prêmio de melhor ator: Chiwetel Ejiofor, por seu papel como homem livre vendido como escravo em "12 Years a Slave"; Matthew McConaughey como um paciente de Aids em "Dallas Buyers Club"; Tom Hanks como o capitão de um navio atacado por piratas somalis em "Capitão Phillips"; Robert Redford como um marinheiro solitário em "All is Lost"; Bruce Dern, um homem idoso com uma missão a cumprir em "Nebraska"; e Forrest Whitaker, testemunha da história dos direitos civis, em "O Mordomo da Casa Branca".

Destes, apenas os personagens de Dern e Redford são inteiramente fictícios.
A Screen Actors Guild tem muitos integrantes que também votam como parte da categoria atores para os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, e suas indicações cimentaram muitas dessas esperanças; Whitaker foi incluído e Redford ficou de fora da sua lista de indicados. Os eleitores do Globo de Ouro têm mais opções, porque suas categorias se dividem entre drama e comédia/musical. Mas ainda assim existem muitas possibilidades em ambas as modalidades. A disputa pela vaga, ou no máximo duas vagas, que devem restar na lista do Oscar está repleta de valentes azarões.

Como um cantor folk em crise de carreira em "Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum", Oscar Isaac chegou a fazer 30 tomadas para acertar uma canção, todas gravadas ao vivo. Ele tornou sua voz mais rouca com cigarros e cerveja, e se esforça para conduzir cuidadosamente a história nesse filme dos irmãos Coen no qual, eles mesmos admitem, quase nada acontece.

"O grande desafio e, em retrospecto, o que acredito ter conseguido fazer com sucesso, foi nunca me adiantar a Llewyn", diz Isaac, ator que estudou na Juilliard School. "E Llewyn mesmo jamais está adiante, o que de certa forma serve para expor o quanto ele está para trás. Tudo que ele faz é experimentar, e é muito simples a cada vez - você sabe, 'só há uma coisa de que preciso, e é dinheiro, Nada mais importa'".

Tão logo foi escalado, Isaac viu outras portas se abrirem para ele em Hollywood - uma súbita certeza de que "você é sério, garoto".

Michael B. Jordan está passando por um salto semelhante com a promoção de "Fruitvale Station: A Última Parada", baseado na vida e morte de Oscar Grant, um jovem de 22 anos em Oakland, Califórnia. "O Sundance passou sem que eu conseguisse ver muita coisa", conta Jordan. "Lembro da estreia, lembro de conversar com a família de Oscar, e é isso".

Mais memoráveis, talvez, sejam os muitos elogios que o filme e seu jovem diretor, Ryan Coogler, já conquistaram, posicionando Jordan como azarão para a disputa do prêmio de melhor ator.

Caso ele chegue lá, pode concorrer contra Whitaker, um dos produtores de "Fruitvale". Ao retratar figuras históricas ou ao menos notórias nas notícias, Jordan, Whitaker, Ejiofor, McConaughey - como Ron Woodroof, ativista do combate à Aids - e Idris Elba, astro da cinebiografia "Mandela: Long Walk to Freedom", encaram o tipo de trabalho de peso que a Academia adora premiar, ou promover.

Ejiofor, um respeitado ator britânico de cinema e teatro, viu espectadores chorando depois de assistir a "12 Anos de Escravidão". "Ao ouvir as pessoas falando sobre o filme, ou ao ouvir as coisas que ela perguntam, descubro mais coisas sobre o filme que fizemos", diz. "Essa é uma parte maravilhosa do trabalho".

Até mesmo astros estabelecidos aceitam trabalhos inesperados. Como Jordan Belfort, o infame financista que construiu um império escuso negociando ações de baixo valor.

Leonardo DiCaprio dá um verdadeiro show, com direito a drogas, prostitutas e dólares, em "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese. Os diálogos do filme são fruto de improvisos, e as cenas de sexo são quase pornográficas, e chegaram perto de causar choque (no bom sentido) a Thelma Schoonmaker, 73, a veterana editora de Scorsese.

DiCaprio, também produtor do filme, que defendeu a história de Belfort como tema para Scorsese, diz que não ficou surpreso com as tomadas que o mostram se contorcendo e sofrendo um derrame. Ele acompanhou a edição que reduziu o filme de suas quase quatro horas originais para perto de três.
A parceria entre o ator e o diretor já está bem estabelecida. Scorsese dirigiu DiCaprio em trabalhos que lhe valeram indicações anteriores, em "Os Infiltrados" (Globo de Ouro de melhor filme), e "O Aviador" (Globo de Ouro de melhor ator).

No sombrio drama "Os Suspeitos", Hugh Jackman - cantor, dançarino e super-herói indicado ao Oscar - é um pai forçado a recorrer à violência quando sua filha é sequestrada. A pesquisa dele para o papel incluiu ler interrogatórios policiais de pais que passaram por situações semelhantes, e estudar técnicas de sobrevivência e os efeitos da privação de sono.

"O que esses caso têm em comum é o relógio correndo", ele diz. "Suas mãos começam a tremer, você esquece coisas, se torna irracional". Denis Villeneuve, o diretor franco-canadense do projeto, não quis ensaiar demais, para conduzir o ator a um "lugar instintivo, primal", diz Jackman. "O que ele encorajou foi um senso de abandono. Foi uma experiência muito libertadora".

Em termos do Oscar, Jackman pode ser o mais azarado dos azarões, mas ele faz ideia do que é necessário para uma vitória. Ele estava filmando "Os Suspeitos" no ano passado quando foi indicado por "Os Miseráveis", e fez campanha pelo prêmio, bebendo champanhe, papeando em Los Angeles e Nova York e retornando rapidamente à locação do filme na Geórgia.

"Eu estava realmente preocupado com aquilo", ele diz. Mas os intervalos ajudaram, afirma. "Cada dia era um desafio, mas a sensação de poder deixar as filmagens era recompensadora, e eu me sentia bem com isso".

Ainda que a corrida pelos prêmios possa ser cansativa, mesmo eminências de Hollywood como Redford tomam parte do processo. Dern, contemporâneo de Redford e uma pessoa tão volúvel quanto seu personagem em "Nebraska", Woody, é taciturno, está participando intensamente, fascinando os potenciais eleitores do Oscar com suas memórias em primeira pessoa sobre a história do cinema e com os elogios que faz a seu mais recente diretor, Alexander Payne.
"Ele deixa a câmera em você e permite que o comportamento se desenvolva", disse Dern em almoço recente. "Hitchcock fazia coisa parecida, de vez em quando, mas eu não tinha tanta consciência disso".

Dern, 77, recusou sugestões de que disputasse como ator coadjuvante, uma categoria menos concorrida, dizendo que deseja, enfim, ser reconhecido como protagonista.

"Já fiz muitos trabalhos", ele diz. "Mas este é um filme de verdade".

TRADUÇÃO DE PAULO MIGLIACCI

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