Na periferia, mais um guerrilheiro da Literatura [Fernando Silva]

Na periferia, mais um guerrilheiro da Literatura

Três anos depois de montar Editora Patuá em casa, Eduardo Lacerda já publicou 155 livros e lançou dezenas de autores estreantes — alguns deles premiados

Por Fernando Silva, na Carta Capital 

Acomodado em um sofá na sala do sobrado em Sapopemba, zona leste de São Paulo, Eduardo Lacerda fala de seu amor pelos livros. A moradia serve também de sede da Patuá, editora fundada por ele há três anos, hoje com 155 títulos lançados, a maioria de poesia e de autores estreantes. “Não é o meu negócio, é a minha vida”, resume.
Aos 31 anos, o gaúcho de Porto Alegre espalha a paixão pela literatura em vários espaços da casa dos pais, moradores do bairro desde 1984. São cerca de 10 mil livros do próprio catálogo da editora que tomaram as paredes e a cama de seu quarto. Aos poucos, o sono e as aspirações artísticas e empresariais passaram a ser acalentados no sofá.

O interesse pela literatura é antigo. Na escola, Lacerda pedia aos professores para operar o mimeógrafo e produzia fanzines. Decidido a cursar Letras, ingressou na Universidade São Judas em 2000 com o apoio financeiro dos pais. A vida universitária durou seis meses, até as mensalidades não caberem mais no orçamento familiar. Aos 18 anos, foi ser camelô (vendeu parte das mercadorias restantes de uma recém-falida loja do pai). Em 2001, aprovado na USP, recomeçou o curso e o frequentou até 2005, quando, antes da formatura, trocou a sala de aula por um emprego na Casa das Rosas, tradicional centro cultural na Avenida Paulista. 

O novo trabalho proporcionou-lhe contato de artistas e produtores. Lacerda deu asas a um jornal literário, O Casulo, e obteve apoio da prefeitura. Por dois anos dedicou-se exclusivamente à publicação gratuita, dirigida a lançar novos poetas. Em 2009, o município cortou o patrocínio. “Não deu para continuar.” Mais um sonho se acabava abruptamente.

O gaúcho decidiu então dobrar a aposta. Em 2011, após diversos cursos online do Sebrae, uniu-se à então namorada Aline Rocha e investiu 5 mil reais na criação da Patuá. O objetivo, o mesmo até hoje, era publicar autores estreantes em tiragens modestas, de 100 a 150 exemplares.

Autor de Outro Dia de Folia, de 2012, Lacerda não se considera poeta (“eu escrevo poemas”). Fã de Hilda Hilst e Carlos Drummond de Andrade, diz encontrar satisfação no trabalho de editor. Na função tenta mesclar ensinamentos do tradutor e escritor Vanderley Mendonça e do pai, Claudinei Rodrigues, comerciante e pai de santo. O nome da editora vem, aliás, de um amuleto tradicional na umbanda.

Praticar “a literatura como religião” não é fácil. O editor recebe, em média, cem originais por mês e nem sempre consegue responder no ritmo da ansiedade dos escritores. “Uma vez, o telefone tocou às 6 da manhã. A voz do outro lado queria saber por que não havia lido a obra dele.”

Lacerda precisa vender cinquenta livros a R$ 30 para recuperar os 1,5 mil reais investidos em cada tiragem de cem exemplares. “Editar é fácil, vender é constrangedor”, compara. O catálogo da Patuá pode ser adquirido, em geral, de duas formas: ou comparecer ao lançamento do livro ou encomendá-lo pelo site da editora. A outra opção é o autor se empenhar na venda da própria obra, pois Lacerda prefere não firmar parceria com as livrarias tradicionais.

O editor preocupa-se com o futuro do mercado. Segundo ele, trocar o papel, “um produto que dura 100, 150, 200 anos”, pelo livro digital não faz muito sentido. “É uma tentativa de tornar descartável algo que pode ser mais durável.” 

Mas o que exatamente Lacerda pretende construir? “É um trabalho quase monumental para um único indivíduo e é mágico por valorizar o escritor nacional contemporâneo”, afirma Paula Fábrio, uma das vencedoras do Prêmio São Paulo de Literatura 2013 com o romance Desnorteio, lançado pela Patuá.

Conhecida do editor desde 2006, quando ela era dona de livraria e ele trabalhava na Casa das Rosas, a escritora diz aprovar a política da Patuá de lançar iniciantes. “Nas editoras comerciais, não há lugar para estreantes, para quem ainda não tem um público inicial. Originais como o meu nem são lidos.”

Mirar novos talentos segue entre as prioridades para este ano. O plano da editora é publicar, em média, dez livros por mês. O editor pretende ainda alugar um espaço para abrigar o catálogo e lançar a coleção de sete títulos de jovens dramaturgos (1,5 mil exemplares cada) com os 50 mil reais de patrocínio do ProAC, o Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo. Por fim, empenha-se em relançar O Casulo. Lacerda conseguiu uma boa maneira de viver das palavras.

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