Nuvens [Cláudio Portella]

Nuvens


Texto publicado HomoLteratus

Cláudio Portella 

Manhã de chumbo. Nuvens? Nuvens! O urso polar. A roda gigante. O pirulito. Ele.

Lentamente ele passa. Depois ele. Ele. Ele. Ele. Uma caravana deles desfila no céu de chumbo sem nuvens: Ele. Ele. Ele. Ele. Ele. Ele. Ele. Ele. Ele. Ele.

Coo o café. Compro pão. Arisco olhar para o chão. Uma coisa desprende-se do carpete como um efeito especial de um filme louco.

Derrama café no meu vestido. Abre minha boca e arranca um pedaço de pão mastigado. Me cospe na cara. Ele é do tipo que cospe no prato que come.

Limpo o papo-amarelo. Quantas aves caíram sobre o olhar auspicioso de meu avô?

Sonhei que voava. Saía pela janela. Cruzava a cidade. A praia. Ia de encontro às serras. No alto da serra. Cansada de brincar com os abutres. Olho o céu. Nuvens. Nuvens. Levaram meu homem para uma casa de descanso só porque ele fazia nuvens. Deve dar muito trabalho fazer nuvens. São tantas! O urso polar. A roda gigante. O pirulito. Ele. Ele?

Cozinho o almoço. É insuportável comer o que eu mesmo faço. Vovô do olhar auspicioso que tira os pecados do mundo. Olha eu aqui! Sou um pássaro! Estou sobrevoando a cozinha! Viu os meus coxões? A minha bundona? Tá tão fácil! Quando eu estiver mexendo o feijão.

Vai chegar o dia em que nunca mais vou ter que limpar o papo-amarelo de meu avô. São as vantagens de se ir embora. Nunca mais ter que cozinhar. Nunca mais ter que limpar as coisas. Nunca mais ter notícias do Tibet. Sabem por que os chineses têm olhos pequenos? Para verem só meias verdades. O sofrimento do povo tibetano faz de mim um Assum Preto, cega e presa numa gaiola.

Jantar para dois à luz de velas. Eu e o espectro dele. Levanto-me bruscamente da mesa. Ele pega o meu braço com força. Puxa-me para o colo. Mente ao meu ouvido palavras soletradas devagarinho. É inevitável não cair na arapuca. Cama! Uma fantasia de circo. Ele de palhaço. Eu de trapezista.

Noite de lua-cheia. Uma bola amarela no céu. A segunda no bilhar. Luzes. Barulho de avião. O papo-amarelo de meu avô na parede. Tudo em seu lugar. A lua-cheia no alto do prédio. A bola amarela no pano verde. As luzes na avenida. O avião nos tímpanos. O papo-amarelo na minha garganta. O café no vestido. O almoço na lixeira da cozinha. O jantar sobre a mesa. O olhar auspicioso de meu avô na mira do papo-amarelo.

***
Ilustração exclusiva para o conto por Giovana Christ.


CLÁUDIO PORTELLA (Fortaleza, 1972) é escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Autor dos livros Bingo! (2003), Melhores Poemas Patativa do Assaré (2006; 1ª reimpressão, 2011; Edição em eBook, 2013), Crack (2009), fodaleza.com (2009), As Vísceras (2010), Cego Aderaldo (2010), o livro dos epigramas & outros poemas (2011) e Net (2011). Colabora nas mais importantes publicações do Brasil e do exterior. Ganhou o concurso de conto da UBENY - União Brasileira de Escritores em Nova York.

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