O maior privilégio de todos [Alex Sens]

O maior privilégio de todos


Por Alex Sens 

Meu avô materno Erich tinha os olhos mais claros e azuis de Wissembourg. A pele do rosto, lisa como um veludo frio e esticado sobre ossos proeminentes e fortes, descia pelas bochechas esteticamente côncavas, uma planície onde minhas pequenas mãos de cinco anos de idade pousavam. Quando jovem, o queixo quadrado, as maçãs do rosto e o maxilar simetricamente desenhado para a fotografia de uma época em que eu ainda não tinha nascido, eram a moldura de um sorriso que vinha muitas vezes tímido — não no sentido de vergonha, mas de segredo, de palavra misteriosa querendo escorregar dos lábios para tombar no silêncio da minha infância.

Embora o tempo jogue sobre a memória uma chuva que embaça a nitidez das coisas nostálgicas, como uma pintura d’água sobre um vidro azul e amarelo, o verde resultante dessa mistura é o que lembro: seu sorriso, sua boina, suas calças largas, o bigode brilhante como lascas de gelo prateado, o olhar atento aos meus movimentos muito próximos à paleta cheia de cores.

Vô Erich pintava. Mas enquanto descansava para admirar o azul-cobalto na sombra de uma falésia inacabada, a paleta se equilibrava em um banquinho de madeira, muito baixo e muito estreito, sobre o qual mal cabia o seu cansaço ou a sua idade. É claro que a imagem permanece turva, chuvosa e limitada, mas ainda recordo das minhas mãos esticadas à frente do corpo, o ar com a textura de algodão molhado, de um gramado escuro como espinafre (seria noite ou seriam os amoreiras e os limoeiros sombreando o nosso quintal?), do andar escorregadio, da lentidão dos meus passos, dos meus dedos roliços e ansiosos muito próximos à massa pastosa da tinta branca, que, apertada num formato engraçado (eu sempre ria daquelas espirais coloridas, sobretudo das marrons, cor de couro, que remetiam imediatamente aos cocôs de cachorro dos desenhos animados), eu queria pegar, lambuzar a madeira, criar ali em sua paleta a minha tela definitiva — nem que para isso eu fizesse da abertura do dedão a minha lua sem cor, o buraco no céu pelo qual escapariam os desejos que eu sempre fazia antes de dormir, de olhos apertados e coração vibrante.

Assim, é preciso acrescentar que, além dessas características visuais, do sonho imagético em que ficou presa a figura plácida do vô Erich, alguns fatos são distintivamente indeléveis: adorava pimenta-do-reino; detestava soja em qualquer formato porque a Segunda Guerra havia maculado seu paladar (bem como lhe arrancara parte da falangeta do dedo médio da mão direita); fizera um anel com uma colher de prata, estendendo a herança do pai que havia feito o mesmo com a argola de uma granada durante a Primeira Guerra; gostava de tocar bateria e tudo que envolvesse instrumentos de percussão; tinha o dom mais fácil de um ser humano: o sorriso; mesmo quieto, mesmo silencioso, estava lá, sonhando com algo maior e mais concreto, embora isso permanecesse unicamente desenhado na mente, como um esboço de algo impossível e inalcançável; ansiava por morar na África do Sul, e penso como seriam suas telas caso tivesse vivido por lá até ver esmaecer a última estrela cadente dos seus olhos; tinha uma ideia romântica do Brasil, de suas palmeiras e praias, o que em parte ainda se mantinha extraordinariamente verdadeiro na década de 50, quando desembarcou com minha avó e minha mãe no inverno carioca, depois de semanas viajando num navio sobre as águas auspiciosas do Atlântico.

Antes de morrer, ele me deu um carrinho de madeira com esferas maciças se fazendo de rodas, um brinquedo bastante artesanal, porém bem-feito, que as crianças da escola Waldorf adoravam. Ainda lembro da minha hesitação divertida ao deslizar o carrinho sobre seu corpo enquanto ele lia na rede branca da varanda ou fingia dormir no sofá da sala.

Eu nunca conheci meu avô, levado pela cirrose hepática onze anos antes do meu nascimento. No entanto, a imaginação é poderosa e, de acordo com o escritor norueguês Tomas Espedal, ainda inédito no Brasil, “trabalhar com a linguagem é o maior privilégio de todos”. Escrever é poder moldar e colorir o tempo, mergulhar em suas fissuras mesmo que sejam todas líquidas, voláteis, inconstantes e surreais. “Você tem de saber escrever sobre qualquer coisa, senão não é um escritor”, palavras de Espedal. Esse “qualquer coisa” inclui a realidade transformada em ficção, a realidade que o escritor quer, mesmo que inventada, mesmo que temporária; uma realidade vibracional e criacional, sutil e sensível.

Excetuando os trechos em que descrevi contato com meu avô, o resto é verdade, colhido aqui e ali em conversas com minha mãe, cheias de uma saudade palpável e eterna. Entretanto, você pode olhar pelo prisma ficcional caso isso torne a leitura mais interessante. Como não concordar com Espedal que este é o maior privilégio de todos, quando você pode viver, através da palavra, fazendo uso do instrumento-linguagem, com alguém que nunca conheceu? Quando a morte pegar pela mão aqueles que amamos, nos resta o amor pela invenção, a cristalização da saudade e a linguagem como criadora de um universo possível e particular.

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

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