Sob medida [Marcelo Vitorino]

Sob medida



A rotina de um casal de religiosos é alterada pela chegada de uma cunhada. Crônica baseada na música "Sob medida" de Chico Buarque, na voz de Fafá de Belém

Casaram-se em uma cerimonia discreta, mas com muita alegria. Jussara e Amilton ainda  seguiram o protocolo da orientação religiosa que tinham e chegaram a noite de núpcias sem qualquer tipo de experiência sexual anterior, coisa rara nos dias de hoje.

Haviam se conhecido há alguns anos na igreja evangélica que frequentavam, ali próximo aos trilhos da Mooca, bairro bucólico da capital paulista. Foi aquela coisa de paixão a primeira vista.

Assim que a avistou, mesmo sem falar uma palavra, Amilton decidiu que ela seria sua esposa. Ambos de famílias simples e muito jovens. Ele não tinha mais do que vinte anos e ela, dezesseis.

Sobre o rapaz pesava o fato de ser filho do pastor e ter que servir de exemplo. Todos os dias desejava ter tido uma sorte diferente, queria poder se divertir mais, como outros jovens faziam, mas diante dos fatos, resignava-se ao seu destino.

Jussara, filha de um comerciante local, era uma moça bem recatada, não gostava de música que não fosse da igreja e não era dada as vaidades muito comuns em adolescentes. Da sua família, bastante numerosa, era a mais carola. Repreendia a mãe quando esta usava qualquer tipo de maquiagem e controlava a presença de todos nos cultos.

Para namorar Amilton, não ofereceu qualquer tipo de resistência, apenas deixou claro que seguiria virgem até o altar e disso não abriria mão. Não seria ela a dar motivos para os outros falarem.

Se alguém pudesse monitorar e medir a intensidade daquele namoro, com toda certeza, teria dificuldades para escolher uma escala adequada. Era uma relação xoxa. Muito xoxa.

Andavam de mãos dadas apenas e não ficavam por mais que cinco minutos sozinhos. Pareciam mais irmãos do que namorados, toda a vez que algum toque ou beijo mais voluptuoso esquentava o casal, Jussara pedia para parar.

— Lembra do que combinamos, Amilton! — dizia a moça.

Amilton pensou em desistir, era um homem e tinha lá seus desejos, mas ficou com medo da reação da comunidade e decidiu manter a relação. Cada dia de vontade passada causava um tipo de raiva nele. “Ela me paga! Na lua de mel farei com que a cidade inteira escute seus gritos!”, pensava como uma forma de se consolar.

Com tantas restrições, o casamento acabou acontecendo antes do idealizado por Jussara, apenas dois anos após se conhecerem, se é que alguém pode afirmar que se conheceram até aquele momento.

Finalmente, a tão esperada lua de mel chegara! Mas, as coisas não foram bem como Amilton havia pensado que seria.

Mesmo virgem, o rapaz esperava um pouco mais de calor da experiência. Jussara não mostrou praticamente nenhum desejo. Assim que chegou ao quarto, pediu para ir ao banheiro e, após demorar por quase uma hora, voltou com uma camisola que parecia ter herdado da avó. Não é que era uma camisola feia, era horrível.

Sem o menor constrangimento ou excitação, deitou-se na cama e disse:

— Agora é com você.

“Como assim? Agora é comigo?”, pensou o rapaz. Estava claro que ele teria que fazer todo o trabalho sozinho. A falta de experiência dele também o deixou perdido, mas como não havia muito o que se fazer, partiu para cima da moça.

— Calma! Apague a luz primeiro! Não quero que me veja nua.

Como se a apatia de Jussara não bastasse, agora ele também teria que lidar com a vergonha. Ia reclamar e pedir para que a luz ficasse acesa, mas olhou novamente para a camisola e, prevendo o que estaria por baixo, desligou o interruptor. Preferiu não arriscar.

Para sua infelicidade, o sexo foi uma espécie de continuação do namoro.
Quando levantou na manhã seguinte, apenas o sangue no lençol o deixou feliz. Chegou até a desconfiar que não o encontraria, visto que a moça não fez ruído nenhum durante o ato.

As noites que se seguiram confirmaram aquilo que temia e resolveu ter uma conversa com seu pai.

— Fale logo o que é, meu filho. Daqui a pouco tenho que voltar e ministrar um culto.

— Pai, minha mulher está morta!

— Meu Deus! Como é que isso aconteceu? Algum acidente? — questionou seu pai, mostrando-se perplexo pela revelação.

— Não, pai! Não é como está pensando! Ela não morreu, ela só não tem vida, entende?

— Não! Nem um pouco!

— Minhas noites de intimidade entediariam até um garoto de quinze anos. 

Não há intimidade. Ela chega, deita e, praticamente, se faz de morta!

Já mais calmo e agora entendendo do que se tratava, achou por bem aconselhar o rapaz:

— Que benção, meu filho! Que benção! Prova de que sua esposa é uma mulher honesta! Você queria uma mulher do mundo para lhe passar para trás? 

— parou por um segundo, colocou a mão no seu ombro e continuou — Agradeça a Deus!

Como Amilton viu que não encontraria apoio algum após o seu desabafo, fez cara de quem concordou e foi embora.

Meses se passaram. Nada mudou a não ser o desejo do rapaz, que caiu drasticamente. O sexo do casal passou a ser um evento esporádico e, como a esposa não se queixava, chegavam a passar semanas sem se tocar.

Um dia, Amilton chega em casa e é surpreendido por duas malas estacionadas bem no meio da sala. Por um momento pensou que sua esposa estaria o deixando, o que não seria lá um grande problema para ele. Mas, era algo muito pior.

Foi apresentado à uma cunhada que sequer sabia que existia até aquele momento. Maíra vivia na sombra da família. Acabou excluída do grupo por ter decidido cair no mundo e se desligar da igreja. Por esse motivo, ninguém tocava em seu nome.

— Amilton, quero que você arrume o quarto dos fundos para minha irmã. Eu não queria abrigá-la, mas não posso vê-la sem ter onde ficar e mesmo discordando de suas atitudes, não lhe negarei um teto.

Não era só nas atitudes que elas não combinavam, se ninguém falasse que eram irmãs, não haveria como saber.

Maíra era quente. O jeito de olhar mostrava que se o Diabo de fato existisse, iria querer ter algo com ela. Ela não fazia o menor esforço para ser sensual, era natural. Qualquer movimento, por mais simples que fosse, parecia recheado de más intenções. O levantar de uma xícara, por exemplo, chegava a provocar frio na barriga de Amilton.

Todos as noites, o marido tinha seu momento de oração interrompido pelo barulho do secador de cabelos que vinha dos fundos. Era o suficiente para desvirtuá-lo da fé e colocá-lo a pensar na cunhada, nua, secando o cabelo após sair do banho.

Em um domingo, não estava se sentindo bem e acabou por ficar em casa, enquanto Jussara achou melhor não faltar no culto.

Ao levantar foi até a cozinha e deparou-se com uma visão que confirmou tudo o que pensava de Maíra. Com uma camiseta pequena e uma calcinha minúscula, ela estava preparando um café. Como a cunhada estava de costas para a porta, não percebeu a sua chegada, o que deu-lhe a chance de admirá-la por algum tempo. Para não dar na vista, Amilton voltou para o quarto silenciosamente e quando caminhou novamente para a cozinha fez questão de fazer barulho para que ela percebesse.

— Eu sei que estava aí me olhando, Amilton. Pode parar de fingir. — disse ainda em pé, e apontando uma das cadeiras continuou — Fique tranquilo! Eu sei guardar segredo. Não contarei a ninguém que estava me olhando.

O rapaz ficou completamente sem jeito. Não sabia onde enfiar a cara. Contudo, já que não seria denunciado, sentou-se.

— Eu soube do seu desejo por mim no dia em que vi seus olhos. É isso mesmo? Você estaria disposto a arriscar seu casamento por uma mulher do mundo como eu?

— Que casamento? — respondeu com um sorriso irônico.

A resposta foi o que Maíra precisava ouvir. Naquele dia, Amilton finalmente soube o que era ser feliz com uma mulher. Fez tudo o que tinha vontade e descobriu que havia muito mais do que imaginava. Por insistência da cunhada, usaram todos os cômodos da casa, não escapando nem a cama do casal.

Daquele domingo em diante, bastava qualquer saída, mesmo que curta, de Jussara, para que a pouca vergonha e a luxúria tomasse conta da casa.

Não levou muito tempo para que o marido considerasse sua esposa um verdadeiro purgante. Mesmo sabendo que as aparências deveriam ser mantidas para o bem de todos, um dia Amilton não aguentou.

— Vou abrir o jogo com sua irmã, Maíra! Não aguento mais viver essa mentira! Largo dela, pegamos nossas coisas e fugimos.

A cunhada parou o que estava fazendo e, aproximando-se, olhou nos olhos do amante e foi seca:

— Nunca mais tenha a coragem de propor uma coisa dessa! Você está achando o quê? Se você largar da minha irmã, nunca mais encostará as mãos em mim! Entendeu?

Amilton não teve alternativa a não ser concordar e continuar mantendo aquela farsa. Em alguns domingos os três eram vistos nos cultos, em outros só a esposa.
 

Sob Medida
Fafá de Belém 

Se você crê em Deus
Erga as mãos para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou igual a você
Eu nasci pra você
Eu não presto
Eu não presto

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus

Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
E agradeça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece 

Fonte: 
http://naquelamesa.com/

Marcelo Vitorino- Trabalho com publicidade desde 1999 e, depois de um tempo, acabei indo naturalmente para o marketing e desde 2007 passei a integrar o pessoal do marketing digital.
Como produtor de conteúdo na internet estreei escrevendo o Pergunte ao Urso, um projeto que visava entender como funcionava o consumo de conteúdo pelo público feminino. A ideia deu certo, o blog virou dois livros, teve presença em rádio, mídia impressa e até na televisão. Chegou a ter um milhão de acessos mensais.
No final de 2012 decidi que era a hora de virar a página e encerrar o projeto. Publiquei todo o meu aprendizado em um documento que está disponível na internet, portanto, se você quer começar um blog, sugiro que leia.
Acabei me viciando em escrever e interagir com o público. Já que não fui forte o bastante para largar o vício, entendi que o melhor caminho era começar outro projeto.
Sou fruto de uma família muito numerosa e como acabei chegando por último tive uma formação muito diferenciada. Aos 14 anos escutava muita Bossa Nova e MPB, depois passei a escutar Samba, Blues, Jazz e Soul. Fui escutar Rock e outros gêneros musicais bem mais velho.
O fato é que sempre gostei de música. Para mim, todo grande momento da vida tem uma trilha sonora.
Como referências literárias tenho dois modelos: Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo. O primeiro pela ambientação perfeita que há nos seus textos, o segundo pelo diálogo e reflexões de seus personagens. 

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