Tradução – uma chance real de alcançar leitores? [Maurem Kayna]

Tradução – uma chance real de alcançar leitores?


Tempos atrás escrevi um post que foi publicado no portal Artistas Gaúchos sobre o potencial da tradução para autores iniciantes, citando alguns exemplos de brasileiros que, através da publicação no formato e-book em outras línguas, conseguiram atingir um número mais expressivo de leitores. Como é do meu hábito, fiz questão de salientar que a tradução isoladamente não fará milagres, mas depois de algum tempo em que pude vivenciar a experiência de ter textos disponibilizados em outras línguas, resolvi retomar o tema. 

Minha primeira oportunidade de ser lida em outro idioma veio através do projeto Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), que, desde 2011, persegue o objetivo de dar visibilidade a autores brasileiros através de traduções para o inglês. Essa ideia, em 2013, se desdobrou no Cuentos brasileños de la actualidad (CBA). Com mais de 60 autores publicados, em 2012 a idealizadora do projeto, Rafa Lombardino, empreendeu a publicação bilíngue em e-book com opção de impressão sob demanda de uma seleção de 22 contos publicados no site. A seguir algumas informações que a Rafa partilhou comigo em uma espécie de entrevista virtual.

Segundo ela, o CBSS surgiu como uma forma de minimizar seu cansaço com a tradução de documentos técnicos e para exercitar sua criatividade, o que só conseguia fazer com um texto de marketing aqui e outro ali. Ao ganhar um Kindle, no final de 2010, e começar a ler livros publicados independentemente, principalmente de escritores de língua inglesa, foi que veio a ideia de unir o útil ao agradável. “Traduzir contos de brasileiros seria algo que quebraria a minha rotina técnica e ajudaria escritores a ganharem mais exposição ao ter o seu trabalho disponível em outro idioma” diz Rafa.

A ideia do livro surgiu por conta dos comentários de que muita gente não gosta de ler na tela e ainda prefere o papel. Assim , no final do que Rafa chamou ”temporada”, o material já publicado foi reunido, as autorizações de autores e tradutores foram renovadas, desta vez incluindo a possibilidade da publicação em papel, e o primeiro volume foi editado. O formato Kindle, da Amazon, foi escolhido pela facilidade de distribuição, já que os e-books podem ser lidos tanto no próprio aparelho fabricado pela Amazon (o Kindle), como também em qualquer computador, tablet ou smartphone onde o aplicativo Kindle esteja instalado. Já a versão em papel pode ser adquirida no esquema impressão por demanda, ou “POD” (print on demand), graças ao serviço CreateSpace, uma empresa que também faz parte da Amazon.

Já o CBA aconteceu por acaso, quando um grupo de professoras brasileiras que ensinam espanhol entrou em contato com a proposta de traduzir o mesmo material que já fazia parte do CBSS. Então foi montado um site-espelho para publicar o material. A ideia é também lançar um livro bilíngue, no mesmo formato do inglês-português, porém Rafa diz que ainda precisam encontrar um revisor voluntário que possa contribuir com a revisão final do material impresso, que é muito mais crítica do que quando se pensa em uma versão digital. Quando publicamos no mundo virtual, é fácil corrigir alguma coisa que passa pela rodada inicial de revisão. Porém, quando a proposta inclui a versão impressa, é fundamental revisar, revisar e revisar – enfatiza Rafa.

Quando lhe perguntei sobre o alcance obtido com essas iniciativas, ela diz ainda estar “engatinhando”. “No momento, a propaganda é mais no boca a boca, principalmente por parte dos autores, que divulgam a existência do site e dos livros para os amigos. Com essa divulgação, acabamos recebendo mais material de escritores interessados, o que é ótimo e mantém sangue correndo pelas veias do projeto. Também recebemos novos tradutores voluntários, que estavam interessados em adquirir experiência com literatura. Quanto aos leitores, chegamos a enviar uma cópia para um blogueiro australiano, que publicou uma resenha interessante do primeiro volume.” 

Rafa Lombardino acredita que proporcionar uma tradução para os escritores permite que, com uma amostra do seu trabalho em outro idioma, possam tentar chamar a atenção de editoras internacionais. “O português é um idioma que infelizmente não é tão traduzido para outras línguas, apesar de Paulo Coelho ser um dos campeões de tradução. O bom seria mostrar a diversidade do português brasileiro, tanto em termos de vozes como gêneros literários e despertar o interesse do público estrangeiro.” Nesse aspecto ela parece estar alinhada com as políticas da Biblioteca Nacional, com a diferença de que faz isso contando unicamente com empenho e voluntariado.

Em 2014, Rafa pretende dar continuidade às atividades editoriais com os volumes 3 e 4 do CBSS, além da publicação do volume 1 do CBA. Outras novidades ainda poderão surgir, pois houve propostas para que alguns dos contos fossem traduzidos para revistas em outros idiomas, e um novo site-espelho está sendo planejado – o que Rafa promete divulgar mais adiante. Ciente de que divulgação é um aspecto crucial para a visibilidade de qualquer publicação, Rafa diz que haverá ainda essa ano uma campanha de arrecadação de fundos para viabilizar um plano de marketing, que inclui a encomenda dos volumes 1 e 2 impressos para envio às universidades nos EUA que contam com um departamentos de Língua Portuguesa. Isso, acredita ela, ajudará a divulgar o trabalho para estudantes estrangeiros do português, da história do Brasil e de tradução em geral.

O que posso complementar é que a tradução, no mínimo, abre novos canais de comunicação entre artistas de outras partes do globo. Ao traduzir um projeto de literatura digital - Labirintos Sazonais - que fiz no ano passado (aliás, com a própria Rafa e sua equipe) , pude me inserir em alguns debates focados em literatura digital nos EUA e na Espanha e ganhar alguma visibilidade com o texto. Mas que nenhum escritor iniciante e desconhecido caia no engano de achar que o fato de ter o texto traduzido o tornará automaticamente conhecido dos leitores de outro idioma. A batalha por visbilidade e conquista de leitores seguirá as mesmas dificuldades que existem para suas publicações no nosso bom e velho português. E sobre a necessidade de trabalhar isso, aliás, vale ler e pensar no texto de Luciana Villas-Boas sobre o que pode haver de ilusório quanto às possibilidades da tradução.


Maurem Kayna é engenheira florestal, baila flamenco e se interessa por literatura desde criança. Depois de publicações em coletâneas, revistas e portais de literatura na web resolveu apostar na publicação em e-book e começou a se interessar por tudo que orbita o tema, por acreditar que essa forma de publicação pode ser uma das chances de aumentar o número de leitores no Brasil. Autora da coletânea de contos Pedaços de Possibilidade, viabilizado pela iniciativa da Simplíssimo. Sites: mauremkayna@uol.com.br - mauremkayna.com/ - twitter.com/mauremk

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