As mulheres na Literatura Brasileira (7ª Publicação) [Rubens Jardim]

A mulher na Literatura Brasileira (7ª Publicação)


Apresentando as mais variadas tendências de estilo, processos ou temas, um traço comum pode ser destacado: é a participação na consciência experimentalista, no reajustamento da linguagem e na integração do ser humano e da poesia no processo histórico.








LILIA A. PEREIRA DA SILVA, (1926 ), poeta paulista, escritora, pintora, desenhista. Conquistou excelente fortuna crítica, tanto aqui quanto no exterior, onde vários de seus títulos foram traduzidos. Publicou noventa e dois livros nas áreas de poesia, romance, literatura infantil e artes plásticas. Estreou com o livroLenço Materno(1958). Alguns títulos de seus livros de poemas: Estrela Descalça(1960), Relógio de Raízes(1964),Menino de Orvalho(1973) No Cristal do Abismo(1989), Europeanas(1997).




O ANJO

Que Anjo és que só me faltas?
Se ainda te sonho,
tens as asas
pétalas de cimento?

Que Anjo és, sem luz, sem nada,
se até a silhueta que tiveste,
a noite, surpreendendo, encolheu?

Celebro-te memória, no meu tempo,
Anjo,
agora que é cinzento o arco-íris
e a estrela reclinada indesejei.

Amadurece em mim o provisório
de teres sido nunca
o que sonhei.


VISÃO

Duas asas no chão:
de um anjo?
De lúcifer?
De um cão?

Se a chuva pisasse nelas,
não sangrariam, como meus sapatos.

Onde buscar remorso, se forem de um anjo?
Onde encontrar mais forças, sendo de um Lúcifer?
Onde mais espanto, se forem de um cão?


RETRATO PLURAL

Em todas cidades do mundo,
sofrimento é maior quando não se perdeu
coração em ninguém.

Em todas cidades do mundo,
há roupas estendidas nas paredes
e nudez dentro
das vidraças.

Em toda cidade do mundo,
em algum tempo,
manhãs já não estão cansadas
da procissão de gestos inacabados.

Em todas cidades do mundo há espaços, muros
e sapatos abandonados nas ruas,
tirando retratos do passado
e futuro,
e pombas que exibem asas
e não voam
- como outras – acima dos telhados.

Em todas cidades do mundo
há janelas sujas de trens
anuviando paisagem,
olhos azuis aleijados
lendo nome da estrela
e do lixo.

Em todas cidades do mundo há ciganos
que revivem esta saudade,
estalando
no meu céu da boca
o grito da vida.



STELLA LEONARDOS, (1923), poeta carioca, tradutora e teatróloga, é considerada integrante da terceira geração do movimento modernista. Já ganhou vários prêmios, inclusive o Nacional de Poesia, em 1964, por Geolírica. Publicou romances, literatura infantil em prosa e verso, além de peças teatrais infantis. Sua obra inclui mais de 70 títulos, entre eles os premiados Cantabile,(1967) Amanhecência(1974) e Romanceiro da Abolição(1986).



DO APRENDIZ DE ESCULTOR

Existe uma voz na pedra?
Lá no alto daquela pedra
mora um colomi de pedra
chamado Itacolomi.
O colomi, lá da pedra
me fala: — Não queiras ouro.
Menino, teu ouro é outro.
Escuta, Antônio Francisco,
tuas mãos querem lavrar.
Procura tornar mais que ouro
a pedra que te encontrar.

Existe voz na madeira?

Lá do alto daquela igreja
vive uma cruz de madeira,
a mais alta que já vi.
A cruz, lá do alto, me fala:
— Escuta, Antônio Francisco,
não te coube em Vila-Rica
muita lenha. Coube lenho
e mãos que querem talhar.
Procura tornar madeiro
a madeira que te achar.


ESPELHOS

... "Sigamos, primeiro, as próprias indicações de Bretas: 
o Aleijadinho, diz-nos ele, 
sofreu complicações d'humor gallico com escorbuto". 
(Germain Bazin)

É mancha de tinta
ou pele manchada?

É poeira em camada
ou pele que escama?

É pingo de roxo
ou sangue pisado?

É raiva de um rosto
ou rictus de máscara?

É imagem disforme
ou espelho infamante?

É mais que grotesco:

é face de drama.

É o trágico doendo:
um monstro se olhando.

Abaixo o que espelha!
Cristal, água, lâmina.


QUASE MITO

— Quem veste esse poncho
e encobre a cabeça?
Que vivo? Que morto?
Que réu de sentença?
—Nenhum pobre diabo.

— Debaixo das abas
do imenso chapéu
há o rosto de um diabo
oculto dos céus?

De um monstro sagrado.


O QUE SE É VEM À FLOR?

“Não, não digas nada” Fernando Pessoa

Melhor seria não dizer-te nada
já que as palavras se frustram, Pessoa
- ai! onde as pás sutis e as virgens lavras
do ver de terna fala entre as criaturas?
Já que as palavras nos frustram, pessoas
perdidas no universo das palavras
- ai tempos de durames sem ternuras! -
melhor seria não dizer-te nada.
Calo. Do teu silêncio aflora a fala
desse verde essencial – cerne, mensagem,
viva raiz-mistério da linguagem.
Na força de não ter dito o que mais cala.




ILKA BRUNHILDE LAURITO, (1925), poeta paulistana, estreou cedo com o livro Caminhos ( 1948). No ano seguinte formou-se em letras e dirigiu a Cinemateca Brasileira (1962). Entre 1969 e 1975 participou de movimentos de divulgação, como Poesia na Praça e Poetas na Praça. Recebeu o Jabuti de poesia, pelo livro Canteiro de Obras,(1987) e o Jabuti de literatura juvenil, pelo livro A Menina que Fez a América.(1990)




PUBLICIDADE

Proibido colocar cartazes:
em chão
parede
poste.

(Em homem:
pode.) 

VIII - (Olhos que tacteais este poema)

Olhos que tacteais este poema
como instruídos dedos
sobre as nervuras do espalmar
do texto,
olhos, lúcidos parceiros
da voz alinhavada em letras,
a luz que vos guia o íntimo
passeio,
cegos videntes,
é a que decifra os gestos desta
mão
que fala e canta
imprimindo as rugas do seu
críptico desenho
na lisa pele do papel em branco.

Leitor,
meu quiroamante.


V - (Canto ao arrumar a cama)

Canto ao arrumar a cama,
canto
diligente verônica
oficiando os passos
da paixão cotidiana.

Exibo ao meu espelho atônito
os lençóis que estampam o corpo
do senhor que nunca me salvou
da crucificação no pranto.

E canto porque canto,
sem esperanças de glória
ou de ressurreição.


PERDAS E DANOS

Arrotaram uma arrogância de água mineral gasosa.
Sacudiram qualidades de plástico
num chocalho sem guizos.
Aplausos primeiro.
Depois, risos.

A menina que catava conchas na praia suja cresceu.
Hoje conta histórias para boi mugir.
A ilha que eu sonhava, bem ao norte deste empate,
afundou no oceano de porquês.

Eu poderia fazer uma corda com retalhos
a fim de atravessar os sete mares e as cinco pontes.
Ou escrever uma peça para marionetes sem fios.
Recusei a oferta e o altar.
Com os olhos procurei ao redor,
mas o redor era fora do alcance da vista.
O tiro de despedida é mais doce
do que o beijo de misericórdia.
Surpresas a varejo empresariam nossa mentira.
Um chiclete gruda na memória
retardando a detonação daquela bomba.
Publicarei minhas memórias num edital do tribunal de contas.



YEDA PRATES BERNIS, (1926), poeta mineira, diplomada em letras, com passagem por canto e piano em conservatório. É membro da Academia de Letras de Minas Gerais, já ganhou vários prêmios, teve poemas musicados porCarmargo Guarnieri e já foi traduzida para o francês, espanhol, inglês, italiano e húngaro. Estreou em 1967 com livro Entre o Rosa e o Azul. Já foi premiada e elogiada por poetas do porte de Drummond e Henriqueta Lisboa. Seus últimos livros: Cantata (2004) e Viandante (2006).



QUANDO O AMOR SE ACHEGA

Quando o amor se achega
e, no outro, não encontra
espaço aberto,
ele, humilde, se aconchega
a si mesmo. E descoberto
se agasalha com pesado manto
do temor, dúvida e espanto.
E a tempo pede
que o acalente,
à desventura
que o sustente
não mais que o prazo certo,
e a um vento
inexistente que o leve
em momento brando e breve.


SABEDORIA

Aborrecem-me as mulheres de lantejoulas
e as coroadas com tiaras de diamantes.
Nem mesmo invejo as que muito leram
e extraíram dos livros o sumo
da desesperança
ou as que misturaram palavras,
pincéis e pautas
às linhas de suas vidas.
Fascinam-me as mulheres do campo
que acordam de madrugada,
coam café com rapadura
para os maridos e lavram a terra
com enxada, suor e amor,
ou as lavadeiras de beira-rio
quarando suas roupas com canções
e coração:
sábias, não meditam sobre a fugacidade
das horas, fazem de cada instante
a doação perfeita, a morte é sua
verdade sem temência
e suas vidas são plenas
como árvore absorvendo o sol das manhãs.


MARITMO


Barco é a noite
onde a alma navega.
O sonho é marinheiro.
No oceano do momento
o amor é timoneiro.
O mais é entrega. 

FOGUEIRA 

Espio à beira
do que chamam de minha alma.
Fingindo calma,
vejo no poço uma fogueira
queimando o já tão pouco
do muito edificado.
Não como um louco
mas como quem não presta
atenção, despejo gasolina.
Tudo o que resta
é um choro de menina. 

DESENHO

O menino desenha
coloridos pássaros
e os aprisiona, na gaveta.
Ao ouvir trinados
no papel
vê, saindo pela fresta,
asas em festa
buscando o céu. 

NASCER


Desenrolar
o eterno
no solar
diminuto
Minuto
materno

Rubens Jardim, 67 anos, jornalista e poeta. Foi redator chefe Gazeta da Lapa e trabalhou no Diário Popular, Editora Abril e Gazeta Mercantil. Participou de várias antologias e é autor de três livros de poemas: ULTIMATUM (1966),  ESPELHO RISCADO (1978)e CANTARES DA PAIXÃO (2008). Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou JORGE, 8O ANOS - uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares... Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional. Fez também leituras no café Balaio, Rayuela Bistrô e Barca Brasília. E participou da Mini Feira do Livro, com o lançamento de Carta ao Homem do Sertão, livro-homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. Teve poemas publicados na plaquete Fora da Estante, (2012), coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo. Páginas na Internet: Site: Rubens Jardim e Facebook:  Rubens Jardim

0 comentários: