CAÍA NEVE NA CIDADE….[Humberto Pinho da Silva]

CAÍA NEVE NA CIDADE…. 

Por Humberto Pinho da Silva 

Dizem que à hora da morte, o filme da vida, desenrola-se: cenas, episódios, posturas, ocorridas ao longo da jornada, voam a velocidade estonteante. 

Acredito que assim seja. 

Com o avançar da idade, ao envelhecer, velhas recordações, esquecidas no armário da memória, imergem, com pormenores tão nítidos, que parecem contemporâneos.

O que vou contar, saltou da gaveta, das muitas que o subconsciente guarda. 

Acordara a cidade nessa longínqua manhã de Inverno, coberta de fino manto de neve. Estava frio de rachar. O cinzento pálido do céu, parecia crivo, peneirando neve, como se fosse alva farinha. 

No final da tarde estava na praça principal da cidade. Nem viva alma… Três entroncados homens, envoltos em quentes samarras, enfrentavam a nevada, arrastando os pés, enfiados em rijas botas de cano alto. 

À porta da igreja, mulher trajada de negro, com o rosto quase sumido por lenço preto, espreitava, de esgueira, o cair da neve. 

Conversavam, animadamente, à porta de livraria, dois sujeitos de meia-idade, esfregando freneticamente as mãos enregeladas: 

- A neve é perigosa… para quem anda no campo! 

O outro concordava, sacudindo a cabeça, batendo com força os pés, na soleira da porta: 

- Conheço quem ficasse marcado, devido a queda. A neve é bonita… mas traiçoeira! 

Endireitei, a passos miúdos, para a “Casa da Ribeira”. Para não escorregar, cosi-me, o mais que pude, às paredes. 
A neve caía em rolão. Varrido de mansinho pelo vento frigidíssimo, que soprava da serra, flutuavam leves flocos de neve, verdadeiros farrapinhos de fofo algodão. 
Levemente, bati à porta. 
Silêncio absoluto. 
A rua era toda branca. Crianças brincavam, pulavam e corriam, soltando alegres gargalhadas, lançando bolinhas de neve amassada. Por descuido, uma atingiu homem baixo e gordo, que subia a rua. O bando, como passarinhos assustados, dispersou.
 Dos quintais, cobertos de neve, cachorros, transidos de frio, choravam lugubremente, num pranto canino. 
Torno a bater. 
De longe, chega o som estridente de um galo, rasgando o ar com seu imponente: cocorocó. 
Aconchego, ainda mais ao pescoço, o largo cachecol de lã. 
Na janela iluminada, da casa contígua, garotinho, de nariz esmagado na embaciada vidraça e olhos esbugalhados de espanto, mirava o cair da neve 
Abre-se a porta. 
De mansinho, galgo o pequeno lance de escadas. 
Silêncio. Nem um ruído. Terão saído? 

Nesse instante, vem da salinha, voz doce, arrastada, suave como murmúrio:

- “ Entre…Entre… venha p’ra aqui. A braseira está acesa… 

A passos leves, caminho, encolhido. 
A saleta estava mergulhada em sombra.acolhedora
Beijo, respeitosamente, a dona de casa: senhora jovem, de beleza cativante. 
Timidamente, acerco-me da lareira, colocando as pesadas botas na borda do suporte que sustinha a braseira, onde três tronquinhos incandescentes, refulgiam.
À volta, tudo permanecia nos mesmos lugares: Ao fundo o armário.

À esquerda, o aparelho de TV. Arrimada à janela, que dava para o quintal, a mesinha redonda, coberta pela camilha verde, que caía até aos pés. Sobre ela, a toalhinha beije 
Na cozinha, além da porta entreaberta, tudo era negro… 

- Janta connosco. 

Agradeço, recusando: 

- Aguardam-me para jantar… - Esclareço, exaltando de alegria. 

- Telefone a dizer que janta aqui. - Insiste. 

Acedi. Era o que desejava: estar na companhia amiga, das únicas amigas que tinha. 

Em breve, para minha alegria, chegam as meninas. Traziam sorrisos nos lábios e alegria nos olhos. Estavam a estudar. 
Com elas vinha rapazinho, de pele clara, face risonha, tão amoroso, que ganhara há muito a minha afeição. 

Colocados, com cuidado, os pratos de porcelana e os talheres, na mesinha, foram abertas as lâmpadas elétricas. A louça e os talheres faiscaram intensamente. A salinha saíra da penumbra. 

Durante o repasto, acicatado pela curiosidade, levantei a vista. Que agradável surpresa! Com a sagacidade própria da adolescência, uma das mocinhas, a Flavinha, dissimuladamente, observava-me com fixidez… e leves sorrisos de pejo bailavam nos lábios delicados. 

Encheu-se a alma de jubilosa alegria; e onda de felicidade afogueou-me o rosto, rosando-me a face. 

Era noite. Caía neve… Vento frio percorria as ruas da cidade… mas no âmago do coração, vivas chamas de esperança, esquentavam-me a alma. 

Minhas fantasias de adolescente eram inocentes bolinhas irisantes de sabão: subiam, brilhavam, resplandeciam, quebravam-se, e sumiam-se como as ondas nas areias da praia. 

Dos velhos sonhos, que se esfumaram no deslizar dos anos, ficaram apenas, para minha dor: tristezas, desilusões, desencantos…e saudades do tempo perdido, que já não é.


Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ
Página na Internet:http://solpaz.blogs.sapo.pt/

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