Caldo Verde [Tatiana Carlotti]

tarde já e eu diante da tela. catei o casaco, enfiei o sapato e sai, apesar do frio, da gente toda, da rua escura e torta. apesar.

pedi um caldo verde. gosto do verde do caldo deles. sei lá o que tem dentro, mas é um verde musgo delicioso. 


o fato é que ela se levantou numa lentidão danada, jogou os cabelos para trás e sorriu para o homem sentado de costas à minha frente.


no agito em que me encontro, embora ciente de que os ponteiros do relógio são como centímetros de uma única trena, a curiosidade: 


em qual câmera lenta eles trafegavam? 


dele só posso dizer que as costas eram largas, grisalho, camisa e calça jeans, botina marrom. dela, garanto: cabelos cacheados, batom e um brilho que há muito eu não via.

aliás, se me fiar nos olhos dela, posso supor que ele era tão bonito quanto o marlon brando. e se for pelo sorriso (que não cabia no seu rosto), melhor de conversa do que qualquer uma das crônicas do paulo mendes campos.

não, não pude ouví-los. eles sussurravam. pela movimentação das pernas debaixo da mesa, trava-se de primeiro encontro. e assim sorvi meu caldo verde, observando como os deuses nascem e crescem em poucos minutos.
eros é divertido. 


quando minha água tônica chegou, marlon brando se levantou e não me perguntem para onde foi porque fiz questão de não estragá-lo no meu imaginário. olhei diretamente para ela. 


a mulher estava mais bela. mais do que qualquer outra. de deixar a perfeição das mulheres perfeitas com inveja. não porque fosse bonita, mas porque estava sob encantamento. 


era ela aquele momento, quando somos livres para pegar ou largar. deixar entrar ou partir. manter-nos intactos ou nos permitir fundir.


um sublime momento.

imaculado de erros ou acertos.

e lembrei de um dia assim, em mim, que não vem ao caso, até porque ela começava a pirueta sobre a mesa. bailarina, em plena leveza, uma perna sobrevoando o parar, a outra prestes a tocar o prosseguir.


que Pina Bausch te proteja, rezei. 


ela deve ter ouvido minha prece, numa espécie de cumplicidade telepática, porque seus olhos sorriram e eu lhe sorri também com meu olhar. 


daí que quando marlon brando voltou, por decência, abdiquei do café amargo e me levantei para pagar a conta no caixa. 


que o primeiro beijo viesse! e que fosse, obviamente, apenas deles.


Tatiana Carlotti. Balzaquiana convicta e amante das letras. Existe neste contínuo espaço/tempo, sem muita pretensão de eternidade. No momento pulsa, quatro andares acima do solo, no centro de São Paulo. “Venta, eu gosto”. Ainda sonha... Site: SobremargenS.

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