Faraó [Milton de Oliveira Cardoso Junior]

Faraó

Ainda ontem estive lendo um livro que trata da relação do homem com os animais. A nossa sempre foi intensa. Outrora, crescer no mato, mesmo com os privilégios que tive, o ambiente do Macondo de meu avô Ioiô, rico de reptos sociais e culturais, era um desafio. Até então, tínhamos a caatinga vasta, em dois tempos: verde e seco: dia e noite: terra e céu. Não. O mundo não era outro. As perspectivas, sim. Aos meus olhos, criança silenciosa e atenta (“O sangue deste me saiu ao da avó, sangue de índio, que menino mais calado”, murmurava minha mãe, minha grande contadora de histórias familiares.), ele era vasto. O silêncio da caatinga dizia dos bichos e das almas penadas.

Meu pai amava os animais. Eu, todos nós. Os animais eram os olhos, mesmo aqueles que metiam medo, como uma vaca parida. Meu pai teve um perdigueiro puro, coisa rara no sertão. O gado era delicioso nas manhãs recém-lavadas pelo orvalho – hora da ordenha: o cheiro: folhas e estrume. Dia de matar boi era uma festa. A vaca gorda posta de frente, em sentido, os grandes olhos à espera. Meu pai mirava-lhe a testa (com uma pistola, o homem era louco por tecnologia, só não conheceu bem o celular...), bangue! A vaca ia ao chão. Sangravam-lhe o coração, esfolavam-lhe o couro: a meninada vibrava. 

Alguns anos depois, quando morávamos naquela cidade cujo nome não ouso pronunciar, tanto eu a detestei, vieram contar-nos que a vaca Petrinha tinha caído nas pedras do tanque – geografia estranha, a do Macondo de meu avô Ioiô: de um lado, terra boa; de outro, longos trechos de pedras, com reentrâncias naturais que, nas primeiras chuvas, transformavam-se em piscinas naturais – haja plantas, animais, meninada e sol! Meu pai foi ver a Petrinha. Tinha quebrado ossos, contou-nos ao chegar, e botaram a pobrezinha num jirau. Semanas se passaram, vieram contar que Petrinha tinha morrido. Nós choramos.

Tinha eu os meus animais – os passarinhos livres da caatinga. E um gato rajado. Eu e o meu irmão caçula cuidávamos dele. Quando nos mudamos para a cidade, o gato foi também. Sumiu um dia depois. Desde então, era um gato atrás do outro. Eu, particularmente, gosto muito da espécie. Livre, higiênico, meditativo. Minha última cria é um siamês. A minha alegria, o meu tormento: Faraó passava horas farejando paredes, portas, móveis. Subia nos lugares mais inusitados. Inesperadamente, começava a correr por toda a casa. Enrolava-se, mordendo as patas traseiras. Eu ousava passar perto, devagar: ele pulava no meu calcanhar, simulava uma mordida (doía e tirava sangue) e fugia às loucas. Eu ria. Adorava água, tomar banho uma vez por semana, água fria.

Faraó era lindo, o olhar dele de madrugada, quando eu ia abrir a porta da cozinha para lhe dar a primeira ração da manhã... Olhem-no nos olhos dele: a doçura... 

Lygia Fagundes Telles, para o meu adeus: “Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes,quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende, mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.”

Segunda passada fui comprar a ração quinzenal de Faraó. Na volta, eu notei: ele não veio ao meu encontro. Estava deitado no seu lugar preferido, uma cadeira emborcada sobre a mesa, na varanda. Os olhos opacos, ele miou: miado de dor. Estranhei. Água limpa, ração nova no prato. Faraó continuava deitado, e olhava para mim. “Nunca mais pego outro”, dizia minha mãe. “Não temos sorte com gatos.” À tarde, Faraó começou a miar. Punha-se de quatro, como se quisesse fazer suas necessidades – não em sua caixinha, estranhei. Ao anoitecer, Faraó soltou o seu primeiro lamento de dor – e lembrei-me dos gritos de minha mãe, quando seus rins pararam. Passei a noite toda em vigília. De madrugada, não resisti: soltei um berreiro, liguei para minha irmã e contei o que estava acontecendo. Cidade pequena, sem veterinário... Fui ao Google, escrevi um pequeno texto, descrevendo o estranho comportamento de Faraó. A resposta veio rápida, num site para gatos:

“Cerca de 3 a 8% dos gatos machos atendidos nos EUA apresentam a FLUTD como queixa primária. Basicamente é o gato macho que está com uma obstrução na uretra, há alguns dias, sem conseguir urinar. O gato fica na posição de urinar muito tempo, urina em gotejamento, podendo haver sangue. Quando o animal está obstruído e não consegue urinar, a bexiga fica repleta e a urina começa a retornar para os rins. O gato vai apresentar a primeira complicação grave, a hidronefrose. Os rins não vão filtrar adequadamente e uma doença que era do trato urinário inferior (bexiga e uretra) passa a acometer também o superior (ureteres e rins). Então além de não urinar o animal também vai apresentar anorexia, vômito e desidratação.”

Faraó está deitado num tapete, na varanda. Não mia mais. A boca está cerrada, os olhos baços. “Faraó!” – ele acena balançando o rabo. A morte será lenta. Anorexia, vômitos e desidratação. A dor. E a vida. A vida é o nosso único trunfo – ninguém pediu para nascer. Se pudesse, Faraó, procuraria um veterinário e pagaria os olhos da cara para que você fosse sacrificado. O que nos ensina a dor? Choro – de raiva. Um morto é um morto, mas a dor... Eu não resisto – e olhe que fui formado na dor. E choro. De raiva.

Mas não desisto. Já penso no próximo gatinho, por Deus! que não desisto, porque viver é a nossa opção maior.

Você sabe disso, Faraó, é o que me dizem os seus olhos.


Milton de Oliveira Cardoso Junior, baiano da Chapada Diamantina, é graduado em Letras, Língua Portuguesa e Suas Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia, Uneb, Campus XVI, Irecê, Bahia. Surdo desde os dez anos, em consequência de meningite, tem dificuldade em aprender Libras, talvez pelo fato de ter começado a ler muito cedo. Entre os seus escritores preferidos, encontram-se Thomas Mann e Guimarães Rosa.

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