Meia-idade — confissões de um amigo [Cinthia Kriemler]

Meia-idade  — confissões de um amigo 
(esta crônica faz parte do meu livro Do todo que me cerca, Editora Patuá, 2012) 

Meia-idade é tempo de reflexão. É hora de rever e redimensionar expectativas, de pensar duas vezes antes de comprometer o organismo e o cérebro em empreitadas arrojadas. Como o nome mesmo já diz, metade. Metade da subida, metade da descida.

Bonito discurso, hein? Discurso de gente centrada, de gente sem medo de rugas, de flacidez, de críticas, de comparações...

Bonito discurso, uma ova! Isso é papo de gente fingida. Ou doida. A única coisa certa sobre a meia-idade é que não adianta querer ficar se equilibrando no alto do pico do gráfico, porque o tombo é inevitável, ou, como se diz por aí: tudo o que sobe, desce! 

Você conhece alguém feliz com a meia-idade? Alguém que realmente prefira ter 50 do que 25? Conhece algum maluco que prefira uma ereção por noite em vez de três? Uma mulher que adore ter cabelos brancos? Não conhece, não é? Eu sabia. 

Não adianta espremer a memória que você só vai se lembrar de gente surtada: ex-freiras ou ex-padres, ex-presidiários, ex-comatosos. Porque tirando os que estiveram física, mental ou espiritualmente presos antes de chegarem à meia-idade, não sobrou ninguém na sua conta. 

Aos 46, eu ainda acreditava que o importante é a personalidade. Aos 49, apesar da crise anunciada da virada de década, permaneci firme na intenção de me manter um “jovem senhor”, como dizia minha tia se referindo ao marido mais novo do que ela. Aos 52, acreditei que os pneus acumulados na região central do corpo, à qual eu antes chamava de abdômen, representavam o charme dos homens maduros e bem-sucedidos. E, finalmente, aos 55, me convenci do inevitável: eu estava envelhecido, despencado, enrugado e flácido. 

Pensando bem, eu não me convenci de nada... Foram as circunstâncias que me convenceram. E as circunstâncias são também conhecidas pelo nome de Martha. Assim mesmo, com esse “th” pedante.

No barzinho, no dia em que nos encontramos, eu ainda convivia bem com a ideia de que nem todos os homens maduros gostam de mulheres mais jovens. Eu mesmo não gostava. Passado. Passei essa lorota adiante até três meses atrás, quando Martha, 24 aninhos, invadiu a minha praia. De lá pra cá, ela manda, eu babo. 

E então tudo mudou. 

De repente, as minhas sete manhãs da semana passaram a começar com uma corrida bem cedo no parque, onde a falta de sono é compensada pelos olhares de inveja que os marmanjos me lançam (ou serão olhares de volúpia que lançam à Martha?).

Na sequência, Martha com “th” me fez comprar umas roupas mais... mais fashion — acho que é assim mesmo que se diz. Tenho, inclusive, uma camisa branca indiana, que se chama bata; e uma outra, com umas costuras ao comprido, que aprendi se chamarem pespontos. São as únicas duas que Martha me deixa usar para fora da calça. Minha refeição principal é uma salada reforçada, onde entra frango, chester ou atum — um de cada vez. Tenho certeza de que perco calorias extras só procurando os fiapos de carne escondidos no meio das folhas umedecidas pelo molho de iogurte diluído. No jantar, outra salada, mas dessa vez com sopa. Correção: com consomé, que é um caldinho de carne ralo como água, bem quente e em menor quantidade do que a sopa. Passei direto pelo café da manhã porque acho um nome muito pomposo para aquela fruta pequena, as três bolachas cream cracker e o chá que me alimentam até as 10 da manhã — quando ganho uma barra de cereal. Light. 

Cheguei a pensar que dieta era a pior coisa que o sujeito tinha de fazer para deixar de ser de meia-idade. Mas não era. Um mês depois do sacrifício da fome, veio o pedido disfarçado em opção: “Você precisa parar de tomar chope, não acha, meu gato? Eu sei que você detesta ter barriga, não é, meu bem?” Suspendi o chope e introduzi o vinho no cardápio para os dias frios, aqueles seis ou sete que só acontecem em junho ou julho aqui por estas bandas. Duro mesmo foi me preparar psicologicamente para substituir os dois dedos de colarinho por um copo duplo de suco de acerola com laranja, nos outros 300 dias bem quentes do ano. 

Mas xô, meia-idade! Os homens me invejam, as mulheres me querem e a pílula azul abençoa tudo isso! 

Cinco dias atrás, Martha me levou ao cabeleireiro dela. Achei tão natural quanto ter ido, mês passado, a um desses médicos que colocam botox para fazer alguns preenchimentos. Deixei por conta do rapaz pintar os meus cabelos, dar um tal de banho de brilho e hidratar. E fiquei na maior empolgação de ver que, ao final, não me restava mais nem um cabelo branco na cabeça. Afinal, eu era realmente um novo homem, livre da meia-idade. Mas hoje os fios não estão como há cinco dias... Pode ser um reflexo da luz do banheiro... Não, não é. Meus cabelos estão mesmo meio vermelhos... Como é que pode? Eu sei que foram pintados com uma cor escura. Esperei 45 minutos com aquela gosma ácida na cabeça para ficar parecendo um homem de 30! Se eu não estivesse vendo, não acreditava. O que é que aconteceu comigo? 

Minha filha toca a campainha nesse momento. Veio buscar o cheque da faculdade, com certeza. 

— Pai...você pintou o cabelo?! 

Ainda chocado com a facilidade dela em reconhecer o malfeito, escuto sua voz zombeteira continuar: “Ai, meu Deus, isso é bem coisa de homem de meia-idade!” 

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São 9 da noite. Depois de um monte de gozações do pessoal do escritório, estou finalmente relaxando. O filé acebolado com pão está descendo muito bem, junto com o chope gelado. Vai melhorar ainda mais se aquela mulher de meia-idade na outra mesa resolver me dar um mole.


Cinthia Kriemler - Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

3 comentários:

cecilia disse...

Tem como não gostar dos textos de Cinthia? Este me matou de rir. Cinthia, você é fantástica!!!

Tatiana disse...

Já conhecia, mas ri novamente ao reler o texto leve e engraçado da Cinthia. E que venha mais um filezinho!

edweinels disse...

Humor e reflexao na dose certa: parabens, Cinthia, por mais um belissimo texto. Abracos, querida.