O homoerotismo na literatura [Milton de Oliveira Cardoso Junior]

Querelle(1982)

O homoerotismo na literatura

por Milton de Oliveira Cardoso Junior 

Para a maior parte dos teóricos e críticos literários, a morte é o tema por excelência da literatura. Existe outro, porém, que, como veremos mais adiante, não tem nada a ver com identidade e direitos de minorias. Trata-se do homoerotismo, analisado pela literatura sob a ótica do estético. Portanto, a interpretação do homossexualismo no presente texto é de ordem estética.

Não se contesta a homossexualidade como uma orientação biológica. Isto posto, enquanto voltada para a afetividade e a busca do prazer sexual entre dois indivíduos do mesmo sexo, a homossexualidade não é questionada. Em verdade, sempre foi assim, desde os primeiros tempos. A sinestesia é que nos impede de reconhecer a inclinação da homossexualidade. Antes do advento do nazismo e das perseguições aos homossexuais, era comum a existência de comunidades homossexuais na Alemanha cujos pares viviam em perfeita estabilidade afetiva. Não precisamos, pois, voltar mais no tempo e discutir as regalias usufruídas da prática homossexual pelos antigos, devidamente racionalizada no contexto cultural.

Como, porém, a literatura não se interessa especialmente pela harmonia social – nesse caso, a arte literária teria desaparecido de há muito -, a perspectiva de ordem estética do homoerotismo tende mais para o olhar – o desejo – a não usufruição do objeto desejado. De acordo com a estética da recepção, o texto literário depende do sentido dado pelo leitor e de suas percepções anteriores, de maneira que podemos esperar muito do significado do impulso homossexual de um Gustav e de um Charlus. A beleza de Alexis do “Bom Crioulo” perde todo o significado estético, na medida em que o seu corpo se serve à consumação do prazer homossexual. Com efeito, uma noitada com um belo garoto de programa revela a vida como ela é – há de convir que, apesar da satisfação dos sentidos levados efetivada entre quatro paredes, após o ato, parte da beleza (do ato em si e do garoto) se perde. Percebemos isso facilmente num pornô gay.

A estética homoerótica denuncia propósitos de exclusão cultural, delineados pela psicanálise. Em termos literários, um Gustav apaixonar-se pela beleza de um efebo, persegui-lo no desejo nunca consumado e, por isso mesmo, tornado em anseio do belo, abalizado não na carne, mas na “morte feliz”, é muito diferente de um Charlus levar o seu garoto de programa para jantar numa hospedaria anônima com o intuito de, logo mais, oferecer-se ao desfrute sexual. Na vida em sociedade, isso é normal e válido, mais ainda se levamos em conta o aforismo de Pynchon sobre o amor que, em nossos dias, ousa gritar o seu nome aos quatro ventos (embora, nas redes sociais, são poucos os que se encorajem a assumir a própria orientação sexual – o que valida a exclusão e parece fornecer indícios de que os tais direitos conquistados das minorias vão de encontro aos interesses econômicos das nações – especialmente quando tais minorias têm muito dinheiro para gastar): que importância tem, se amor e esterco se unem? Somos humanos.

A literatura brasileira é pródiga no homoerotismo estético. Machado de Assis, o nosso maior escritor, se universalizou ao insinuar os impulsos homoeróticos tanto de belos jovens (Bentinho e Escobar entre eles) como de belas mulheres. No caso dos garotos, o internato era o lugar por excelência para essas manifestações. Raul Pompéia não ficou atrás, e se imortalizou no seu “O Ateneu”. O panorama de Guimarães Rosa é ainda mais emblemático. Nele, é a sexualidade que se torna ambígua. A beleza física nos lembra da cauda do pavão. Qualquer um cai facilmente nos truques da sedução. O que nos remete de volta a Pynchon. Somos demasiados humanos.

Finalizemos, porém, com dois estetas homoeróticos clássicos – em termos literários, pois um deles chegou a ser preso sob a acusação de práticas sodomitas. Durante o seu julgamento, o brilhante Oscar Wilde se saiu com essa: “O amor que não ousa dizer seu nome é o grande afeto de um homem mais velho por um jovem como aconteceu entre David e Jônatas (filho do rei Saul, que amava David e o perdeu para o filho Jônatas, grifo meu), é aquele que Platão fez a base de toda a sua filosofia, é aquele amor que se encontra nos sonetos de Michelangelo e de Shakespeare...”.

Thomas Mann, por seu lado, foi mais direto e contido: “O homossexualismo é estético; a heterossexualidade é prosaica”.

Em vista do que afirmamos, não se espante o leitor caso testemunhe o olhar sonhador de um homem sobre outro de beleza juvenil e angelical. Na literatura, o testemunho desse olhar se transmuda na estética. Diferentemente da vida real, em que o mesmo olhar é apenas mais uma forma humana de amar. Inexorável como a morte. Ou prosaico como a heterossexualidade. Em ambos os casos, a sutil recusa do ato homossexual através do belo. Encenada no afeto do homem velho por um jovem belo.

Na estética literária do homoerotismo, o amor é próprio da juventude. Nesse aspecto, Platão jamais será contestado.


Milton de Oliveira Cardoso Junior, baiano da Chapada Diamantina, é graduado em Letras, Língua Portuguesa e Suas Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia, Uneb, Campus XVI, Irecê, Bahia. Surdo desde os dez anos, em consequência de meningite, tem dificuldade em aprender Libras, talvez pelo fato de ter começado a ler muito cedo. Entre os seus escritores preferidos, encontram-se Thomas Mann e Guimarães Rosa.

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