O sublime da beleza loira [Milton de Oliveira Cardoso Junior]

O sublime da beleza loira

Milton de Oliveira Cardoso Junior 

Observada de outra perspectiva, o da ciência, a filosofia começou com o advento da consciência, em que se inserem as clássicas perguntas: “Por que o mundo existe?” Ou: “O que sou, de onde vim, para onde vou?”. Portanto, as cogitações filosóficas são formulações de problemas que desembocam no pensamento científico.

Creio que este preâmbulo se faz necessário, em vista do estudo que ora nos propomos a analisar: a beleza loira. Quando se trata de defini-la, o autor mais recorrente é Kant. No entanto, o filósofo a conceituou de bela, denominando o seu oposto, a beleza morena, de sublime. Discordo – e levo em conta o fato de que Kant fosse alemão.

Para mim, a beleza loira é sublime. Assim como o abismo, uma tempestade, a Via Láctea em noite de inverno. Ao ler este enunciado, lembre-se o leitor de que, aos nos determos no “sublime” e no “belo”, estamos tratando de percepções mentais no contexto da Biologia, uma ciência exata, pois que, em Kant, como em tudo o mais que se refira aos filósofos, traduzem-se em preposições e premissas filosóficas, subterfúgios que disfarçam a realidade de um bom laboratório de qualquer boa universidade. O sublime seria, pois, o belo elevado à potência máxima, seja qual for a qualidade representada. Ou seja, a perfeição. Considerado sob este ponto, o sublime equivale à percepção que o homem tem do imensurável, pelo simples fato de que o perfeito permanece no campo do desejo, sendo impossível a sua realidade na matéria.

É assim que, após a consolidação da cultura humana, especialmente com a invenção da escrita e o desenvolvimento da pintura, a beleza loira tornou-se um ideal a ser alcançado. Como o idealismo busca o supremo, o perfeito, supõe-se que a beleza loira seja a mais adequada para representá-lo. Aliás, no mesmo contexto em que afirma ser a beleza morena a sublime, Kant diz o mesmo da velhice – talvez por representar o fim da vida, o umbral para o desconhecido. Tenho restrições quanto a essa definição. Ao contrário, penso que sublime é a adolescência, fase transitória e, portanto, tida por todos como a ideal da vida humana. Além disso, o próprio adolescente se vê a si mesmo numa fase perfeita, e só toma conhecimento de suas limitações quando se torna adulto.

A cultura ocidental consagrou a beleza loira como a representação elevada da sexualidade. Ela seria o apelo sexual por excelência, que Hollywood consagrou com a imagem de Marilyn Monroe – a morena Norma Jeane Mortenson transformada em loira. Ao definir a beleza loira como bela, não estaria Kant se referindo ao apelo sexual, quase sempre consumado no sexo e de conotação imperfeita? Ao contrário, seria sublime a beleza morena, e, sendo assim, em que consistiria a sua perfeição? Mais uma vez, não estaríamos entrando no terreno do geográfico? Com efeito, os contrários se atraem.

“... mas o amor sexual é do belo”, afirma Kant. “Até a cor morena e os olhos negros estão mais vinculados ao sublime”, continua ele, “e os olhos azuis e a cor loira ao belo”. E finaliza: “O sublime comove, o belo encanta”. O homem, porém, não se move apenas por impulsos sexuais. Ele pensa e cria. Há, nele, uma pulsão para o estado estático da contemplação, que o deixe absolutamente inerte, mas incompleto. Assim, a beleza loira estaria incluída nas reminiscências platônicas, ou percepção mental que despertaria aquilo que seria a “saudade que a alma tem de Deus”. O êxtase.

Uma das mais sábias instituições humanas pôs o homem praticamente de quatro ao pregar na cruz um homem de beleza andrógina e loira, de olhos azuis. Teria a Igreja obtido o mesmo resultado, se, ao contrário do loiro, tivesse colocado na cruz um belo moreno de olhos negros?

Nas artes, a beleza loira é evocada para representar tanto o mal como o bem, em um grau elevado. O Barroco e a Renascença elegeram a beleza loira como o ponto alto de sua expressão. A arte tem esse poder de alçar o homem a um estado parecido com o nirvana dos hindus, desde que a sublimação seja focada no belo.

A Bíblia está recheada de histórias maravilhosas de loiros belos, embora estes percorreram o caminho da sexualidade, como é o caso do garoto Davi, cuja beleza loira é descrita em função de acalmar os furores (homoeróticos) de Saul com sua harpa, Absalão, filho de Davi, é descrito como um dos homens mais belos que já existiram na Terra, também loiro de olhos azuis.

Mas é na literatura que o fenômeno da beleza loira expressa outras dimensões metafóricas. A ninfeta Lolita é loira, mas o seu teor angelical atua como instrumento de sedução. Apesar disso, o sublime a rodeia a todo o momento, e Albert Albert vive numa eterna tortura entre a contemplação e o desejo. A ambiguidade sexual entre Diadorim e Riobaldo não existiria, caso aquela fosse uma morena de olhos negros.

Algumas das personagens mais marcantes de Thomas Mann são andróginas. Todas loiras, belas, concentradas em si mesmas como deuses ansiando pela adoração. Melville cria uma personagem enigmática, o marinheiro Billy Budd, que entra em conflito com o capitão do navio por ser loiro e belo, despertando naquele um furor semelhante ao da loucura de Saul. Em plagas tupiniquins, temos um romance ousado para a época. Trata-se de “O Bom Crioulo”, de Adolfo Caminha. Seu marinheiro Aleixo poderia estar num altar, despertando o êxtase do sublime. O Brasil, porém, fica abaixo dos trópicos, e a androginia de Aleixo vai por água abaixo, ou melhor, vai satisfazer o desejo desenfreado de um marinheiro preto, e ambos são castigados e expulsos do navio. Aleixo, porém, é provido das características do loiro sublime, exploradas para satisfazer os seus anseios de conforto e segurança. 

O garotinho que desperta a cupidez dos colegas de rua, no romance “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, é um belo loirinho, filho de uma prostituta francesa. Por ser loiro e belo, os pretinhos o desejam como garota, e o delfim é obrigado a provar a sua virilidade na luta. A Cecília de José de Alencar leva o padre Lorenzo às raias da loucura com sua beleza loira. Ao comparar as vidas de Alexandre Magno, o Grande e Júlio César, Suetônio carrega na biografia do macedônio: a todo o instante a menção à beleza loira do imperador oriental produz o seu endeusamento em vida.

O belo é bom e enaltece. Quando se trata do loiro, então, a beleza é sublime.


Milton de Oliveira Cardoso Junior, baiano da Chapada Diamantina, é graduado em Letras, Língua Portuguesa e Suas Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia, Uneb, Campus XVI, Irecê, Bahia. Surdo desde os dez anos, em consequência de meningite, tem dificuldade em aprender Libras, talvez pelo fato de ter começado a ler muito cedo. Entre os seus escritores preferidos, encontram-se Thomas Mann e Guimarães Rosa.

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