Um encontro entre as artes visuais e a poesia [Maíra Fernandes]

Obra de 1972 de Iberê Camargo – DIVULGAÇÃO
Um encontro entre as artes visuais e a poesia

Mostra "Narrativas Poéticas" está em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo 

Maíra Fernandes 
maira.fernandes@jcruzeiro.com.br  

Esqueça a interação high tech e o ritmo característico das exposições realizadas pelo Museu da Língua Portuguesa, na Capital. Até julho, a proposta é uma visita mais demorada para apreciação das 58 obras de 38 artistas, acompanhadas de 46 fragmentos de poemas de 26 poetas brasileiros. A mostra Narrativas Poéticas - Coleção Santander Brasil, primeira exposição de arte que o museu recebe, não chega a ser uma exceção da instituição, cuja vocação está voltada para as palavras e não para exposições de arte. Como adianta o diretor do museu, Antonio Carlos de Moraes Sartini, a ideia de realizar uma mostra como essa, aberta ao público ontem, é acalentada há tempos, mas faltava uma boa proposta como nesse caso, que ainda consegue juntar obras de importantes nomes das artes plásticas no Brasil e poesias escritas em português. "Há tempos pretendíamos fazer uma exposição de arte. Já tivemos aqui algumas obras de Victor Brecheret, Emiliano Di Cavalcanti, mas não era uma exposição. O museu sempre desejou, mas precisávamos pensar qual exposição seria, até que surgiu esse convite do Santander", conta Sartini, que tem uma relação com Sorocaba, cidade que, na década de 1990, atuou à frente da Oficina Cultural Grade Otelo. 

O museu, primeiro no Brasil e no mundo dedicado à língua e instalado em um endereço privilegiado em São Paulo, na Estação da Luz, Centro, com grande fluxo de pessoas, recebe média de 1.500 pessoas por dia, mais de três milhões de pessoas ao longo dos oito anos de atividades, completados neste mês. E estes números e essa acessibilidade foram cruciais na escolha da curadoria do banco para a montagem da exposição na Capital. 

A dinâmica desta exposição, cuja curadoria geral é assinada por Helena Severo e conta com uma equipe formada por nomes como Antônio Cícero, Franklin Pedroso e Eucanãa Ferraz, responsáveis pela escolha das poesias que vão de nomes clássicos como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, até contemporâneos como Arnaldo Antunes e Waly Salomão, é de observação mais demorada nos poemas e nas obras, que também trazem assinaturas de artistas diversos e de épocas distintas como Emiliano Di Cavalcanti, Cândido Portinari, Victor Brecheret, Carybé, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, entre outros. Há, ainda, recursos usuais das exposições ocorridas no local, como projeções e áudio, além de quatro totens com reprodução de artes em alto relevo para deficientes visuais. 

Nesta edição da mostra em São Paulo, o diferencial das demais é um espaço criado para abrigar a única escultura da exposição: a Tocadora de guitarra, de Victor Brecheret, fundida em bronze. A obra, de 1923, está em um local como uma redoma, feita por divisórias com telas brancas onde estão grafados poemas como os de Arnaldo Antunes e Carlos Drummond de Andrade. 

Já na entrada, o visitante é acolhido por uma cortina de letras transparentes que remetem à vocação do museu e, ao mesmo tempo, adianta a sutileza da montagem da mostra, com tons claros e transparências para destacar os detalhes das obras. 

De acordo com Suzane Queiroz, que assina o projeto expográfico em parceria com Marcello Dantase, a ideia de grafar os poemas em telas brancas, com transparências, de forma discreta e quase inelegível se visto de longe, é para mobilizar o público a chegar mais perto, a observar com mais atenção os detalhes da exposição. 

Sobre as transparências no projeto dos fragmentos de poesias, ela defende. "Algo provocativo. Provocação do olhar, para ver as obras, ver o outro, se ver e ver o mundo através da poesia." 

Diálogo de poéticas 

O diálogo entre as artes plásticas e a poesia está no discurso de defesa dos organizadores da exposição. Mas o poeta Antônio Cícero atenta que os poemas não são interpretações das telas. "E tampouco as telas são ilustrações dos poemas. Resolvemos pontuar as obras com poemas", reforça. 

Para se ter uma idéia dessa intenção dos realizadores, a mostra, que já passou por Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília, nunca é a mesma. Por mais que as telas e os poemas sejam os mesmos, elas são instaladas de maneiras diferentes, e nem mesmo os poemas ficam próximos das mesmas obras em todas as exposições. "Há uma relação entre eles (telas e poesias), mas tem que descobrir qual", provoca o poeta. 

Algumas dessas relações são facilmente identificadas, como o poema Mar azul, de Ferreira Gullar, disposto entre as obras de Fayga Ostrower e Manabu Mabe, predominantemente realizadas em tons azuis. 

"O eixo central é estabelecer o diálogo entre a palavra e a imagem. Uma idéia que não é de hoje, mas da antiguidade clássica, quando a produção artística era entendida de forma global", defende a curadora, Helena Severo. 

É ela que reitera que a exposição em questão é guiada pela emoção, e não por uma preocupação como escolas estéticas, ano, nichos, ou outro tipo de referência. "É muito além disso. Aqui são obras que dialogam com a produção poética brasileira. Não há critérios." 

Mostrar para guardar 

Marcos Madureira, vice-presidente do Santander, salienta que a coleção, adquirida após a fusão e compra de outros cinco bancos, é apenas uma parte de um acervo de 1700 itens. "Guardar alguma coisa é perder. E foi essa idéia que nos levou a mostrar nosso acervo. Essa é a melhor forma de guardá-lo", disse, citando uma frase de Antônio Cícero. 

Formado na década de 1960, o acervo conta com obras que datam desde o romantismo do século 19 até a contemporaneidade. Além de nomes como Alfredo Volpi e Iberê Camargo, há, ainda, trabalhos recentes de artistas como Tuca Reinés, Fernanda Rappa e Renata de Bonis. Como salienta a curadora do acervo do Santander, Elly de Vries, estão atentos às produções atuais, incluindo a fotografia, para enriquecer o acervo, formado, em sua maioria, por pinturas e gravuras. 

Serviço 

A exposição mostra Narrativas Poéticas - Coleção Santander Brasil segue até o dia 20 de julho, no Museu da Língua Portugesa. Os ingressos variam entre R$ 3 a R$ 6, com entrada gratuita aos sábados. O museu funciona de terça a domingo, das 10h às 18h. Na última terça-feira do mês, o museu fica aberto até às 22h. O Museu da Língua Portuguesa fica na Estação da Luz, na Praça da Luz, Centro.


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