O espelho [Victor da Rosa]

O espelho


Júlio Castañon Guimarães e a tradução de Paul Valéry

Artigo publicado na Revista Pessoa 

por Victor da Rosa

O mito de Narciso talvez seja uma chave interessante para ler a poesia de Paul Valéry, tanto através de um ideal de perfeição, que encontra no poeta francês consequências variadas, e mesmo por conta da relação (contemplativa, ambígua, às vezes intensa) entre o homem, sua imagem e a natureza. Em Fragmentos do Narciso e outros poemas (Ateliê Editorial, 2013), traduzido com maestria por Júlio Castañon Guimarães, que também escreveu uma nota esclarecedora sobre suas escolhas, o mito de Narciso ocupa lugar central na composição, sugerindo assim maneiras de especular sobre o assunto: poderia ser a imagem de Narciso uma espécie de espelho da própria poética de Valéry?

Além de “Fragmentos do Narciso”, longo poema dividido em três partes, peça aliás que exige leitura atenta e dedicada, a edição traz ainda outro poema sobre o assunto, “Narciso fala”, que abre com um lamento: “Ó irmãos! tristes lírios, sofro de beleza”. Neste poema, a relação de Narciso com a própria beleza é traduzida primeiro em lamento e infelicidade, afinal “Só a mágica água posso ainda amar,/ E o riso e a rosa antiga não mais têm lugar”, mas também em encantamento, fascinação, conforme o preciosismo das seguintes imagens: “Eis minha tez de lua e rocio na água exposta,/ Ó forma obediente a meus olhos oposta!/ Eis meus braços de prata e seus gestos puros!…”.

A edição brasileira reúne poemas de dois livros de Valéry: Album de Vers Anciens, publicado em 1920, mas com textos escritos ainda no fim do século XIX, e outro livro de dois anos depois, Charmes, talvez sua obra mais famosa, e que também aproxima, desde o título, poesia e fascínio – do latim carmen, “canto mágico”, a palavra pode significar interesse e sedução, mas também ilusão, encantamento. Ao todo, são dez poemas, todos em versão bilíngue, e bastante diferentes entre si, conforme salienta o próprio Júlio Castañon, que justifica a escolha argumentando que “mesmo os dois livros de que foram extraídos são compostos de poemas bastante diversos”. Trata-se, portanto, de uma seleção que dá certa ideia de uma das fases mais brilhantes da obra de Valéry, que passou a ser considerado um dos grandes mestres do Simbolismo – e principal herdeiro de Mallarmé – após o lançamento de La jeune Parque, em 1917.

Quanto a este outro espelho, no caso Mallarmé, ele aparece também refletido no livro em pelo menos duas peças. No soneto “Helena”, talvez a Beatriz de Valéry, ressoa o emblemático “O azul”, conforme indicam os dois primeiros versos: “Azul! Sou eu… das furnas da morte eis que venho/ Ouvir a onda quebrar nas escadas sonoras”. De fato, diante do mar, vendo embarcações “Sair da sombra pelos remos e seu empenho”, o poema busca captar “o voo dos remos” e o sorriso dos Deuses “ante a espuma e seus insultos”, ou seja, o inapreensível. Já em “Ária de Semíramis”, outra personagem grega que na hora da morte transforma-se em ave, Mallarmé revive através do intraduzível “air”, do francês ar e ária, isto é, imaterialidade e música, assim como silêncio, pureza, abstração, figuras importantes para entender também a poesia de Valéry.

Os poemas de Valéry, por um lado, devem ser lidos como uma tentativa de captar certos contrastes entre som e silêncio. Daí tantas referências ao assunto: a fonte de Narciso “não canta”, seu “insulto é mudo”, a “voz é suave”, nada pode escapar “no silêncio da noite”, pois o “silêncio é expansivo” etc. Em suma, é como se o poema fosse um sopro, murmúrio impessoal, conforme o timbre da flauta, lâmina através da qual, no entanto, “corre um tumulto”. Por isso também a obra de Valéry é “considerada difícil, intelectualizada e de caráter altamente formal e abstrato”, como lembra Júlio Castañon, afinal a tentativa de transformar o poema em música, que é provavelmente a mais abstrata (e pura) das artes, deve passar por um radical processo de esvaziamento da linguagem, fazendo com que a palavra se afaste de seu objeto até o limite da ilegibilidade, conforme sugeriu Blanchot alguns anos depois em seus ensaios.

E tal processo deve se realizar não apenas no tema, mas principalmente através de dois fundamentos de sua poética: o ritmo e a rima. Por isso também a extrema dificuldade de traduzi-lo, e a necessidade de torcer a língua até encontrar as palavras mais exatas, isto é, as aliterações mais perfeitas, como se pode notar nesta rara sequência de versos presentes já no fim de “Fragmentos do Narciso”, quando o poeta se despede de sua imagem: “Isso que nos proíbe a existência extrema,/ Essa trêmula, frágil distância suprema,/ Entre mim mesmo e a água, e minha alma, e os deuses!…/ Adeus… Sentes fremir mil pálpitos adeuses?”. Alguns críticos recomendam inclusive que Valéry seja lido em voz alta, por conta da extrema musicalidade de seus versos, pois é assim que sua poesia torna-se mais “vibrante e próxima”.

Para descrever Narciso, o poeta recorre ainda a uma série de imagens que primeiro remetem a uma ideia de perfeição, já que Narciso possui “pálidas mãos de pérola, e seda o cabelo”, quer dizer, “é perfeito em tudo”. Depois, as descrições são também vagas, líquidas talvez, pois a beleza mais perfeita, para Valéry, parece ser somente aquela que vem seguida do silêncio e da morte: o reflexo de Narciso na água é trêmulo; os passos em “As vãs dançarinas” são dados sem ruídos; em “Verão”, a musa termina o poema se desfazendo feito tramas de ar; e até a natureza, enfim, é “companheira do silêncio”. Por fim, lembrando o único verso que se repete nos dois poemas sobre o mito, Narciso se refere a si como um “delicioso demônio, frio e desejado”. Eis aí a última maneira que Valéry encontra, refletindo-se em Narciso, para definir a própria poesia. 


Victor da Rosa, ensaísta e escritor, é graduado em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, e doutorando pela mesma instituição, com pesquisa sobre Machado de Assis. Organizou, em parceria com o poeta e tradutor Ronald Polito, a antologia 99 poemas (2009) e Escutem este silêncio (2011), ambas do poeta catalão Joan Brossa. Colaborou com resenhas e ensaios esparsos para diversos jornais e periódicos culturais: Bravo!, Mapa das Artes, Goethe Institut, Interartive, Suplemento Literário de Minas Gerais, Sopro, Sibila, Jornal Estado de Minas, Diário Catarinense, blogs do Instituto Moreira Salles e da editora Cosac & Naify, entre outros. Em 2010, ganhou o Prêmio Rumos, de Crítica Literária, do Itaú Cultural.

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