Azul É a Cor Mais Quente: Corpo, Existência e Identidade Numa Intensa Via-Crúcis [ Ariadne Marinho Machado e Wuldson Marcelo]

Azul É a Cor Mais Quente: Corpo, Existência e Identidade Numa Intensa Via-Crúcis


Clarice Lispector publicou, em 1974, o livro de contos “A Via-Crúcis do Corpo”, que é um dos mais belos títulos da literatura brasileira. Sem abrir um preâmbulo para a análise dos contos de Clarice, ao se deparar com um nome de livro com tamanha beleza, que cria caminhos para especulações e interpretações, vem à mente a ideia de experiência do Ser. Entretanto, de um Ser que se lança a uma jornada de sensações, conflitos, tensões e desbravamento da existência através desse veículo do Ser no mundo que é o corpo (como defende Merleau-Ponty, em “Fenomenologia da Percepção” [1945]). O corpo é uma ferramenta poderosa de conhecimento de um mundo que está aberto as mais variadas e diversificadas possibilidades de se estar nele. Pensar o corpo como “fio condutor” para compreensão de todas as questões humanas, que se somam à pluralidade de perspectivas e concepções de mundo, gera desdobramentos que se articulam como linguagem e silêncio, que emergem dessa experiência corpórea.

Desse modo, a mise-en-scène elaborada por Abdellatif Kechiche para “Azul É a Cor Mais Quente” desenvolve esse apelo às descobertas e construção da subjetividade e de uma identidade sexual, no qual o corpo é o centro desse trajeto ao autoconhecimento. Esta busca de autoconhecimento, com a qual nos deparamos na contemporaneidade, nada mais é que o  recente esforço formulado pelo conhecimento humano para apreender os resquícios de uma “sociedade do espetáculo” ou “era da biopolítica”. O fato é que, nas últimas décadas, vimos nascer uma nova relação subjetiva de indivíduos, corpos, sociedade entre outras. Assim, na figura da jovem Adèle (vivida com uma naturalidade impressionante por Adèle Exarchopoulos, que entregou uma interpretação magistral) assistimos à curiosidade, aos desejos nascentes, ao aprendizado e aos erros de alguém que, pelo apetite de querer saber quem é, escolhe deixar-se capturar pela sua avidez. E Adèle é ávida. Desejosa de seguir seus impulsos, de não negligenciar aquilo que seu corpo a comunica. Potencializa suas vontades com ardência insaciável de conhecer, como uma desbravadora em terras desconhecidas. Miguel de Cervantes designa tal sentimento dessa maneira: “O amor não é senão o desejo (...) por isso, sempre que o desejo de um objeto se acende nos nossos corações, pomo-nos a persegui-lo e a procurá-lo e somos levados a mil desordens”. 

E por ser uma obra do corpo – aliada ao coração – o intimista “Azul É a Cor Mais Quente” privilegia sequências longas, conversas banais, encantamentos incipientes, jantares em família, pequenos e grandes constrangimentos, e a sexualidade à flor da pele, pois que tudo é sensibilidade e emergência. Assim, Kechiche usa a câmera estática para registrar a realidade, uma realidade que contempla cada pormenor da vida, preenchendo-o com um intenso gosto pela vida. E se há uma marca nessa produção francesa é a da construção de vivências, de subjetividades, que ensaiam uma alteridade possível.

Levemente baseado na novela gráfica “Azul É a Cor Mais Quente”, de Julie Maroh, o filme, cujo título original é a “La Vie d'Adèle”, narra o despertar sexual de uma jovem de 15 anos. Kechiche acompanha Adèle com minúcias obsessivas ao longo de quase três horas de metragem. Mas o tempo é fundamental para compor a naturalidade que é a marca do cineasta franco-tunisiano. Da Adèle adolescente para a Adèle adulta, acompanhamos à composição das diferenças sendo desenhadas, superadas (porém presentes como sombras a gerar desconfortos e estranhamento) em nome do amor e reencontradas logo mais à frente, no desgaste da relação. As diferenças sociais e culturais pontuam a narrativa, mas não impedem o florescimento de um sentimento que desde seu início é a melhor tradução do arrebatamento amoroso visto nas telas de cinema. 

Contudo, antes disso, Adèle frequenta a escola, gosta de ler e tem certo interesse por um rapaz. Pressionada pelas amigas, começa a sair com ele e, em seguida, acontece a sua primeira relação sexual. Porém, Adèle está insatisfeita, falta algo. Lembrando da primeira aula de literatura, na qual os alunos leem “A Vida de Marianne”, de Marivaux, uma pergunta provoca a jovem, “Como é que sabemos que algo falta ao nosso coração? ”. E a obra de Marivaux, tema de conversa posterior entre Adèle e seu frustrado amante, serve de “norte” ao filme, ao seu ritmo e duração, pois ela diz que o livro é lento (porém, envolvente) e tem 600 páginas. Então, antes de louvar a HQ de Maroh, Kechiche procura em suas próprias referências literárias e pictóricas (Klimt e Schiele) o approach para apresentar a sua personagem.

Quando Adèle cruza na rua com uma jovem de cabelos azuis a sua vida ganha uma direção e o filme suas principais qualidades. Emma (interpretada pela bela Léa Seydoux) é estudante de Belas Artes e se encanta por Adèle, tanto quanto esta por ela. O que vemos depois são sucessões de olhares, closes-up dos rostos, da epiderme, da respiração (o mestre Ingmar Bergman apontava para a importância do rosto, pois o compreendia como revelador da nossa vida interior, como um espelho que apresenta angústias, desejos e temores), a serviço de uma atração irresistível, de um amor que dá à Adèle aquilo que faltava ao seu coração. No ponto em que ocorre o primeiro encontro, a aproximação, a conversa e, enfim, a relação sexual entre elas (as famosas cenas de sexo de 10 ou 15 minutos das protagonistas – três cenas, que somadas alcançam essa duração. Aliás, belas cenas que são condizentes com o tom da narrativa, pois se se come, conversa-se, caminha-se, também se faz sexo com o mesmo ritmo em que se realiza os outros gestos e funções da vida. E a intensidade das cenas são tão somente manifestações da voracidade de Adèle e, porque não, de sua inexperiência), o preconceito (no dia seguinte após Emma buscar Adèle na escola, a sexualidade dela é discutida de modo agressivo pelas amigas), as já mencionadas diferenças sociais (os jantares em família completam as características que apontam a origem de cada uma.

Na família de Emma, ostras e liberdade sexual. Na de Adèle, macarronada e conservadorismo) e culturais (“A Vida de Marianne” versus a filosofia de Sartre, ou Picasso, pintor popular, versus um debate acadêmico envolvendo as cores e os temas que distinguem Klimt de Schiele) aparecem como demarcações que, mesmo que não impeçam a união afetiva/sexual, apontam que a falta de afinidades pode não estar para além do amor. 

A vida adulta é marcada por transformações, acentuadas pelos cabelos de Emma, que de azuis passam a ser amarelos, evidenciando uma mudança na relação do casal, ou no emprego de Adèle como professora de crianças em idade de alfabetização. Os cabelos mostram que Emma não é mais uma estudante, é alguém que assume a arte como modo de ser e estar no mundo, e Adèle faz exatamente o que ambicionou, mesmo que nela não haja uma firme convicção. É simples, mas, de certo modo, recompensador para ela. Contudo, motivo de estranhamento entre as parceiras. E esse é um ponto precípuo a respeito dos debates sobre os relacionamentos contemporâneos: nós unimos a alguém por quem temos projetos comuns ou apenas o amor basta, independente das expectativas ao que pretendemos construir? Adèle e Emma esbarram também nessa barreira das perspectivas e das aspirações profissionais. O que conduz a solidão e o apego de Adèle a quem lhe dê atenção, já que sua inquietação é exacerbada, próxima a uma imobilidade, que em vez de se tornar letargia a queima intensamente. Daí o rompimento. Enfim, como na tragédia grega apresentada em aula por uma das professoras de Adèle, o desfecho é inevitavelmente doloroso. 

Adèle depois de todas as experimentações que passou, da alteridade e da ressonância amorosa vivida com Emma, mostra-se um sopro de esperança no que concerne a “viver a vida” sem artificialismo e automatismo. Mesmo que sua família viva distante da relação dela com Emma, Adéle investiu e mergulhou com coragem diante do sentimento que nutria pela amante. 

E se é possível falar do corpo é justamente por essa emergência de provar e conhecer os horizontes de uma vida, na qual, como afirma Sartre, “a existência precede a essência”. Um corpo que pode ser também a conciliação dessas duas instâncias filosóficas, pois é na molduragem do desejo provocado pelo toque, nos olhares e sensibilidade da pele que compõem a conquista, que reside essa via-crúcis pelo Ser, pelo indivíduo que se revela. Quando partilham sua corporalidade, Adèle e Emma perpetuam seu ser-estar no mundo. E lembrando de Adélia Prado, “Sem o corpo, a alma (...) não goza”.

Kechiche, Exarchopoulos e Seydoux, apesar de todos os problemas durante as filmagens, realizam uma obra singular, de inúmeras qualidades e sintonizada com a atualidade (exemplos como as leis anti-homossexualidade na Rússia ou a manutenção de uma educação conservadora de “relações binárias” mostram que, apesar da maior abertura para as questões LGBT, ainda há muita resistência no que tange a percepção das relações homoafetivas como manifestação de amor e não deturpação de um suposto padrão heterossexual, que se baseia em preceitos morais de uma sociedade judaico-cristã em dicotomia com a sociedade contemporânea, bem marcada no filme em cenas de demonstração homoafetiva que ocorre no âmbito do privado, em espaço fechado, nunca em público – apenas na manifestação em defesa dos direitos LGBT –, ou especifico – como o bar gay). Mesmo que a produção seja longa, a vida encenada na tela é tão rica, que esse tempo se justifica plenamente.  Além disso, a crueza e a espontaneidade – traços indeléveis da obra – aliadas aos closes e à música diegética, que vai de hits eletrônicos a música étnica, colaboram para dar a “Azul É a Cor Mais Quente” sua delicadeza voraz e seu espírito transgressor.


Ariadne Marinho Machado é mestre em História pela UFMT. Graduada em História (UFMT), aprecia artes plásticas e poesia, em especial, Vincent Van Gogh e Pablo Neruda.  



Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). Autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (Editora Multifoco, 2013).

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