Como (não) arruinar a sua carreira na Amazon [Augusto Assis]



Como (não) arruinar a sua carreira na Amazon 

Artigo publicado no site Cabine Literária

Nós temos ouro nas mãos, mas, como parece ser tradição histórica do brasileiro, nós agimos muito mal quando temos ouro nas mãos. A Amazon se tornou mais um caminho alternativo que pode levar um autor ao sucesso, e muita gente está estragando uma chance de fazer algo revolucionário na história da literatura. Antes de sofrer qualquer acusação: eu não sou contra auto-publicação – tendo eu mesmo participado de uma antologia por essa forma. Porém, não é segredo que esse é o caminho mais difícil, que exige muito mais de empenho do escritor do que simplesmente construir uma história que o agrade. Bem, como assim? Ser auto-publicado não é moleza, como pode parecer pra alguns. Você mesmo vai ficar responsável pelo copydesk, revisão, diagramação, capa, texto de orelha, sinopse etc. Toda a parte editorial da coisa. Segundo ponto, você vai precisar de marketing. Nesse texto, estou falando com você, que quer ser escritor profissional, alcançar milhões de leitores e viver de literatura. Se você escreveu um livro pra dar pros amigos, sobre como você conheceu sua esposa, esqueça o que eu estou dizendo.

O primeiro erro, antes de qualquer coisa, é achar que você é tão exacerbadamente bom que não precisa de nenhuma edição no seu texto. Tudo nele faz sentido. Tudo nele se encaixa, e nada poderia ser mais bem dito, melhor desenvolvido, melhor demonstrado. Todos os escritores de sucesso em que você se inspirou, meu amigo, passaram por um leitor crítico antes que o ajudou a visualizar o que era e o que não era bom para a história. Além de uma boa revisão do português, porque erros em concordância, pontuação etc. s ão vergonhosos em qualquer livro, seja publicado por editora ou independente – embora os autores independentes tenham uma recorrência maior, o que faz valer o comentário.  Ainda falando sobre o que pode prejudicar sua imagem, gostaria de dizer que arrogância é algo fora de cogitação para o autor independente. Quando você estiver com um número enorme de leitores e uma conta bancária gorda o suficiente, aí você pode dar uma de narizinho e ignorar conselhos – ainda que muitas vezes eles sejam bons. Por hora, agradeça que as pessoas estão criticando, ajudando a melhorar (não, não digo pra baixar a cabeça pra quem xinga até sua mãe porque não gostou do texto, mas você entendeu).

O segundo erro – e o mais comum e também o que mais frustra aos escritores – é pensar que seu livro disponível na Amazon é o suficiente para te tornar o mais vendido do Brasil. “Ah, meu livro está na Amazon, então eu não preciso fazer nada, posso trabalhar daqui de casa, se precisar”. Não tenho a menor ideia de onde tiram que a Amazon sempre esteve esperando pelo seu livro, e que os leitores que compram por lá estiveram ansiosos o aguardando e que na semana seguinte você vai ter uma coluna fixa na Veja. É bem verdade que, estando numa editora, comercial ou tradicional, ou então publicando de forma independente na Amazon ou no Clube de Autores, é preciso se divulgar. Será parte de sua rotina contatar blogueiros, participar de eventos, fazer sorteios, promoções, bate-papos, noites de lançamento e tudo que qualquer outro autor precisa fazer. Estar publicando por uma ferramenta online não coloca nenhum profissional na posição de Deus, que pode fazer o que quiser quando bem entender. Você não escreveu o livro para os seus leitores? Cuide deles, saiba quem são, mantenha-os conectados a você.

É mais do que hora de profissionalizar a coisa. Autores independentes podem sim chegar muito longe, mas é preciso esforço. Não estou falando dos autores em geral, mas muitos – muitos mesmo – estão tratando a Amazon como um blog. “Ah, escrevi um texto, ficou até que legal, vou tentar vender lá”. Vender um trabalho é coisa séria. Alguém que pagou pra ler algo que você escreveu vai querer algo de qualidade, e se não obtiver é a sua imagem que fica prejudicada. São muitas as reclamações de divulgações excessivas em redes sociais, de textos que não estavam prontos para publicação (cheios de ‘KKK’ ou ‘vrummmm’ para representar o arranque do carro). Autores que estão colocando a cara tapa precisam ter respeito consigo mesmo e com a sua criação. Se tudo continuar do mesmo jeito, o apreço pelo novo autor da Amazon vai ser equivalente ao apreço que alguns autores que publicaram por editoras comerciais: quase nulo. Virem o jogo. Trabalhem em boas obras. Vocês têm ouro nas mãos: façam uma coroa, não grilhões dourados.

Augusto Assis - Redator
Fã de literatura policial, Augusto trabalha em seu primeiro romance do gênero. Participou de duas antologias e escreve dicas para escritores, além de curiosidades e artigos. 

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