“QUE VERGONHA DO COMPADRE!" [Jean Marcel]

“QUE VERGONHA DO COMPADRE!"


Faltando poucos dias para a Copa do Mundo, nós, brasileiros, nos sentimos envergonhados com o que se tem dito no noticiário internacional a respeito das nossas estradas esburacadas, aeroportos superlotados, falta de segurança, telefonia saturada, internet lenta, hospitais insalubres e tudo o mais que contrasta com os impostos recordes que pagamos...

Isso me lembra a piada do sujeito que, desconfiando da traição da esposa, se esconde no armário para flagrá-la com o amante. Acontece que para sua surpresa, quem entra no quarto é o seu compadre e melhor amigo. A cada peça de roupa que ela tira, revelando seu corpo caído e judiado, o marido se encolhe um pouco mais dentro do armário. Peito murcho, nádegas flácidas, pernas cheias de varizes... Um horror! Constrangido, o marido traído geme baixinho para não ser ouvido: “ai que vergonha do compadre!”

Pois bem, entregamos a “chave do Brasil” para o compadre fazer a festa. Gastamos dinheiro que nos falta para hospitais e escolas construindo elefantes brancos para seus jogos... Criamos uma legislação temporária específica, com penas mais severas, para crimes que já existiam, mas que porventura possam afetar o seu negócio... Permitimos as bebidas nos estádios, no período da Copa, para agradar seus anunciantes... Concordamos que registrasse como suas, mais de 200 expressões genéricas (futebol, Brasil 2014, etc.) que só poderão ser utilizadas por eles durante esse período... “Natal”, por exemplo, é uma das expressões proibidas, pois pode ser confundida com uma das cidades sede... Proibimos que ocorra qualquer outra festa, sem a sua permissão. As tradicionais festas juninas, promovidas pelas prefeituras do nordeste, por exemplo, dependem da sua autorização expressa para acontecerem... E agora, ao ouvirmos gritar, indignado, suas queixas a respeito da nossas mazelas, problemas com os quais sempre convivemos, gememos baixinho: “- AI QUE VERGONHA DO COMPADRE!”


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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