Amigas de Colégio [Wuldson Marcelo]

Amigas de Colégio 

(Este texto contém spoilers)

“Fucking Amil” é uma produção sueca de 1998, que marcou a estreia de Lukas Moodysson (um dos mais populares cineastas do país de Ingmar Bergman. Em 2002 Moodysson dirigiu o excelente “Para Sempre Lyla”), cujo título nacional “Amigas de Colégio” esvazia o que há em torno do nome original do filme. Amil é uma pacata cidade da Suécia, onde não há nada para se fazer, a não ser se divertir da forma que for possível e ver a vida passar, como se a lógica local (e de muitas outras terras mundo a fora) dispensasse o incomum e as ambições que estão além do “provincianismo”. Nesse cenário, estão as adolescentes Elin (Rebecca Liljeberg) e Agnes (Alexandra Dahlstrom). A primeira, popular, meio fútil (já que tem dimensão das limitações impostas por um meio social que procura a reprodução e não a transformação) e descolada – linda e com fama de namoradeira –, a segunda, tímida, intelectualizada e pária social – que convive com boatos a respeito de sua sexualidade. Desde o início do filme, sabemos que Agnes é apaixonada por Elin, e que, apesar de estudarem na mesma escola, elas não têm uma relação que poderia ser chamada de amizade.

Porém, um dia, entre o tédio completo e o desespero por se sentir viva, Elin vai com a irmã à festa de aniversário frustrada de Agnes. A partir de um desafio proposto por Jessica, irmã de Elin, a jovem beija Agnes e, em seguida, parte em busca de novas distrações. Porém, algo muda. Elin não se sente bem com o que fez. Na festa ao qual se dirige, após a brincadeira com Agnes, rejeita Johan, um garoto que se diz apaixonado por ela. Nesse tempo, Agnes tenta se matar cortando os pulsos, porém Elin interrompe o procedimento. A jovem convence Agnes a sair com ela. Nessa fuga, temos a atração e certa identificação. E depois o beijo consentido, que revoluciona sentimentos e gera dúvidas.

É neste ponto que os clichês que permeiam o filme, fazem-no distinto de produções adolescentes estadunidenses ou produções made in Brasil, no estilo “Malhação”. Elin, com sua futilidade, vive entre o desejo de popularidade e o inconformismo, e Agnes, com sua inadequação, não busca se enturmar em nome de possíveis mudanças em seu jeito de ser. Rejeitada, ela não tenta agradar. A partir disso, “Amigas de Colégio” trata da questão da identidade sexual e dos caminhos do coração.

Quando ocorre o beijo, após conseguirem a carona desejada para uma cidade com vida noturna mais agitada, elas são flagradas pelo motorista que atendeu à solicitação. São expulsas, repudiadas pelo sujeito. Agnes, apesar do susto, sente-se bem. Elin começará a lidar com um sentimento novo. Como a adolescente descobre algo até então inusitado, evita lidar com a confusão que sente investindo em um relacionamento com o Johan, o rapaz que não lhe despertara interesse romântico algum. E, no ínterim entre o beijo e a efetivação do amor, as imagens construídas apresentam as dessemelhanças entre as garotas e o conservadorismo gritante da cidade, que serve como pano de fundo para apresentar um aspecto significativo da vida dos jovens: quando as opções estão em aspirar ao distante (o modo de vida dos grandes centros, com suas marcas que divulgam o capitalismo e possibilidades de diversão noturna) e reproduzir a vida local (trabalho, casamento, invariabilidade e interdições) a compreensão da diferença fica prejudicada. O contraste entre os familiares das protagonistas indica como cada uma desenvolve sua personalidade. Os pais de Agnes são o que poderíamos entender como conservadores, porém distintos em sua relação com a filha. A mãe é exigente e quer que a menina se enturme. O pai é mais compreensivo, por isso mais próximo dela. Elin é filha de mãe solteira. A menina tem mais liberdade, mas conta com a rigidez de sua genitora, que tenta controlar seus ímpetos juvenis. Só que o foco da produção sueca são os adolescentes, por isso o envolvimento entre as jovens causa frisson e medo, mas o que os adultos querem e pensam para elas, não serão considerados quando as garotas decidirem viver esse amor.

Ao lembrar de Roland Barthes, em seu “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, podemos refletir o quanto o desejo – e a incompreensão que carrega a negação do mesmo e também o desespero em efetivá-lo – pulsa como um meio de criar uma liberdade que comporte esse desejo. Podemos contestar o que leva Elin, a bela jovem cobiçada pelos meninos, a se apaixonar por Agnes, a menina reclusa e deboche dos populares. Mas, enfim, o que explica a comunicação dos corpos e o surgimento do interesse amoroso? “Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente?” (Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1989). 

E é justamente essa busca por dar vazão aos sentimentos e escolhas de suas jovens protagonistas, que faz de “Amigas de Colégio” um filme atual. Não se procura uma vida intermediada por parâmetros sociais absolutos e indissolúveis. O que vale dizer, imposições parentais, dogmas sociais e proibições morais. As jovens alimentam suas dúvidas (Elin sobre assumir o que sente e Agnes sobre poder concretizar o amor com o qual sempre sonhara) até a resolução inventiva encontrada por Moodysson. E a cena coloca a curiosidade coletiva, as interdições sociais e todo o estranhamento ao diferente no corredor da escola e em um banheiro, duas garotas que desejam simplesmente se amar. O banheiro, alusão ao armário no qual se acostumou-se a colocar os homossexuais que não assumiram sua orientação sexual, contém um mundo de inibições e expectativas. E essa simplicidade confere a “Amigas de Colégio” sua beleza. Moodysson faz de sua produção um campo de experimentações, que tateia a naturalidade, equilibrando a monotonia e a vivacidade, com o recurso da câmera na mão, o que favorece a entrega das protagonistas. Procura por meio de suas imagens granuladas mostrar as dúvidas de um amor nascente, investindo no humor e no comum, quase banal – como se extraísse conversas demasiadamente verossímeis presentes em qualquer cotidiano. Opções bem-vindas, que fazem de “Fucking Amil” uma sensível produção a respeito da descoberta do amor. 


Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). Autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (Editora Multifoco, 2013).

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