Dos cadernos policiais para os muros da cidade: o homem que transforma crimes em arte [Karina Menezes]

Dos cadernos policiais para os muros da cidade: o homem que transforma crimes em arte 

por Karina Menezes
Artigo publicado no site  PapodeHomem 

Há pouco tempo, descobri o que o Éder Oliveira fazia. Quer dizer, além de ser o técnico de teatro do lugar onde estagio e quem me apelidou (nem tão) carinhosamente de “cara de peixe”.

Vai ver eu nunca desconfiei que podia haver algo além disso porque ele nunca transbordou essa superioridade que muitos artistas por aí têm. Ou acham que têm.

O que eu via no Éder era mais um jeitão meio tímido, com um olhar que sorria mais que a boca, cara de poucas palavras. Essa ideia talvez fosse reforçada pelo fato de trabalharmos em salas diferentes e pouco cruzarmos o caminho um do outro durante o expediente.



Há alguns dias, no entanto, o Éder falou que Oliver Basciano, jornalista da publicação britânica Art Review, entrevistaria artistas que vão ter obras expostas na Bienal de São Paulo. Pela primeira vez, a Bienal tem curadores que são todos de fora da América Latina e que nunca tiveram contato com o Brasil.

Os curadores montaram uma equipe e saíram viajando nosso país, realizando encontros abertos com artistas de diversas localidades. Conversaram com o Éder, mas ele nunca esperou ser convidado para a Bienal. Coisa de quem já está habituado a viver em um lugar cujas manifestações costumam ficar de escanteio, quando brigam por espaço com as outras metrópoles mais ao centro do país. Mas o convite veio.

Éder espalha seu trabalho pelos muros de Belém (PA). A inspiração vem das folhas dos cadernos de polícia dos jornais paraenses, das fotos de jovens que são, majoritariamente, negros e pobres. O artista paraense quer não só devolver o pouco de dignidade que lhes é tirada, como mostrar que os “criminosos” também são vítimas.

Adotando técnicas de pintura que eram utilizadas para retratar pessoas de classes mais nobres, ele edita as fotos para transformá-las em murais. Corta as algemas que aprisionam os jovens da periferia, coloca esperança de volta nos olhos deles – quem sabe não sonhem também com um futuro melhor?

Com amigos que tomaram rumos diferentes dos dele e foram parar na criminalidade, Éder se questiona (e quer que nos questionemos também):

Por que as pessoas que estão nos cadernos policiais têm sempre o mesmo perfil?

Por que ele e não eu? E não vocês?

PS.: O Éder é daltônico. Essa informação ficou aqui embaixo, quase esquecida porque não é tão relevante. Como vocês podem ver (e me perdoem por esse clichê, por favor), ele pegou essa pedra e transformou em uma escada pra pintar muros tão grandes quanto o trabalho foda dele.










KARINA MENEZES
Paraense, quase-jornalista e fotógrafa. Mora sozinha, meio workaholic, trampa com produção cultural por amor e pra tentar pagar as contas. Pode ser encontrada no Facebook.

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