AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (17) [Rubens Jardim]

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (17)
 
ELIZABETH HAZIN (1951) poeta pernambucana, doutora em teoria literária pela USP já ensinou nas universidades federais de Pernambuco e Bahia e atualmente dá aulas na universidade de Brasília.Participou do Festival Internacional de Poesia, em Copenhagen. Estreou em 1974, com o livro Poesias. Outros títulos: Verso e Reverso(1980), Casa de Vidro(1982) Arco-Íris(1983), Espelho Meu(1985), Martu(1987 premio Rio de Literatura) e o Arqueiro da Lua(1994).





O melhor está sendo feito?

Não.

Perdido nas esquinas

sugerido nos desejos

o melhor não tem mais jeito.


É o pão que não comemos

mas amassamos

esse vinho derramado

que não bebemos

todo amor que não amamos

 — imaginado —

é sempre o que não fazemos.

o melhor nasce desfeito

ou nos desfaz em mil momentos? 


Não Escute 

Não escute meu choro

quieto:

eu sou um deserto

e preciso chorar


Não escute meu amor

fugidio:

eu sou um rio

e preciso passar


Não escute meu sorriso

constante:

eu sou um instante

e preciso durar 


No espelho I 

Sombra fugaz num túnel sem fim

o tempo passa despercebido

passa de mim a outro espelho

eu defronte de outro (eu mesmo?)

um espelho no espelho no espelho

somos nada ao infinito das vezes.

Descubro um Narciso de repente

em mim. Debruçado sobre mim

me vejo mil vezes repetido:

o mundo é só um túnel de vidro.

Mas que imagem vale esse vazio

sem rosto quebrando a solidão

que corta meu corpo como um rio

sem nunca alcançar meu coração?




DAGMAR BRAGA (1952) poeta mineira, professora, formou-se em letras pela PUC, especializando-se em literatura brasileira. Depois fez pós-graduação em jornalismo. Atualmente trabalha como revisora de textos e é responsável pelo espaço cultural Letras e Ponto, onde também ministra oficinas de literatura.Estreou em livro recentemente, 2008, com Geometria da Paixão, finalista no prêmio Jabuti de 2009. 

CONSTRUÇÃO 

Lanhada a pedra,
faço-me fio,
partilho, rasgo
entranha e estranho.

Quebrado o leme,
desoriento,
acolho vento,
maré e abismo.

Cavado o poço,
torno-me água,
mão retorcida,
lisura e barro.

Feito o silêncio,
lasso a palavra -
gume sequioso
de outra navalha. 


Arqueologia 

removo o pó dos sonhos

convoco oráculos

deuses

pitonisas

remonto a um passado

indecifrado

labiríntico

descerro véus

– é tua esta sentença?


como dói escavar este argumento

o nó                 o laço              o texto

quando somos nós mesmos

subterrados 


MADRUGADA 

quando em silêncio arde o desespero
teu rosto assoma


tua mão acolhe o fogo e me desata
o descompasso

o dia serpenteia na garganta
um poema grita
germinando luz



DENISE EMMER (1956) poeta carioca, ficcionista,compositora, cantora e instrumentista. É formada em física, violoncelo e fez pós-graduação em filosofia. Já publicou 13 livros, dez de poesia e três romances. Estreou muito jovem, com Geração de Estrela (1975) e a sua obra mais recente, Lampadário(2008) conquistou o prêmio ABL de poesia.Compôs para trilhas sonoras de novelas e já ganhou até disco de ouro. Outros títulos: O Inventor de Enigmas(1989), Cantares de Amor e Abismo(1995) e Poesia Reunida(2002).

Das rochas escuto rimas
Deixo que passem pássaros
As palavras as vertigens
Não me aproprio ainda
Do seu imprevisto canto
Escalo a página em branco. 


PROSA CANORA 

Meus pensamentos nem sei
Vieram de estrelas tristes
Invento o que não existe
Para enganar minha alma

Invento a morte sem ossos
Escrevo auroras em lápides
Pastoro as águas da tarde
Para tecer mais um dia

Em minha roca sombria
Costuro uma blusa eterna
Colchas claras de lanterna
Para tecer mais um dia

Vou além da alta noite
Além das cruzes em quadras
Ausências extraviadas
Meu verso em ti amanhece. 

AS GALÁXIAS 

As galáxias

se expandem

e nem ouvimos

seus gritos

os labirintos

se aprofundam

sem que saibamos

seus números

esperamos

que um cão azul

decifre

o infinito


e que nos esclareça

a álgebra

do abismo


a lógica

do insondável


a física

do ilimitado.


Por que é tão dramática

a visão de um céu estrelado? 


DA MORTE 

Os mortos não sobem aos céus

nem elevam-se abstratos

tornam-se apenas retratos

lado a lado nas paredes.


Retrato do avô imóvel

austero e silencioso

do tio tuberculoso

que esquivo me espia.


A avó já está fria

mas me olha com ternura

tece uma colcha escura

para as bodas da família,


Mortos não sobem trilhas

de inconsistentes arranjos

não viram anjos nem brisas

nem cristos nem assombrados.


Sequer passam dos telhados

sequer vão a outros mundos

quando morrem se enraízam

e se alastram é pelos fundos.


Não lhes peço algum milagre

também não lhes rogo bênçãos

de dentro de seus quadrados

não podem mover o Tempo.


Quadros em salas quietas

emoldurados cinzentos

memória em fragmentos

— as vezes nem lhes percebo.


ELISA LUCINDA (1957) poeta capixaba, jornalista e atriz, é uma das primeiras vozes poéticas do Espírito Santo a cantar a negritude .Já fez incontáveis recitais divulgando seus poemas.Montou uma peça com seus poemas e ficou 6 anos em cartaz. Criou a Casa do Poema, no Rio , a TV Escola Lucinda de Poesia Viva e mantém um site na internet com parte expressiva de sua obra. Estreou em livro com Aviso da Lua que Menstrua (1990). Seguiram-se Sócia dos Sonhos(1994) O Semelhante(1994) e A Fúria da Beleza(2006). 

Aviso da Lua que Menstrua 

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.

Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia

Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...

Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.

Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.

Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.

Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.

Ela é uma cobra de avental.

Não despreze a meditação doméstica.

É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...

Você que não sabe onde está sua cueca?

Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.

E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.

São duas dignas vizinhas do mundo daqui!

O que você tem pra falar de vaca?

O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.

Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.

Tá, não, homem.

Tá citando o princípio do mundo! 

Zumbi Saldo 

Zumbi, meu Zumbi.
Hoje meu coração eu arranco
Zumbi hoje eu fui ao banco
E ainda estou presa
Escuto os seus sinos
e ainda estou presa na senzala Bamerindus
Presa definitivamente
Presa absolutamente
à minha conta
corrente. 

Au Gratin 

Fumo um cigarro fino
Como um palito
O calor do Rio é ridículo
Calor de chuva enrustida
Calor do céu oprimido
De inferno mar resolvido
Que não sabe se queima esse cara
Ou o assa ao ponto
Um calor filho da puta
Um calor de estufa
E eu sem nem ser judia
Sofro aos pouquinhos
Sofro esse zé pagodinho
Ardo nesse pecado que não cometi
Nesse forno onde me meti
Por uma apimentada dica
De um nordestino
Que me mostrou uma placa citada, tinhosa:

"CIDADE MARAVILHOSA"

Eu vim.

Rubens Jardim, 67 anos, jornalista e poeta. Foi redator chefe Gazeta da Lapa e trabalhou no Diário Popular, Editora Abril e Gazeta Mercantil. Participou de várias antologias e é autor de três livros de poemas: ULTIMATUM (1966), ESPELHO RISCADO (1978)e CANTARES DA PAIXÃO (2008). Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou JORGE, 8O ANOS - uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares... Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional. Fez também leituras no café Balaio, Rayuela Bistrô e Barca Brasília. E participou da Mini Feira do Livro, com o lançamento de Carta ao Homem do Sertão, livro-homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. Teve poemas publicados na plaquete Fora da Estante, (2012), coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo. Páginas na Internet: Site: Rubens Jardim e Facebook: Rubens Jardim

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