“Uma boa curta é como um bom poema” [Jorge Mourinha]

“Uma boa curta é como um bom poema”


Em Vila do Conde, programadores de três festivais de primeira categoria defendem a curta-metragem como um formato nobre e os seus autores como cineastas de corpo inteiro.


Anna Henckel-Donnersmarck é peremptória. “Diz-se muitas vezes que uma longa-metragem é um romance, mas isso não faz da curta-metragem um conto. Uma boa curta é antes como um bom poema; tem uma voz muito própria, sincera, corajosa, terna, ousada.” As declarações de uma das programadoras da competição de curtas do Festival de Berlim durante o Curtas Vila do Conde 2014 definem por que é que a curta-metragem é um formato tão digno, tão nobre como o filme de fundo.

É uma discussão subjacente à própria existência do Curtas ao longo dos últimos 22 anos, mas ganha uma nova dimensão no actual contexto da produção portuguesa. O formato curto ganhou entre nós assinalável importância como “porta de acesso” para novas gerações de cineastas – a “geração Curtas” de que Augusto M. Seabra falava –, mas continua a ser percepcionado como “menor” ou como “cartão-de-visita”. É possível ultrapassar essa “menorização” da curta?

Foi esta a questão discutida num encontro promovido na passada quarta-feira pelo Curtas no âmbito do seu programa de formação Campus, com a presença de três programadores de festivais internacionais. A Anna Henckel-Donnersmarck juntaram-se Fabien Gaffez, responsável pela secção de curtas da Semana da Crítica de Cannes (e este ano membro do júri de Vila do Conde), e Peter van Hoof, director da secção de curtas no festival de Roterdão.

Para todos eles, fazer existir a curta-metragem pelo meio da barragem mediática de um festival de primeira linha onde os holofotes estão sistematicamente assestados noutras direcções é a batalha a travar. Sobretudo quando muitos têm tendência para considerar a curta como um filme de “segunda classe” e se torna quase impossível viver só de fazer curtas, como apontou Peter von Hoof. “Alguns conseguem vender os seus filmes às televisões, ou ter alguma exposição em sala. Mas as curtas não têm a possibilidade de uma exposição 'tradicional'.”

Precisamente por isso, a visibilidade é o desafio principal, porque, como defendeu Fabien Gaffez, a curta não é um formato menor, quem o faz não é um realizador de segunda classe. “Os realizadores das curtas não são os realizadores de amanhã”, disse. “Já são os realizadores do presente, já são cineastas.” Anna Henckel-Donnersmarck explicou que a necessidade de fazer existir a curta-metragem como um formato autónomo levou a uma redefinição da secção de curtas de Berlim a partir de 2006: em vez de serem mostradas em primeira parte de longas, os filmes seleccionados passaram a ter sessões individuais abertas ao público (com grande afluência) e a atribuição dos prémios foi incorporada na cerimónia nobre de encerramento. (O que permitiu, por exemplo, a João Salaviza subir a palco em 2012 para receber o Urso de Ouro das curtas por Rafa, quando anos antes se teria ficado por uma cerimónia discreta e pouco frequentada num anónimo salão de hotel.)

Peter van Hoof não hesitou igualmente em insistir na necessidade do grande ecrã, da projecção em sala, como factor central dessa dignificação. Mesmo que Roterdão esteja particularmente interessado em obras que existam no cruzamento intertextual com artes plásticas ou performativas – evocando as exposições temáticas que o Curtas mostra em simultâneo na galeria Solar – é na sala que o filme verdadeiramente ganha existência. Para o holandês, a questão de a curta ser muitas vezes entendida como mero “complemento” numa sessão de uma longa também não resulta. “Não podemos pedir às pessoas que tentem digerir uma curta com mais de dez minutos apresentada antes de uma longa-metragem, por exemplo.” (À atenção dos distribuidores portugueses...)

A ideia, partilhada por muitos espectadores e observadores portugueses, do Curtas como “lança em África” ou “Dom Quixote lutando contra os moinhos” não é, como se vê, um exclusivo nacional; antes pelo contrário, é comum aos festivais de “primeira categoria” presentes neste encontro. Anna Henckel-Donnersmarck evocou a insistência de Berlim em mostrar os seus filmes em sessões abertas ao público não especialista numa das salas populares da cidade, o Colosseum, mas também a parceria realizada com a edição online do jornal Die Zeit, que disponibiliza ao longo de todo o ano as curtas seleccionadas para o concurso, com uma adesão surpreendentemente elevada dos leitores.

Mas, em resposta a uma pergunta da plateia, regressa a unanimidade: por estarem a trabalhar dentro de festivais que já têm estruturas montadas e marcas reconhecidas mundialmente, existe uma liberdade de programação e de sobrevivência difícil de encontrar em certames mais pequenos. Mesmo que há poucos anos tanto Berlim como Roterdão passassem a exigir o pagamento de uma “taxa de inscrição” que ajude a cobrir os custos envolvidos, a sobrevivência das secções não está nunca posta em causa.

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