COLOCANDO OS PINGOS NOS IS (A INICIAÇÃO) [Jean Marcel]

COLOCANDO OS PINGOS NOS IS (A INICIAÇÃO)


A conversa era de pai pra filho. Pelo menos deveria ser, mas participavam além do Afonso e do Júnior, seu primogênito, quase toda a turma do boteco. “Papo de homem”, diria depois o garçom, como discreto observador que colhia a cada nova cerveja entregue, pequenos fragmentos do que era dito. Na verdade aquela rodinha era quase como um ritual de passagem a que submetiam o Afonso Júnior, que mal saíra da puberdade. Se a nova geração tem calos nas orelhas de tanto rolarem nos tatames, lutando jiu-jítsu ou coisa que o valha, eles, por sua vez, ostentavam vistosos calos nos cotovelos, adquiridos ao roçá-los por anos a fio nos balcões de mármore da boemia. Somados, ali havia certamente bem mais que um século de experiência com o sexo oposto, o que, por si só, credenciava-os, com toda a segurança que as oito rodadas de cerveja permitiam, a emitir conselhos profundos sobre a alma feminina.

– Olha só, moleque – o moleque era em sentido carinhoso – você não pode acreditar em tudo o que elas dizem. De jeito nenhum! 

– Como assim, tio? – O tio era o Nonô, que odiava ser chamado dessa forma. Mas não se intimidou.

– Dinheiro, por exemplo. Trate de ganhar muito dinheiro. Eu sei, elas dirão que não ligam pra grana, mas você acredita? 

– Ah, depende da garota...

– Não depende! Veja só: experimente dar um colar de pérolas ou um anel de brilhantes a uma garota para ver o tamanho da felicidade... Fala a verdade, qual mulher não adora frequentar lugares badalados e interessantes sem se preocupar com a conta? Conhece alguma? Hein? Cartão de crédito com limite bem gordo, então... 

– É mesmo – acrescenta o Jonja – Vivem dizendo que gostam de dividir a conta, mas vão espalhar com o maior orgulho que você é “das antigas”, caso não admita que elas abram a carteira na sua frente.

– O garoto prestava atenção registrando mentalmente tudo que era dito. 

– Dizem que odeiam homem brigão – era a vez do Greg – É ou não é?

– desafiou – Não dizem isso? Que odeiam homem brigão...?! 

– O garoto concordou com a cabeça. Era o que esperavam que fizesse.

– Pois é, odeiam em termos... Se você bater em três vagabundos, defendendo a honra da amada com golpes malabarísticos de kung fu, ouvirá dela o mais delicioso gemido de admiração. E tem mais: se você fizer isso sem desalinhar o penteado, então... Meu amigo..., você pode pedir a ela o que quiser!

A sobrancelha levemente arqueada significava que o Júnior estava tabulando as informações. 

– Elas garantem que admiram homens sensíveis, delicados... – agora era o Tigrão que falava – Dizem que o homem moderno tem que ser meigo! É ou não é? – não esperou a resposta – Mas soltam um suspiro do fundo da alma se na hora agá você dá aquela pegada mais forte, segurando-a pelo cabelo e gritando... Vem, cachorra!

Os olhos observadores do Júnior eram a medida da atenção que depositava nos conselhos dados. Naquele momento, encontravam-se arregalados! 

– E tem mais... Juram que homem inteligente é que é excitante! Culto, articulado, bom vocabulário... Mas não perdem por nada a novela em que os atores ficam o tempo todo sem camisa. Pode reparar...

Todos concordaram, contrariados, balançando a cabeça. 

E o tamanho do... Uhrnn – tossiu no final da frase para não precisar ser muito grosseiro – Declaram que não faz diferença o tamanho do... você sabe o quê! “O importante é o prazer que proporciona”, falam, bem cínicas! Mas... – Não teve chance de complementar o raciocínio, pois foi interrompido pelo Afonso, achando que para uma primeira conversa já tinham dito o suficiente. De fato, o
Afonso tinha razão: com cara de assombro, o Júnior estava ruminando o que ouvira. Mais que depressa, trataram de pedir mais uma rodada.

– Tonho, traz a mais gelada para o meu filho – exigiu, pondo-se de pé como um pai orgulhoso que constatava que seu rebento já estava se tornando um homem! 

– Poxa, pai – saindo do estado contemplativo – só tem uma coisa que eu não entendo! – coçando o queixo, igualzinho o Afonso fazia quando estava intrigado.

– Diga, Júnior... 

– Pô, pai, na real – colocou a mão no ombro do “velho” como a sinalizar que a pergunta não era por mal – Você não é rico... Aliás, longe disso! “Sarado” também não é... Lutar então... Ts, ts... Na única vez que vi você brigar, lembra? Voltou para casa de olho roxo... E o outro cara nem era tão grande assim! Isso pra não tocar naquele outro assunto, do tamanho do... – corando o Afonso de vergonha com a revelação – Por que então a mãe tá casada contigo?

Silêncio. Constrangimento. Meditação... O Afonso chegou até a sentar novamente, mas somente para recobrar o equilíbrio momentaneamente perdido. 

...

– Fala para ele, Afonso! – diz o Tigrão, encorajando o amigo. 

– É? Será?

– Fala... 

– Unrmmm – pigarreou o Afonso, limpando a garganta – Elas mentem!

– Elas? 

– Sim, elas... As mulheres. Era isso que estávamos tentando lhe dizer... Mentem primeiro para si próprias, depois mentem para seus homens.

– Mas pai... Por quê? 

– Por que nos amam. – Intervém o Jonja. – Nos amam mesmo que nós estejamos a milhas de distância dos estereótipos que tanto as seduzem.

– Uma coisa não anula a outra – confirma o Afonso balançando a cabeça, numa lógica difícil de alcançar. Nos amam embora sejamos diferentes de tudo que ambicionam. 

– E aí está o paradoxo! – confirma o Jonja, tomando mais um gole de cerveja.

– Parad... 

– Paradoxo – diz o pai. – Elas mentem para nós, seus homens, fingindo não ligarem para nada disso. Mas é porque, no fundo, sabem que certamente não conseguiríamos conviver com a sombra de tamanha concorrência.

– Afinal – emenda o Greg – sempre haverá alguém mais rico, mais forte, mais sarado, enfim, mais “alguma coisa” do que nós. 

– Então... – conclui o Júnior – elas fingem que não ligam pra tudo isso, e nós, pobres de nós, fingimos que acreditamos?

– Anrã, isso mesmo! 

– Então, como nos amam? Eu não entendo...

– Nem nós, meu filho... nem nós! 

– Bem-vindo ao time! – saudaram-no.

– Tonho, mais uma rodada! – pediu o Júnior, incorporando-se definitivamente à turma. 


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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