O quereres [Marcelo Vitorino]

O quereres 

por Marcelo Vitorino
Expectativas demais podem ser um problema para qualquer relacionamento, a crônica "O quereres" é inspirada na música homônima de Caetano Veloso, na voz de Maria Gadú.

As coisas não estavam bem entre Alex e Érica há algum tempo. Com pouco mais de um ano de namoro, o casal vinha se desentendendo semana após semana, até que, após um banho bem quente e demorado, Alex sentou na cama onde a namorada o aguardava e permaneceu por alguns instantes sem dizer uma palavra, inerte, como que estivesse tomando coragem. Até que não aguentou mais.

— Érica, não estou confortável com essa situação.

— Do que você está falando, amor?

— Acho que é um pouco óbvio que não estamos indo muito bem. Já são algumas semanas de desentendimentos constantes. Acho que o melhor que fazemos é cada um tomar o seu caminho.

— Eu não acredito que estou ouvindo isso. — disse Érica com a expressão de quem não esperava por aquela revelação.

— Pois acredite! É melhor nos separarmos enquanto não temos nada ainda mais sério.

— Você arrumou outra? É isso? Pode falar, eu aguento!

— Pare de bobagem, Érica! Nem parece que você esteve presente nesses desentendimentos que passamos.

— Mas aquilo foi bobagem, Alex… A gente se ama! Não é por causa de um ou outro desentendimento que devemos nos separar.

— Não, Érica. Você está errada. Eu te amo e você se ama, resumindo: nós te amamos! Eu e você!

— Que mentira! Você vai dizer que não considera tudo o que eu fiz por nós?

— Olha, vamos encurtar a conversa. Quanto mais alongar será pior. O problema é que você espera muito de mim. Eu não consigo atender suas expectativas. É isso! Eu não sirvo para você!

— Como assim?

— Vou te dar alguns exemplos para ver se você entende. Pode ser?

— Tá bom!

— Lembra quando eu te disse que tinha rinite alérgica? — diante do aceno positivo que Érica, continuou — Érica, preste atenção, te falo que tenho rinite alérgica e o que você faz? Compra um gato! Um gato!

— Mas é que achei que não teria problema, amor. E estávamos meio brigados…

— Claro! Então pode! Como não vi isso? Estávamos meio brigados e isso faz com que você traga um animal que me fará tomar antialérgicos para poder dormir na sua casa. Normal.

Érica tentou argumentar em defesa do bichano, mas Alex continuou a falar:

— Tem mais. Lembra quando você me fez comprar ingressos para um musical? Você sabe que detesto musical. Mesmo assim, comprei. E o que é que você fez?

— Amor, para com isso, vai ficar relembrando tudo? Jogando na minha cara?

— O que é que você fez, Érica?

— Eu…

— Você não foi! E sabe por quê? Porque sua amiga ficou gripada. Só por isso.

— Mas você não entende, sou muito ligada aos amigos! Isso é problema?

— De jeito nenhum, mas você nem sequer me perguntou. Tomou a decisão de dar o bolo e foi embora assim que ela te ligou. Nem desculpa pediu. E o compromisso comigo, aonde é que fica?

— Mas…

Mais uma vez, Alex interrompeu Érica e continuou a puxar o extrato:

— Calma! Nem precisa se justificar. Não vou lembrar todas as vezes que você me deixou na mão ou não teve consideração por mim. Vou apenas colocar a cereja no bolo.

— Tem mais?

— Lógico que tem! Semana passada estávamos falando em casamento. Sobre como faríamos para resolver tudo. Eis que a senhorita teve uma ideia brilhante: devíamos comprar um apartamento.

— E o que tem isso? Todo mundo compra!

— Vou mostrar com laranjas para ver se você entende, fique tranquila, farei com bastante calma. Veja bem, o uso que você fez do verbo “dever”, em seu futuro do pretérito no plural, “deveríamos”, dispensa o uso do pronome “nós”, contudo, ele está lá. “Deveríamos” significa “nós deveríamos”. Entende?

— Ai, lá vem você com essas regras de português! Mas, tudo bem, você está certo, nós deveríamos. Satisfeito?

— Que bom que você entendeu! Agora que sei que o problema não foi gramatical, vamos ao conteúdo. Quando sugeriu a compra do apartamento eu propus que você desse o seu de entrada e eu pagasse as prestações de um bem maior e melhor localizado. E o que aconteceu? Você respondeu que não poderia contribuir.

— Claro, levei anos para comprar meu apartamento sozinha! Não vou vender jamais!

— Eu entendo perfeitamente, Érica. Agora pense por outro ângulo: nós deveríamos comprar um apartamento e, segundo você, o seu atual não seria dado de entrada e você não pagaria as prestações, ficando todo o pagamento dele sob minha responsabilidade. Correto?

— Sim, correto, mas você ganha mais do que eu!

— Claro, claro… E talvez, minha remuneração seja um reflexo de minha competência, sem o uso de sorte ou qualquer outro talento. Essa competência também me permite fazer analogias e raciocínios simples como o que fiz para formar uma opinião a respeito. No seu modelo de casamento, deveríamos comprar um apartamento para ser nosso. Contudo, somente eu deveria pagar por ele e o seu atual continuaria sendo exclusivamente seu. Resumindo: o seu é seu, o meu é nosso! Diante dos fatos, propus um casamento com separação total de bens e você se sentiu ofendida!

— Do jeito que você fala, até parece que eu sou interesseira, Alex!

— Não, Érica. Esse é o ponto do início dessa conversa. Você não é interesseira, você só tem expectativas demais. Nestes casos, você esperou que eu fosse ser o maior otário do mundo! Sinto muito, mas como disse antes, não consigo atender as suas expectativas.

Não foi um ou outro fato isolado que pôs fim ao casal, mas sim o conjunto da obra, a sucessão de insucessos. Nenhum amor morre de ataque cardíaco, nem de algo fulminante, morre de inanição.

Fonte:


Marcelo Vitorino- Trabalho com publicidade desde 1999 e, depois de um tempo, acabei indo naturalmente para o marketing e desde 2007 passei a integrar o pessoal do marketing digital.Como produtor de conteúdo na internet estreei escrevendo o Pergunte ao Urso, um projeto que visava entender como funcionava o consumo de conteúdo pelo público feminino. A ideia deu certo, o blog virou dois livros, teve presença em rádio, mídia impressa e até na televisão. Chegou a ter um milhão de acessos mensais.No final de 2012 decidi que era a hora de virar a página e encerrar o projeto. Publiquei todo o meu aprendizado em um documento que está disponível na internet, portanto, se você quer começar um blog, sugiro que leia.
Acabei me viciando em escrever e interagir com o público. Já que não fui forte o bastante para largar o vício, entendi que o melhor caminho era começar outro projeto. 
Sou fruto de uma família muito numerosa e como acabei chegando por último tive uma formação muito diferenciada. Aos 14 anos escutava muita Bossa Nova e MPB, depois passei a escutar Samba, Blues, Jazz e Soul. Fui escutar Rock e outros gêneros musicais bem mais velho.
O fato é que sempre gostei de música. Para mim, todo grande momento da vida tem uma trilha sonora. 
Como referências literárias tenho dois modelos: Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo. O primeiro pela ambientação perfeita que há nos seus textos, o segundo pelo diálogo e reflexões de seus personagens.
Blog: http://naquelamesa.com/

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