PERTENCES [Jean Marcel]

PERTENCES

– Oi, Clô! – Cumprimentou-a, sem saber se dava dois beijinhos ou se a saudava com um aperto de mão. Preferiu um abraço, que de tão apertado provocou um gemido na ex-mulher.

– Posso entrar? – já entrando. 

– Claro, a casa é sua... – disse sem pensar, provocando um sorriso amarelo nos dois – Suas coisas estão no quarto de hóspede. 

– Quando as coisas do marido vão para o quarto de hóspede, cedo ou tarde um hóspede coloca suas coisas no quarto do marido! – pensou alto, enquanto ia ao encontro dos seus pertences. 

– Ex-marido, Afonso! Ex-marido – corrigiu-o. 

– Uhm... – coçando o queixo assim que chegou no quarto – Depois de todos esses anos, tudo que tenho não passa de duas pilhas com menos de um metro e meio? – já ficando de mau humor. 

– Uma pilha, Afonso! A outra é de coisas para jogar fora! Besteiras acumuladas ao longo dos anos... 

– Tá certo. Nunca gostei daquela caneca mesmo! 

– Não, Afonso, essa é a sua pilha. A outra é que é para descartar! 

– Ãh? Essa aqui? Pirou? Minhas apostilas de cursos... – pegando a primeira do monte. 

– Tem coisas aqui de quando você ainda era estagiário. Você já está quase se aposentando. 

– Eu posso precisar... 

– Aquela ali, por exemplo, é de um curso datilografia. Vai precisar? 

– Tem valor sentimental! 

– Pela datilografia? 

– Não, pela professora. Foi o superdecote dela que me ensinou a datilografar sem olhar pro teclado. 

– Aff – ela suspirou, sabendo que ele a estava provocando – E o taco de golfe? Não vai me dizer que ainda vai insistir com essa história de querer jogar golfe? 

– O quê? O meu taco de golfe? Ia jogar fora o meu taco Super Nike Pro TeamGolf Special? – protestou, aos berros – Lembra o trabalho que deu comprá-lo naquela viagem? 

– Se lembro? Comprar foi fácil, difícil foi trazer! Eu que tive de carregar. 

– Claro! – desdenhou – Eu estava ocupado carregando seu jogo de louças francesas de duzentas e quarenta peças. 

– Era uma pechincha, Afonso. O mesmo não se pode dizer do seu taco. Custou metade do dinheiro que levamos pras férias! “Eu quero um taco profissional!” você dizia para o vendedor. Só de lembrar que tivemos de passar o resto da viagem comendo McDonald’s... – sentindo toda a raiva novamente. 

– É... mas o meu taco é original. O que não se pode dizer das louças francesas made in China... 

– Pelo menos a gente usa. Então me diz... Quantas partidas de golfe você já jogou? 

– Primeiro tenho de praticar, Clotilde... 

– Antes não praticasse! Esburacou todo o jardim. E depois ainda botou a culpa no cachorro! “Treinando”... – caçoou – Com bolas de tênis?! Muito profissional! 

– Culpa sua! Ou não se lembra que ameaçou se separar se eu comprasse mais aquelas bolinhas. Se eu soubesse que a gente ia acabar se separando de qualquer jeito... tinha comprado! 

– As que você queria custavam trinta dólares cada uma, Afonso! 

– Você me conhece, Clotilde. Eu sou exigente. Pra mim tem de ser o melhor! Não aceito imitação. 

– Ah não? E o que é aquela sua secretária de cabelo oxigenado? Aquela loira falsa com quem estava tendo um caso... Genérico? Similar? 

– Não muda de assunto. Estamos falando de golfe... Se até o Bush consegue jogar... deve ser fácil! É que nem jogar taco. O mesmo princípio! 

– E desde quando você sabe jogar taco? Foi garoto de apartamento. Nem cuspir você sabe! – debochou. 

– Mas posso aprender... Quer ver? 

– Experimenta pra você ver! 

– Tô falando de golfe. Posso aprender. Agora que estamos nos separando, parece uma boa hora para começar. – ensaiando um movimento – Vou ficar com um ar mais aristocrático! 

– Mmmm... quer ficar chique?! Aristocrático... Então fiz bem em descartar aquele pôster do Che Guevara! 

– O quê? Ia jogar fora o meu Che? Como pôde? – vasculhando a pilha – “Hay que endurecerse...” 

– Bons tempos... – ela suspirou. 

– Bons tempos? 

– É... “Hay que endurecerse...” 

– O que você quer dizer com isso, Clotilde? Agora fala... – interrompendo a busca. 

– Nada não, esquece! Coloquei os discos do Pink Floyd ali ó... 

– Claro, os Pink Floyd... – coçando a cabeça. Sabia que o assunto era delicado.

– Quantos são? É número par? Olha só... Pensei nisso vindo para cá. Tenho uma sugestão pra não dar briga! Faz o seguinte... Vinil vale meio, cd vale dois, DVD vale três... 

– Pode ficar com todos... 

– Como assim? 

– Pode ficar! 

– Não, eu faço questão, Clotilde... Fazemos tudo meio a meio! Fora o quadro do “The Final Cut”... Esse não, né?! Você sabe que comprei numa galeria em São Paulo. Os bótons também não... Eu já tinha antes de casar! 

– Olha só... Pode ficar com tudo... Eu não suporto Pink Floyd! 

– Ãh? – colocando a mão no coração – Como assim não suporta? 

– Não suporto! 

– Como não suporta? – mirando com o olhar a boca da ex-mulher, para ter certeza que as palavras que ouvia saiam mesmo dali. 

– Que parte não entendeu, Afonso? Não suporto! É mais que desprezo e menos que odeio! 

– Mas então... – sentando-se pra se recompor do baque. As palavras saiam como sussurros – E o filme The wall? Vimos dezoito vezes! E o show? Lembra aquele conjunto cover que assistimos? Você disse que estava igualzinho. Quase chorou de emoção! 

– Fingimento.
Afonso devolveu um olhar incrédulo. 

– É isso mesmo. Não suporto! Pronto, fale! 

– Pois saiba que eu... eu... eu...
Silêncio... 

– Eu... 

– Diz... Pode dizer... 

– Eu não suporto alcaparras! 

– Conta outra, Afonso... 

– Não gosto! – de queixo erguido, confirmou – Odeio! – ousou dizer, com expressão de quem se livrava de um enorme peso – Acho ardido. 

– Mentira... É o teu prato predileto. Sempre fiz... desde o namoro. 

– Detesto! – insistiu, de braços cruzados. 

– Não gosta? 

– Não! 

– E o filé de linguado com molho de alcaparras? 

– Só comia o filé! As alcaparras eu raspava e passava do meu prato para o seu quando você não estava vendo. 

– Mas... Mas... É o meu melhor prato! 

– Nunca gostei! – virando-se de costa pra ela, sem coragem de encara-la. 

– E da batata sotê que acompanha? 

– Prefiro fritas! 

Silêncio... 

– Ah, odeia? 

– Odeio! 

– Ah é? 

– É! 

Pensando... Lágrimas surgiram no canto dos olhos, mas ele não viu – Pois saiba, Afonso, que acho águas termais um saco! Pronto, disse. Sinto-me até mais leve agora! 

– Anrã, sei... – sem se virar. 

– Não acredita? 

– Acredito! – disse com voz zombeteira, voltando a revirar sua pilha de pertences enquanto discutiam – Conta outra! Está dizendo isso só porque eu... 

– Não, juro! 

– E aquela vez na pousada hidromineral? Economizamos o ano inteiro... Quinze dias com as crianças... Cinco piscinas!!! – parou o que estava fazendo para medir a reação. 

– Um saco! 

– E a cascata? As banheiras? O ofurô? – aproximando-se dela. 

– Fico murcha... Cai minha pressão... – enxugando as lagrimas. 

– Mas todo ano, desde a nossa lua de mel, a gente... 

– Acho um porre! – interrompeu. 

– Mas por que nunca me disse? 

– Porque você gostava, Afonso... E eu gostava de te ver feliz! 

Os olhares se procuraram tentando entender a profundidade do que diziam. 

– Na verdade, Clotilde, eu também não gosto muito... – confessou – Nunca gostei... Toda aquela gente boiando... Aquela água quente... Sempre desconfiei daquela água morna... Pensei que você é que achasse bom, Clotilde. Ia por você... Pra te agradar! 

– E eu pra agradar você...
Silêncio... Ele voltou a mexer nas suas coisas para disfarçar. Ela na janela, mirando o além com os olhos marejados.
... 

– Clotilde... – finalmente ele quebrou o silêncio. 

– Diga... 

– Eu estava pensando... – se aproximando dela até uma distância que não experimentava desde que haviam se separado. 

– Uhm... 

– Estava lembrando da gente... Depois de algumas taças, ou melhor, depois de algumas garrafas de vinho... – rindo nervoso – Você sabe... quando a gente... quando rola um clima... Lembrei da posição do lego louco... A nossa preferida! 

– Mmm... – suspirando – Sei... – olhando para o chão. 

– Eu estava pensando... Ainda temos aquela caixa de vinho Bordeaux? 

– Ai, Afonso... – sentindo um calorão – Que ideia... 

– Temos? – sorrindo malicioso – É só uma pergunta... 

– Acho que sim. 

– Jura? 

– Unrum... 

– Posso ficar com ela?



Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

1 comentários:

cecilia disse...

Estava com saudade de ler as crônicas de Jean Marcel. Sempre me divirto com elas. São, simplesmente, deliciosas. Essa não fugiu à regra.
Parabéns, Jean!