Acerca da “Liberdade” e da “Delícia” de Ser o Que Se É na Era da Opinião Virtual [Wuldson Marcelo]

Acerca da “Liberdade” e da “Delícia” de Ser o Que Se É na Era da Opinião Virtual


Em tempos de informação ligeira e rasteira, a opinião como reveladora de mundos interiores parece um termômetro universal – tão veloz quanto a notícia que transita sem apuração – de conservadorismo e liberalidade que acometem a Terra. O jargão, “Essa é a minha opinião, respeite”, e sua variável “Eu penso assim, e pronto!”, brilham como asseverações incontestes. Ou seja, mesmo que o assunto apresente camadas, gradações, níveis de complexidade que comprovem sua abrangência e relevância coletiva, o clichê individualista, misto de narcisismo e insegurança, ganha corpo e, a base de truculência intelectual, anula sem cerimônia o debate que análises sociais, comentários ou postagens em redes sociais poderiam suscitar.

Essa opinião não é meramente a ação do senso comum que (muitas vezes) com o auxílio do bom senso contribui para conter/quebrar uma hierarquização que promove a primazia absoluta de um saber técnico-científico como único meio legítimo de acessar as chamadas verdades do mundo – que servem já há séculos para erigir e sustentar (por intermédio de imposições político-econômicas, guerras e da violência cultural e simbólica) a hegemonia da racionalidade científica ocidental. Porém, na era virtual, o estratagema adotado é o da antecipação à réplica, fechando-se em uma unidade que se encerra em si mesma, e qualquer discordância deve ser tratada como ofensa, uma afronta à liberdade de expressão. Quando uma fala é compartilhada em espaço público, ela participa automaticamente de um fórum no qual tudo está exposto e é passível de contestação. Se todos os móbiles da discussão se mantiverem dentro do que rege o ideal de respeito e do direito de se manifestar livremente, o apelo a uma opinião isenta de causar admoestações, indignação e/ou repúdio soa autoritário e parece demonstrar que, por trás do epíteto, “Essa é a minha opinião, respeite”, esconde-se não a insegurança em relação às crenças e visão de mundo do locutor da sentença, mas a sua incapacidade de, diante consciências que não aqueles que comungam de seu ethos, apresentar argumentos que comprovem as normas que sustentam esse seu modo de “viver a vida” (com seus pressupostos morais, políticos e religiosos ou ausência deles) como a uma única maneira autêntica de “ver o mundo”. 

Enquanto as opiniões ficavam restritas a bares, reuniões aqui e acolá ou ao seio familiar se podia esperar a condescendência dos presentes, até a anuência passiva. No entanto, em uma rede social, não há a obrigação em se aceitar a opinião de ninguém. A partir disso, não é o mundo das maravilhas que a Internet nos apresenta e sim um campo fértil para a proliferação de argumentos, contra-argumentos, concordâncias e discordâncias. Porém, parece que nesse mundo “seguro” do “meu blog”, “meu perfil pessoal” etc., não se espera a réplica ou que a nossa opinião possa a vir incomodar alguém. E se incomodar, bem ou mal, é importante saber enfrentar uma polêmica, nunca aceitando provocações gratuitas e crimes de ódio, e saber que nos caminhos virtuais sempre têm os trolls, que frequentam páginas que não foram feitas para eles, mas que a liberdade de expressão, que eles defendem quando os interessa, permite que naveguem à vontade.

Platão, um dos fundadores do pensamento racional, percebia na doxa (opinião)

– algo entre ignorância e ciência – um perigo à pretensão de qualquer conhecimento advindo do exercício da razão, já que explorava a retórica e a aparência. A opinião, desse modo, é inimiga da episteme e precisa ser superada, já que imputa a “superfície” ou imagens das coisas status de verdade.
Para Friedrich W. Hegel, cânone da filosofia Ocidental, o pensamento ao ser concebido já não nos pertence mais, isto é, faz-se movimento dentro da esfera social, pois a ideia não é tão somente abstração pura, informal, criada do nada (é proveniente do Espírito ou da Ideia infinita). A ideia possui um lastro, pensamentos e efetivações ulteriores. Uma vez que algo é pensado (ideia) se torna real (matéria) e faz parte do mundo concreto. Afirma a coincidência entre a ideia e a realidade. Assim sendo, se nossas ideias não nos pertencem, o que dirá opiniões formuladas sem grandes preocupações argumentativas. 

Se considerarmos a explanação de Terry Eagleton sobre a inversão de Marx em relação à dialética hegeliana, teremos não as ideias como formadoras da existência social, mas a materialidade de um ser social que constitui o pensamento, sendo ao mesmo tempo constituído por esse pensamento, “Para Marx, o que dizemos ou pensamos é em última análise determinado por aquilo que fazemos. São práticas históricas que se encontram no fundo de nossos jogos de linguagem. Mas um pouco de cautela é necessário aqui. Pois o que fazemos enquanto seres históricos é sem dúvida profundamente ligado com o pensamento e a linguagem; não há prática humana fora do domínio do significado, da intenção e da imaginação” (Terry Eagleton, Marx e a Liberdade. São Paulo: Editora Unesp, 1999). Logo, se temos um ser social que constitui um pensamento e é constituído por ele, e nesse processo ele significa, intenciona e imagina, não pode pretender a isenção completa a respeito do que profere e defende. Quem apresenta uma “opinião” assume um compromisso social, por assim dizer.

Abandonando as especulações filosóficas, chegamos à sabedoria popular, que nos apresenta ditados formidáveis: “Quem fala o que quer, escuta o que não quer”. Ou ainda, “Quem fala demais, dá bom dia a cavalo”.

Algumas opiniões como meia-verdades logram espaço tornando-se vozes uníssonas a reivindicar o caráter de solução de problemas. Uma delas é a de que “bandido bom é bandido morto”. Aliás, se assim o fosse, o “Velho Oeste”, a Lei de Talião (máxima do “olho por olho, dente por dente”) ou os vários grupos de extermínios brasileiros teriam resolvido o problema da violência e não os intensificado e gerado mais caos em relação à segurança coletiva.

Quando certo grupo de pessoas vociferam que a homossexualidade é uma questão de opção, contrariam à ciência e, por tabela, o seu próprio poder de entendimento do mundo, pois acreditam que alguém deliberadamente escolheria ser vítima de agressão, preconceito, hostilidades constantes e, na pior das hipóteses, assassinato, por mero desejo de experimentar e assumir o que uma sociedade autoritária, discriminatória e violenta condena.

Então, opiniões jogadas ao léu e que se escondem atrás do escudo da liberdade de expressão são perigosas. Além de revelarem o grau de desconhecimento sobre determinados assuntos por parte do “comentarista”, podem acabar resvalando em apologia e incitação ao crime e/ou discriminação, seja ela social, racial ou de gênero. 

Na era virtual, a opinião é senhora absoluta de estratégia de mecanismos de defesa. Para evitar ceder espaço em um debate (ou em um entrevero facebookiano), a opinião se transforma em um manto protetor que contribui para deixar do lado de fora a possibilidade de reflexão e da percepção de que o tradicional, o binário ou o consagrado pela religião constrangem outros a fingirem ser o que não são para que grupos se sintam confortáveis em defender suas crenças como ideias para a “perfeição” da ordem social. Assim, quando se nega a existência do machismo, da homofobia, do racismo etc. e se acusa o oprimido de vitimização, a opinião não é o livre expressar de um pensamento – constitucional e necessário – mas a corroboração com um sistema de ideias hegemônicas que anula subjetividades e construtos não identitários que escapam às regras impostas pela religião predominante e suas ramificações, pelas convenções morais e/ou modelo político vigente, que arbitrariamente julgam e condenam quem contesta sua lógica de controle social.

Desse modo, a opinião que não contribui para compreender as mudanças comportamentais, políticas e/ou espirituais servem apenas para reiterar condutas de estereotipagem e perseguição ao Outro. Opinar, e ter esse direito, é legítimo e mantém a democracia viva, porém não há nada de divertido em tentar silenciar, subjugar e querer acossar a subjetividade alheia, ainda mais quando para isso se demonstra uma ineficiência como debatedor e se “confessa” uma brutalidade intelectual que apela para a prerrogativa da liberdade a fim de sustentar o status quo, privilégios sociais e/ou uma concepção religiosa do mundo. 

Opine, mas consciente de que uma vez essa opinião exposta, já não é mais propriedade privada. E esteja preparado para as “delícias” de uma excelente contenda argumentativa. De preferência, àquela que evite a famigerada, “Eu penso assim, e pronto!”.


Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). É revisor de textos, autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (Editora Multifoco, 2013).

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