Dando a letra [Gustavo Ranieri]

Dando a letra


por: Entrevista Gustavo Ranieri Texto Carina Matuda 

A gente olha ao redor, quando vê educação, problemas. E a gente tem todas as razões para não fazer nada. Mas isso não pode ser pretexto para a gente deixar de fazer alguma coisa.” Esta frase, dita por Paulo Freire, patrono da educação brasileira, nunca saiu da cabeça da Profa. Dra. Walkyria Monte Mór. “Em educação, você enfrenta muito problema. Mas não se pode deixar de fazer alguma coisa.” E ela não deixou. Com a bagagem de quem teve “a oportunidade de estudar com os acadêmicos que voltavam do exílio no pós-ditadura” – como Dermeval Saviani, Florestan Fernandes, Ottaviani e o próprio Freire –, ela está colocando seu sonho totalmente em prática. “Minha área de pesquisa é relativamente nova. Se baseia na alfabetização, mas utiliza teorias de Freire que foram desenvolvidas no estrangeiro, e voltam para o Brasil com o nome de Letramentos.” Estudando este conceito desde a década de 1980, a educadora sempre quis trabalhar em algo que pudesse ser revertido para a escola pública. Walkyria foi amadurecendo a ideia e as teorias e, então, chegou onde sempre quis: a um projeto nacional para formação de professores com base nessas novas teorias. Apesar de todas as dificuldades impostas por tamanha amplitude, ela acreditou e, após contatar colegas que simpatizavam com a ideia, ficou feliz, pois “todos responderam positivamente”. Ativo desde 2009, o Projeto Novo Letramento está hoje presente em 22 universidades públicas e também inspirou o projeto Rede Nacional de Formação de Professores, do MEC. Em um cenário educacional bastante questionável, Walkyria mostra-se otimista em relação ao futuro e nos apresenta uma possível solução: “Já tem coisas acontecendo. É questão de fazer um trabalho de reeducação via universidades. Pode acontecer, pode vir a funcionar”.

Pensando em um panorama geral, qual sua visão do Brasil hoje? O que se constrói e para onde estamos indo de fato?

Não dá para falar de um “nós” generalizado. Há vários caminhos divergentes. Todo plano de fazer uma educação unificada aconteceu até certo ponto. Esse conceito de educação iluminista é para poucos! Não tem como ele ser viabilizado como se fôssemos iguais, porque não somos. Há estudiosos que falam sobre “diversidade dentro da diversidade”. Reconhecer isso é importante para pensarmos em projetos diversificados que, talvez, possam ser amarrados dentro de alguns pontos comuns.

Essa aceitação necessita de uma ação política integrada que contemple todos os estados – os que têm mais relevância econômica e também os que não?

Não vou falar em questão partidária. Acho que existe um desejo e vejo iniciativas de trabalhar com essa ideia. A dificuldade é exatamente a de quebrar conceitos seculares sobre o que é a educação. Então, vejo a necessidade de uma reeducação conceitual. Existem iniciativas de governos já trabalhando nisso, mas a implementação é mais lenta e difícil.

Você acha que deveria haver algum órgão que interligasse as ações educacionais isoladas?

Isso seria interessante para servir como inspiração. Trabalhamos muito o conceito “global-local”, que são ideias e estudos de vários países, mas que, ao serem implementadas, devem sempre ser reinterpretadas localmente.

Você acredita que o método conservador ainda vigente na educação do Brasil é um erro?

Não acho que a ideia conservadora deva ser extinta. Devemos utilizar muitas das ideias boas que ela trouxe. Mas ela não atende mais às necessidades de uma sociedade que está diferente, muito por conta da tecnologia digital. Só que as mudanças são externas à escola, que continua mantendo outro modelo.

Há preconceitos em relação a investir em educação nas áreas mais remotas do país?

Não acredito que seja, necessariamente, “preconceito”, mas interesse político. Há dificuldade de muitos políticos entenderem o letramento, trabalhar a diversidade e a noção global-local. Por exemplo, se eu propuser algo muito inovador, perco credibilidade, porque aquilo já está representado em uma ideia conservadora. Agora, em reuniões junto ao MEC, ficou muito claro que um caminho possível de se fazer mudanças é via universidades. Porque, às vezes, via Secretaria de Educação, a dificuldade é partidária mesmo.

Pensando em uma base educacional, em que momento a gente constrói um país novo educacionalmente sabendo da aprovação automática?

Essa questão está mudando. Alguns países, como a Finlândia, que é top de linha na educação, não usam mais avaliação. Será que, então, é esse o problema? O problema maior é o conceito de educação que você está desenvolvendo. Digo que a escola tem que começar a trazer os pais para mudar. Eles precisam saber que a educação quer mudar.

Muito do método atual se baseia em educar para passar no vestibular. Como você encara isso?

Esse é o modelo conservador. [Paulo] Freire já chamava atenção para o que ele denominava “educação bancária”, porque a ideia era a memorização. Antes, o homem trazia a própria memória. Hoje, com a tecnologia digital, não precisamos mais da memorização. No letramento, ela é importante, mas não é o centro. Saber usar a informação que está depositada em algum local é mais importante, bem como ser crítico. O aluno precisa saber que habilidades desenvolver, inclusive para lidar com essas questões, que podem estar em algum lugar fora dele.

Hoje, muitos alunos recorrem ao YouTube parar tirar dúvidas e ver explicações. Então, como é essa relação com a tecnologia? Qual é o atual papel do professor e da sala de aula?

Antes, era um conhecimento mais tecnicista. Hoje, ele tem que desenvolver outras habilidades no aluno e, para isso, também tem que ter essas habilidades desenvolvidas. E o professor não se preparou para isso nos cursos de formação. Precisa-se trabalhar a formação do professor e as escolas diretamente.

Você acredita que um professor auditado conseguirá se inserir no que existe hoje no mundo? Afinal, estamos lidando com outra geração!

Essa geração são os chamados “nativos”. Hoje, por exemplo, você encontra usuários de smartphones sendo também fotógrafos. Isso é uma mudança: o conhecimento era construído de um jeito e, atualmente, ele se constrói de uma forma mais distribuída. Continuamos a ter o profissional, mas as pessoas se sentem aptas a trabalhar no Photoshop. Esses são modos de ver como o conhecimento é trabalhado, construído e reconstruído. O professor tem a possibilidade de rever seus conceitos, inclusive confrontando com a sociedade em que ele vive. Algumas escolas já estão passando para período integral, porque existe um programa de governo que incentiva isso. Agora, não basta mudar a percepção do professor. Não basta fazer um programa que mude o conceito de educação e fique em dissonância com o resto do contexto.

Me parece que a educação tecnológica permite certas superficialidades. Você concorda?

A visão de escola que trabalhamos no Brasil tem uma filosofia positivista. Trabalha-se o enfoque conteudista, valorizando ideias canônicas. Aprofunda-se certos conceitos, certos autores. Acho que a ideia de aprofundamento é interessante, mas... O que é esse aprofundamento? Segundo quem? Para quem? Por quê? Então, esse é o momento de se pensar nisso. Vamos fazer o aluno pesquisar, desenvolver uma habilidade.

Recentemente, houve uma avaliação nacional dos professores em que 80% deles foram reprovados. Isso tem a ver com a falta de base educacional deles?
Creio que sim. Acho que estamos em um momento em que nem se firmou uma formação do professor. Trabalhava-se apenas conteúdo e metodologia. Algumas questões pedagógicas também, mas com certa rigidez. A relação era unilateral. Agora, que outros elementos entram para a formação, isso fica difuso. Olhando o Brasil inteiro, não é todo professor que passou pela universidade.

Educacionalmente, o que somos hoje? Ou melhor, o que é educação?

Educação é o processo de guiar pessoas em torno de alguma concepção de sociedade, para fazer com que essas pessoas convivam e vivam bem, respondendo àquele contexto. Alguns pedagogos dizem que a escola trabalha com duas ideias: a ‘assimilação’, que significa fazer com que as pessoas assimilem o seu ambiente; e a ‘qualificação’, que é qualificar a pessoa para o que é necessário na sociedade. Essas duas visões passam bem a ideia da educação para todos. Mas a escola ainda não faz o que se chama de ‘subjetificação’, que é a coisa do sujeito: o que você pensa sobre isso? Esse é um processo de percepção crítica que faz com que esse sujeito possa alterar o seu meio e contestar.

Esses seriam conceitos que colaborariam para a formação de um sujeito crítico?

Sim. Lembro de que, em uma aula de argumentação, dei sugestões aos alunos: “Vamos fazer um trabalho sobre isso”. Um aluno falou: “Eu não quero fazer esse tema aí. Acho horrível.” “Qual você gostaria de fazer?” “Quero escrever por que odeio Machado de Assis.” (risos) Falei: “Faça”. E ele fez um ótimo trabalho. Entendo a posição dele, mas isso aí é um tapa na cara para muito professor: como alguém não gosta de Machado de Assis? Esse cara também tem que se posicionar.

A gente tem 514 anos. Precisaremos de mais 500 para formalizar uma base educacional? Não. Acho que já tem coisas acontecendo. É um trabalho de reeducação conceitual das pessoas, e a mídia pode nos ajudar nisso. É questão de fazer um trabalho de reeducação via universidades. Fazer, também, via Secretarias de Educação. Então, tem o projeto nacional, tem o projeto do MEC prontinho. Pode acontecer, pode vir a funcionar.

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