Se melhorar... Estraga! Dito e feito! [Jean Marcel]

Se melhorar... Estraga! Dito e feito!


Amigos de bar

Não foi por acaso que quando ela entrou no boteco todos silenciaram, observando atentamente cada gesto que improvisava. Quando a beleza era muita, os elogios não demoravam a surgir, mas naquele caso a beleza era demais, emudecendo a todos, casados e solteiros, uma rara unanimidade.

Houve até quem trancasse a respiração para não contaminar a cena. Os únicos ruídos que se ouviam eram o “toc-toc” do salto alto pisando delicadamente o chão a caminho do balcão e o “tantã” dos corações masculinos batendo mais apressadamente que o normal, marcando o compasso da cena. 

Há muito tempo que tinham o hábito de dar nota para toda e qualquer mulher que lá entrasse. Um número seguido de uma característica ou adjetivo. O número referia-se a nota e o complemento justificava o voto, para mais ou para menos. Nunca o óbvio. O óbvio não precisava ser dito! Algo como “oito e meio, orelhas de abano” ou “sete, joelhos juntos”, ou ainda “nove, bunda quaaase perfeita”. Assim mesmo, direto, no seco! As avaliações tinham valor de sentença de última instância, portanto, irrecorríveis! Todo julgamento provocava um esticar de cabeças coletivo a fim de verificar a característica abordada. Naquele caso, porém, ninguém se atreveu a dar nota. Não era preciso! Melhor faziam simplesmente observando... mudos, boquiabertos, fascinados. E foi assim, em silêncio, que acompanharam cada gesto. O Jonja, esfregando os olhos para certificar-se de que não se tratava de uma miragem; o Afonso, pousando a mão sobre o coração, querendo acalmá-lo; e o Paulão, derramando uma fração do conteúdo do seu copo para o Santo, reconhecendo o presente divino. Até o Tigrão, um ateu confesso, ergueu as mãos para os céus agradecendo tanta perfeição.

O caminhar felino, o decote entre maroto e ousado, os cabelos balançando ao vento (mesmo sem uma brisa sequer soprando lá dentro), o olhar lânguido e tímido... Tudo nela parecia feito propositadamente para seduzir. Teve até quem procurasse as câmeras escondidas, supondo tratar-se de alguma gravação de comercial ou mesmo uma pegadinha desses programas de auditório. A cena era perfeita demais! 

E foi sob o olhar atônito, indiscreto e atento dos felizardos que lá estavam, que aquele mulherão se debruçou completamente sobre o balcão, ficando delicadamente na pontinha dos pés. Com o braço esticado ela fez sinal para o Tonho, dono do boteco, tentando chamar sua atenção. Como se precisasse!

– Eu queria pedir uma bebida... – eram tantas as bocas abertas acompanhando a cena que a frase ecoou no ambiente. 

– E ela ainda... “parla”! – observou o Paulão incrédulo, num sussurro para o amigo, evocando a ordem de Michelangelo diante da perfeição que acabara de esculpir.

– Uma bebida? Você disse uma bebida? É pra já! – adiantou-se o Tonho, com uma disposição jamais vista, caminhando prontamente em sua direção, enquanto usava o pano que estava pendurado na cintura para enxugar o suor que se acumulava na testa – Que tal um gin tônica? Ou um Campari? Quem sabe algum coquetel sem álcool, hein?  – propôs, simulando o gesto de chacoalhar uma coqueteleira no ar. 

– Na verdade eu estava pensando em um chope bem gelado!

A resposta causou um “ohhhhh” de admiração naqueles que acompanhavam a cena, ou seja, absolutamente toda a frequência do bar. Não era possível! Não pediu caipirinha de kiwi com adoçante, nem batidinha de morango. Fantástico! Só faltou aplaudirem... Todavia, mais admirados ainda ficaram quando a viram monitorar de perto o serviço do Tonho, prescrevendo com a autoridade de quem é do ramo: 

– Capricha no colarinho, sim?

Foram ao delírio! Seria mesmo possível? 

Depois de tomar um longo gole e limpar o “bigode” de espuma com o antebraço, olhou em volta avaliando os olhares intrusos que a dissecavam, analisando-a minuciosamente. Mesmo assim, em vez de se mostrar incomodada, levantou o copo de chope num gesto de brinde, prontamente acompanhada por todo o boteco.

– À paz mundial! – gritou o Afonso em resposta, empolgado, recebendo os olhares de estranhamento dos colegas. E foi assim, com esse brinde, que a batizaram, acolhendo-a fervorosamente no bar do Tonho, até então um “clube” rigorosamente vedado às mulheres. 

Não tardou para a beldade conquistar um lugar à mesa. Na verdade, vários lugares, já que todos queriam tê-la ao seu lado. Num surto coletivo de simpatia, ofereceram-lhe tábua de frios, porção de queijo de búfala com tomate seco e, pasmem, até um carpaccio surgiu por conta da casa. Nada disso! Agradeceu a cada um com um beijinho no rosto, mas explicou que estava com fome, preferindo, portanto, “encomendar” um x-salada completo. “Perfeita... Se melhorar estraga!”, disseram-se mutuamente com trocas de olhar e balançar sutil de cabeças, para, em seguida, pedir ao Tonho uma rodada de sanduíches e seus molhos gordurosos.

O papo mais que fluía: rolava solto! Falaram de futebol, de vale-tudo, de carros, modelos de moto... Alguém até arriscou puxar assunto sobre a novela das oito, tentando roubar sua atenção, mas foi frustrado pela informação de que ela não assistia a novelas. Que noite! Já eram quase cinco da manhã e ninguém queria sair da mesa, pelo menos até que ela fizesse menção de se retirar. Assim, como ninguém se mexia por receio de deixá-la sozinha com os remanescentes, coube-lhe a iniciativa de pedir a “saideira”. 

– Um brinde ao Mengão! – Ela propôs, citando a escalação completa do time, incluindo os reservas.

Estavam tão felizes que todos brindaram... Até os botafoguenses e vascaínos! 

*  *  *

No dia seguinte a turma estava novamente toda lá, no bar do Tonho, como sempre, mas alguns mais perfumados e mais bem arrumados do que de costume. Todos se entreolhando numa expectativa muda quanto ao retorno da nova musa do boteco do Tonho. 

O papo seguiu arrastado, monótono, aguardando estrategicamente o momento em que ela finalmente chegaria para revelar-se mais interessante. Parecia até que estavam economizando propositadamente os seus melhores assuntos. Assim, quando os inúmeros olhares para a porta finalmente divisaram a chegada da mais nova integrante da turma, pôde-se ouvir um suspiro de alívio que poderia ser traduzido fielmente como “Ufa! Ela voltou!”. Mas bem que o murmúrio coletivo também pode ter sido de perplexidade. Sim, porque ela estava ainda mais bonita e provocante do que no dia anterior.

O espantoso é que as surpresas não pararam por aí. Afinal, ela era mesmo incrível! Surpreendia-os a todo instante. Primeiro foi quando alguém se queixou do preço exorbitante da cerveja. Para espanto coletivo, ela fez uma preleção sobre o tema, citando a teoria do equilíbrio correlacionado de Aumann em justaposição ao entendimento das finanças comportamentais, consoante a ciência cognitiva. 

– Explicar o comportamento aparentemente irracional da gestão corporativa de preços pelos seres humanos, estabelecendo uma base cognitiva, pressupõe o uso da heurística em consonância com a "prospect theory". Vocês sabem... – complementou diante da plateia boquiaberta – Prefiro o Aumann. Como teórico ele é mais flexível que o John Nash.

O Arnoldo, intelectual da turma, até tentou acompanhar a conversa, mas, constrangido, confessou que desconhecia aquele autor. 

– Poxa – diz ela com uma voz doce, aparentando surpresa – mas ele ganhou um Nobel de economia! – Foi como se ela lhe tivesse aplicado um direto no queixo.

– Ahhh, você está falando “daquele” Aumann... Por que não disse logo? – ainda tentou consertar, mas ninguém mais prestava atenção ao que ele dizia. Era como um boxeador agarrado às cordas ou, ainda pior, beijando a lona. Só faltou a contagem! Todos os olhares estavam voltados para ela. Olhares de admiração. 

Já na semana seguinte o desconforto se deu com o Jonja. Resolveram apostar um vira-vira de chope com Steinhegger. Na verdade era para ser mais uma brincadeira sem maiores consequências, já que todos ali sabem que o Jonja é imbatível no vira-vira. Pelo menos era, até então. Depois de ser derrotado por ela três vezes seguidas, o ex-campeão saiu trocando os pés, indignado, pedindo impugnação da disputa. “Ela é profissional!” ainda tentou alertar aos gritos, mas ninguém prestou atenção. Afinal, ela era mesmo perfeita! “Se melhorar estraga!”, diziam fascinados, observando-a lançar bolachas de chope da borda da mesa para o ar, agarrando-as em seguida num movimento rápido. Primeiro com uma, depois com duas, em seguida com três...

Dia após dia descobriam que suas virtudes não tinham fim. Jogava truco como ninguém, sabia contar as pedras do dominó melhor que eles, tinha um repertório inesgotável de piadas chulas e ainda entendia de vinho, futebol e cerveja! Um espanto! Até pegaram-na roubando no palitinho! Era mesmo perfeita! Era bonito de ver... Literalmente falando! 

– Os cubanos são mais encorpados e vigorosos que os dominicanos! – afirmou dia desses, gerando um silêncio imediato de ciúme no ar...

– Calma, meninos, tô falando dos charutos! – tranquilizou-os em seguida. Todos riram aliviados. De qualquer forma, não tinha mesmo como ficar de mal com ela; afinal, não havia zanga que resistisse àquela cruzada de pernas! Era o paraíso... ou quase! Olhando mais atentamente, podia-se notar algo de diferente no boteco do Tonho. Difícil de explicar, mas definitivamente a turma reunida já não era mais a mesma coisa. O  Arnoldo já não arriscava mais seus comentários, com receio de ser corrigido em público pela beldade. O Jonja, boêmio inveterado, já nem bebia mais para não ficar inconveniente, e o Tigrão, o Dom Juan da turma, pasmem, parecia intimidado diante de tamanha beleza.

Até os happy hours que aconteciam há anos estavam agora ameaçados, já que alguns deles, manifestando uma vaidade súbita, ultimamente preferiam passar em casa antes de ir para o boteco, a fim de retocar o visual. Por isso, quando combinaram aquela assembleia extraordinária no meio da tarde para tratar do assunto, ninguém faltou, estavam todos lá! Só ela que não, afinal, não fora mesmo convidada. 

Como não houvesse ninguém que defendesse a pobre garota, a reunião não durou mais que quinze minutos, o suficiente para deliberarem pela expulsão da moça. A partir daquele dia, estaria terminantemente proibida de frequentar o boteco do Tonho. Mesmo tratando-se de uma reunião secreta, decidiram lavrar uma ata, para que ninguém dissesse depois, num acesso de remorso, não ter concordado com os termos ali expostos.

E assim, selando seu destino naquela turma, como exposição de motivos justificando seu banimento, um único argumento fora levantado contra ela.

Porém, de uma lógica tão inquestionável que ninguém ousou refutar: “Ela era boa demais!” De fato, ser perfeita era seu maior defeito. Um defeito com o qual não conseguiam conviver.


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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