Idiossincrasia [Erika Jane Ribeiro (Pók Ribeiro)]

Idiossincrasia
As palavras são estes seres saltitantes e libertinos, cheios de cores e gostos bem exóticos e, quase sempre, estão se enfiando em nossa língua ou dançando em nossos dedos. Quando você, desatentamente, a encontra ela ri de soslaio, faz careta, reboliça suas ideias, sapateia nos teus versos e não mais sairá de você enquanto não trajetar pela ideia-verso-mundo. Palavra é bicho cheio de vontade. A idiossincrasia ainda gargalha de mim; ou palavra que me mexe!
A primeira vez que me bati com a idiossincrasia, nem me lembro, mas dever de ter sido num desses divãs virtuais em que as pessoas escrevem tudo. E ela nem me olhou. Nas vezes seguintes, nos topamos, talvez como ébrio em esquinas e nem nos notamos.

Dias depois, tornei a espioná-la, meio voyeur, porém nada guardei na memória. Ela era individualista demais, una, e eu, ainda sem transformações, só enxergava os cortiços e colmeias inférteis.
A vez derradeira, e mais intensa, que encontrei a idiossincrasia, ela balançava no arroxeado de um vestido pendurado, naquela porta de vidro. Tão nítida, tão livre, que jamais imaginou ser. Ante meus olhos sonâmbulos, aquele roxo fluído, repetindo os movimentos do corpo que há pouco guardava, era o idiossincrasismo mais puro (se é que há purismo).
Mal pestanejei e o vento forte derrubou a idiossincrasia desvestida, no chão frio. Não reclamou,  de nada queixou-se, amofinada nos fios estampados, e, mais uma vez fui dormir com o gosto de não (re)conhecer a Idiossincrasia.
Ela era eu, mas não permitia que me visse. Tinha medo que eu acabasse fugindo de mim e abandonando-a no Dicionário reformado.

Erika Jane Ribeiro (Pók Ribeiro). Poeta, cronista, professora de Língua Portuguesa com Especialização em Literatura e Cultura, oficineira, articuladora textual com adolescentes e blogueira. Natural da cidade de Uauá – Bahia, terra iluminada pelos vagalumes e com forte veia cultural, foi acolhida pelo Rio São Francisco desde os idos de 2000 quando iniciou o curso de Licenciatura em Letras pela UPE/FFPP em Petrolina - PE. Já em 2010, concluiu o curso de Direito pela UNEB em Juazeiro – BA e, em 2012, especializou-se em Direito Penal e Processo Penal. Amante da literatura desde sempre, começou a escrever poemas por volta dos 12 anos. Em 2007 lançou, numa produção independente, o livro de poemas “Noites e Vagalumes”. Atualmente, além de poemas, escreve crônicas, memórias literárias e arrisca-se em composições musicais, em parceria com amigos músicos. Página na internet: Vagalumes, poesia e vida

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