10 livros para uma vida [Paola Rodrigues]

The new novel, obra de Winslow Homer.
10 livros para uma vida

por Paola Rodrigues
Artigo publicado no site Obvious 

O hábito de ler é um remédio e prazer para aqueles que encontram o aconchego e amizade nas palavras do escritor. Mas, se te fosse pedido 10 livros que marcaram a sua vida?

Você provavelmente deve ter notado que existe uma forte comoção nas redes sociais em ocupações e listas. Longe de minha pessoa acreditar que tal projeto é ruim, amo listas, adoro saber o que os outros gostam e sempre acho uma fonte válida para inspirações. Há quem ache ruim, que é apenas uma forma de se enumerar a imbecilidade, um pensamento que por si só é bem imbecil, em minha humilde opinião.

No momento em que formei minhas duas listas percebi o quão complicado é selecionar 10 livros para uma vida, 10 obras que te marcaram profundamente quando já se leu tanto. Em minha antiga conta da biblioteca foram marcados 876 livros lidos entre meus 5 e 15 anos, desde tal época provavelmente li o dobro do antigo número. Em meus vários disgnósticos, compulsão por leitura é uma constante e a necessidade abrange todos os gêneros. Uma lista é quase impossível e toda vez que faço uma é diferente da anterior.

O fato é que acredito que compartilhar minha lista seja uma iniciativa legal, você pode compartilhar a sua e tantas outras pessoas vão compartilhando. Assim conheço mais livros e todos podem criar opiniões mais críticas embasadas, a medida que forem lendo mais e mais. Já havia feito uma no texto No dia do leitor, inspire-se, títulos voltados unicamente para o entretenimento, agora é algo mais pessoal.

Minha lista não é perfeita e sendo muito sincera, 10 é um número absurdo, no mínimo deveria ter 50, mas me impus esse limite, restringindo a livros que marcaram uma vida, não uma época em especial.

 William Golding (Fonte: The Guardian)

O Senhor das Moscas 

Há quem chame o livro de William Golding de alegoria, particularmente chamo de espelho. Este livro foi publicado em 1953, logo após os acontecimentos da segunda Guerra Mundial, quando o mundo assistiu em primeira mão a devastação de uma nação, a corrupção e a maldade de uma forma ampla. Até hoje o mundo se choca com imagens de judeus mortos jogados numa cova aos montes, assassinados por sua origem, porém, o mesmo choque massivo não acontece com os jornais, no qual folheamos pacientemente em busca de notícia.

A meu ver o livro de Golding será eternamente atual, porque os impulsos humanos são imutáveis, se o homem nasce mal ou se torna a medida que é corrompido pela vida, será uma eterna discussão. Aqui temos meninos sozinhos numa ilha após um acidente, em contato com a assustadora liberdade, em uma tentativa de criar leis para impor a ordem, mas a ordem não inibe a tirania e a crueldade, as vezes as leis podem ser o argumento necessário para tal.


 Ray Bradbury (Fonte: LA Times)

O País de Outubro

Ray Bradbury é mais conhecido por Fahrenheit 451 e apesar de acreditar que este é uma obra prima da ficção e que devia ser lido por todos ser vivente - e além - é seu livro de contos que me encantou o coração. Sempre achei que Ray tinha algo de poeta quando li F 451, fato comprovado em contos como "O Anão" "O Lago" e "O Pequeno Assassino".

Uma mescla de histórias de terror, fantasia e se bem empregado, uma boa análise da condição humana por vezes, porque mesmo quando ficcionalmente se narra sobre um bebê assassino ou um homem que tem medo de seu próprio esqueleto, podemos ver pequenos reflexos de medos e percepções nossas mescladas na incrível imaginação do autor.


 Julio Cortázar (Fonte: Reprodução)

Rayuela ou O Jogo da Amarelinha 

Meu primeiro livro em espanhol era para ser um treino para a língua que não dominava e apesar de Cortázar ser considerado um escritor adolescente em sua própria terra, não me importo, qual o problema com a adolescência que os adultos encontraram? Todos já fomos e é uma fase tão bonita em suas angústias e futilidades.

Um triângulo amoroso se desenvolve num livro em que o leitor pode escolher como ler. Uma história tão facetada que pode ser apreciada de várias formas, mas ainda acredito que este é um dos meus preferidos porque foi o qual me apresentou o incrível mundo da literatura latina, com todos seus arranjos e amores.

Cortázar também é pai de uma série de poemas e outros tantos livros que merecem a leitura, como Bestiário.


 Marcel Proust (Foto: Reprodução)

Em Busca do Tempo Perdido 

Já fez 100 que o primeiro volume da obra de Proust foi publicado, enquadrado como uma das maiores obras clássicas do século passado, alcunha não seria mais bem empregada, já que o romance soma mais de 3.000 páginas e descrições que podem causar um incômodo no leitor, mas todos os volumes merecem ser lidos, por mais que demore anos para tal façanha.

Talvez Em Busca do Tempo Perdido não seja uma obra que deva ser lida por qualquer um que não dê o valor que merece o passado e a lembrança. Imediatismo e a ânsia desmedida pelo futuro não é válido para um autor que viveu pouco, passou grande parte da vida doente, mas conseguiu criar uma obra cheia de análises e percepções sobre a vida, morte, homossexualismo, arte e porque você deveria ficar boas horas na cama, analisando o mundo de forma lírica.


 Alain-Fournier (Foto: Reprodução) 

O Bosque das Ilusões Perdidas 

Sou uma otimista. Acredito em amor, que a natureza possui sua magia e que existe um valor muito delicado na infância. Alain-Fournier faz a junção da minha crença numa prosa calma, simples e encantadora, onde há valor na amizade.

Yvonne, o amor que é tão buscado na história é quase uma ninfa, uma invenção de Shakespeare que não foi jogada no túmulo de suas obras. Nos apaixonamos dezenas de vezes durante uma vida, trocando uma busca pela outra, a medida que a conveniência se apresenta, buscar algo por toda uma existência pode se tornar um exemplo de burrice, mas não existe algo de belo na esperança?


 Jorge Luis Borges (Foto: Reprodução)

Ficções 

Acredito que este livro tenha sido um dos que mais mostrou o lado moral e perspicaz de Jorge Luis Borges, dito como uma pérola da literatura latina. A compilação de vários contos e narrativas mescladas é um leque de surpresas e variações de temas.

Dividido em duas partes, a obra se bifurca por outros vários caminhos, que passeiam por bibliotecas, espionagem, cicatrizes e pesares de histórias que comprovam que a ficção tem seu valor quando encontra um punho tão encantador como ao do Senhor Borges.


 Amós Oz (Foto: Extra)

O Monte do Mau Conselho

Comecei a ler Amós Oz faz pouco tempo e fiquei muito inclinada a adicionar De repente, nas profundezas do bosque porque me lembra muito Platão e sua alegoria da Caverna, mas de todos os livros de Oz que coloquei as mãos, este inevitavelmente é o mais bem escrito.

O Monte do Mau Conselho poderia ser um livro político e há quem diga que é, mas para mim é uma narrativa sobre a relação das pessoas com o Governo vigente e como isso interfere da percepção familiar. Temos três famílias afundadas na infelicidade que paira sobre o regime político de Israel.



 Vinicius de Moraes (Foto: Reprodução)

Antologia Poética
 
Vinicius de Moraes acumulou o surpreendente número de 9 esposas, então há quem diga que o poetinha sabe muito bem falar de amor, assim como da solidão, alegria, saudade, dor, simples devaneios do dia e casualidades reprimidas, sua música e escrita é carregada de poesia e em Antologia Poética temos o clássico do clássico.

Alguns poemas se tornariam músicas conhecidas e aclamadas nos dias de hoje. Um dos meus poemas preferidos é A rosa de Hiroshima, que ganharia uma versão na voz de Ney Matogrosso com Secos & Molhados.

 Gabriel García Márquez (Foto: CBC)

O General em Seu Labirinto

Gabriel García Márquez é conhecido por Cem Anos de Solidão, Memórias de minhas putas tristes e Do Amor e Outros Demônios, dentre os citados li todos, mas provavelmente meu segundo preferido seja Crônica de Uma Morte Anunciada e quase sempre enumero qualquer um destes, mas hoje, pensando com muita calma, O General em Seu Labirinto possui uma beleza meio jogada ao lado. Ninguém nunca se lembra do livro que narra primorosamente, mesmo com seu tom de ficção, a história de Simón Bolívar, O Libertador, líder Venezuelano que foi fundamental para a Independência da América Espanhola.

Talvez o que me leva a gostar da obra seja meu vicio em História e completa admiração pelo líder que foi Bolívar. Enquanto muitos usam a camiseta de Che, poucos valorizam os relatos e ideologias do General e García Márquez mais uma vez com seu incrível estilo de narrar nos apresenta o Labirinto da vida de umas das maiores personalidades da América.

Graciliano Ramos (Foto: Acervo)
Angústia 

Desculpem-me os que dizem que Vidas Secas foi a grande obra de Graciliano Ramos, não posso discordar, mas Angústia tem sua honestidade marcante, relato de um personagem exasperado, Luís da Silva, preso em sua própria gaiola, 35 anos, funcionário público e numa vida tão chata que o crime se torna a única emoção.

Dito como a obra mais moderna do autor, mas nem por isso dispensa a forma única de Graciliano dedilhar as palavras. Escrito durante a prisão na Era Vargas, o livro tem muito do que se sente quando as paredes são o maior diálogo que se apresenta.

Paola Rodrigues
Concorda com Salinger, todos batem palmas pelas razões erradas.

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