AMOR PERDIDO NO TEMPO [Humberto Pinho da Silva]

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AMOR PERDIDO NO TEMPO

Por Humberto Pinho da Silva 

Meu nome é João de Oliveira Prado. Tenho oitenta anos feitos em meados deste mês de Agosto, e acabo de chegar à cidade onde passei grande parte da minha triste adolescência.

Há muito que não visitava o antigo burgo serrano, onde cada rua, cada casa, cada pedra, foi impregnada de velhas e poéticas lendas, páginas vivas da nossa História. 

Aqui, nesta região montanhosa, onde vistosas flores silvestres ombreiam com o verde-prata de seculares oliveiras, e a vista se deslumbra na vastidão dos montes, que correm em sucessivas cadeias de cerros, para amplos e verdes vales, revestidos de vastas vinhas e viçosas messes, fui feliz, apesar de tormentosas e aflitivas contrariedades.

Nesta cidade, perdida em altaneiras serras, longe de grandes centros, o povo, em calmas tardes de Estio, quando o calor aperta, descansa a sesta; e fica, nas frigidíssimas noites de Inverno, se o manto de neve agasalha a natureza, ao redor do calor aconchegante da lareira, recontando histórias de vidas, que foram, mas já não são. 

Estonteado pela aventura, parti. Comigo levei bom punhado de projetos, que há muito sonhara, e risonhas fantasias, que jamais consegui realizar.
Agora, sentindo séria enfermidade corroer desapiedadamente o envelhecido corpo, estranha e entranhada saudade reviveu dentro de meu peito: o desejo de recordar o tempo que passou. 

Tempos de outrora, em que tenros e frágeis bracitos, de graciosa menininha, trigueira e fagueira, envolvia-me de carinhosos beijos de infinito amor.

Lembro-me – como me lembro! Deus meu! - dos soberbos olhos castanhos, cor de avelã, luminosos, vivos, irrequietos, cheios de ingenuidade e ternura, que enfeitiçaram a alma e refortalecerem a coragem…… ..Eu, que sempre temi desafios…Não aceitava – e ainda não aceito, – que se passe a vida a pontapear os menos dotados. Jesus, ao asseverar: Ama o semelhante, queria dizer – Cuidai uns dos outros, porque sois filhos do mesmo Pai. 

A pequerruchinha, na encantadora doçura dos inocentes dez anos, magnetizou-me a alma e o coração, que ainda não acordara …
Era jovem, inexperiente, desconhecedor dos secretos e maldosos segredos da vida. 

Procurei, labutando em terra estranha, o futuro, mas somente deparei presente de lágrimas, onde ilusões e fantasias, se afundaram num mar de contrariedades.

Como emigrante, que esgravata riqueza em terra alheia, esperava regressar com fartos bens, que permitissem desafogo e inveja aos desafortunados….mas rapidamente dei pelo  engano. 

Mansamente, deslizaram os anos - como água de riachinho descuidado, que preguiçoso, pula de pedra em pedra, de seixo em seixo, - com eles morreram doces sonhos e desejos, urdidos com carinho e amor, desde a mocidade.
Restou-me a saudade. Saudade do tempo de menino… – Derradeiro sentimento a morrer…

- Um dia – pensava alvoraçado. - Um dia, cheio de sol, de fresca Primavera, hei-de confessar-lhe, no mesmo varandim onde repousava e brincava, que jamais esqueci a ternura do olhar e a doçura dos carinhosos beijos….

De cabeça baixa, vencido pela vida, voltei. Acicatava-me o desejo de a ver. 

Cheguei em ronceiro e embalador comboio do tempo de nossos avós, que serpenteava revolto rio. Rio que, furiosamente, corria esmagado por alterosas e agressivas ravinas.

Espremido aqui, espraiando acolá, rugindo, refervendo enraivecido, entre temíveis e pesados pedregulhos, as águas prosseguiam sempre o tenebroso caminho, em busca de repouso … na mansa corrente de grande rio. 

Rodopiando, em medonhos redemoinhos, enrolando-se e envolvendo agrestes penedias - descarnadas pelo Sol, e despidas de líquenes e ervas rasteiras, - emprestava fantasmagórico especto à natureza inóspita.

Beleza deslumbrante, que dilatava a vista e enchia a alma de tristeza e medo.

Hospedei-me em modesta pensão, na vizinhança da linha férrea. 

Desemalei, vagarosamente, a escassa roupa. Dependurei o fato domingueiro, no roupeiro, e, entusiasmado, abalei em busca da garotinha da minha infância.

Foi um deslumbramento! … Transfigurara-se em esbelta e garbosa adolescente. Moça guapa, gaiata, de alegria contagiante. 

Recebeu-me com simpatia e amizade, como se os anos não tivessem passado.
Continuava formosa, e de simplicidade encantadora... 

Notei, ao despedir-me, que sem desejar, crescera, no coração, estranho sentimento, que vivificava e abrasava a alma – o desejo de a ter sempre diante dos olhos…

Não era atracão carnal, nem paixão arrebatadora, que se torna obsessiva, mas precisão de – escutar sempre sua voz, sentir sempre seu hálito quente, de a ter sempre perto de mim… 

Eufórico, inebriado por pensamentos fantasiosos, parti.

Sem refletir, logo assentei escrever-lhe. 

Faltou-me, todavia, o afoito, a coragem de transmitir-lhe o entusiasmo em que andava enlevado.

Era missiva simples, de veladas e tímidas palavras de ternura, que alma sensível ou sagacidade de mulher adulta, entenderiam, mas não romanesca colegial, que, como Bela Adormecida, ainda esperava príncipe encantado… 

A resposta brincalhona, escrita em letra redondinha, elegante, facilmente mostrava nada haver, além de amizade.

Carteamo-nos…até que – para meu desespero, – cessou a correspondência. 

Por essa ocasião, estando em Paris, em Montmartre, apreciando aguarelas de jovem pintor, descobri mocinha, que despertou-me sentimentos, que desconhecia… Não resisti….

***

Agora, velho, doente, pressentindo avizinhar-se a velha Parca, que corta a frágil linha da vida, regressei ao antigo burgo serrano, na ânsia de reviver os dias felizes que passaram, mas que persistem serem presentes…

Sem custo, localizei a casa onde a conheci. Por gentileza e respeito aos raros cabelos brancos, que ainda me restam, fui convidado a pernoitar no interior. 

O dono da casa, velho conhecido, irmão da menininha, por cortesia, ofereceu-me hospedagem, declarando, solenemente, com duas fortes palmadas nas costas, não aceitar recusa.

Esta manhã de sábado, acordei estremunhado… Era antemanhã. Pelas estreitas frestas das lâminas da persiana, trespassava doce e vaga luminosidade doirada. 

Enfiei, apressadamente, os chinelos e de pijama de algodão estampado. Subi mansamente a sombria escada de caracol. Os degraus rangeram levemente, apesar dos meus cuidados.

Encaminhei-me, então, para o quarto que antigas reminiscências diziam-me ter sido pertença da “minha” pequerruchinha. 

Pé ante pé, penetrei. Como criança medrosa, temia que descobrissem a minha curiosidade… o meu segredo…o meu desejo…

Apurei as orelhas. Certifiquei-me que não era observado. Circunvaguei vagarosamente a vista. Silencio pesado. Em passinhos de lã, entrei. O quarto estava mergulhado em sombra profunda… 

Diante de mim, três estreitas camas de ferro, esmaltadas a branco, que rebrilhavam debilmente na pálida luminosidade da manhã, e três mesinhas de cabeceira. Em cada uma, sóbrio porta - retrato, de estanho.

Abeirei-me do leito, que ficava à direita, e sentei-me sobre a branca colcha de pelúcia. Pela agitada mente, borboletearam, em borbulhão, frases e poéticos quadros dum passado longínquo:

Era uma tarde calma de Verão, (Como é doce recordar!...) Andavam os missionários pela cidade. Perpassei por uma igreja. A porta estava aberta. Entrei. Perto do altar-mor, acompanhada, em atitude de oração, permanecia recolhida a adolescente dos meus sonhos, Fiquei embebecido na sua imagem. Olhei-a de soslaio e sorri. Ela sorriu, também. A timidez impediu a aproximação….

A Primavera chegara doirada de sol. Uma brisa fresca soprava da serra, toda toucada de neve…Ela trazia nos lábios rubros, um encantador sorriso…

Descia a avenida. O sol já se recolhera…quando…

Estes e outros doces episódios insignificantes, há muito esquecidos, saltaram-me da memória, enchendo-me a alma de infinita saudade, de um mundo que já não é.

Um gesto, uma expressão, um aperto de mão, um abraço, um sorriso significativo, que se perderam no tempo, ressurgiram, nesse momento, como por encanto… no meu espírito. E eu que os julgava, para sempre esquecidos… 

A vizinhança da morte faz reviver o passado: a infância, a adolescência, a ternura, o carinho, o amor… a vida…

Então, com estes olhos que Deus me deu, vi: Vi, de pé, sobre a cama, de braços abertos, mãos estendidas, garotinha de tez morena, cor das areias do mar, atirando-me meigos e doces sorrisos.

Tinha vaporoso vestidinho curto, de cor clara; camisolinha azul celeste e nos pezinhos rechonchudos, curtos soquetes brancos. 

Com esforço, alargava as mãozinhas atrigueiradas, no intento de abraçar-me. Estendi as minhas, para a receber….mas, a encantadora imagem esfumou-se, diluída em fina névoa perfumada, deixando delicioso aroma a rosas frescas.

Enquanto desaparecia, ouvi vozinha enternecedora: 

- Vem! …Por que demoraste?! …

Estonteado, confuso, ergui-me. Então, junto à parede branca, emergindo dela, surdiu silhueta difusa, que lentamente, ganhou nítidos contornos. 

Era adolescente de pouco mais de dezoito anos. Tinha a boca cheia de risos irónicos e os olhos dilatados de orgulho e gozo…:e ria-se… ria-se… sem cessar…

Ria-se de quê?! De Quem?! De mim?! … 

A medo perguntei, mas a voz embargou-se. Então escutei leve eco, que vinha do passado:

-Tolo! Pensavas que gostava de ti! …Só queria divertir-me! …Viver a vida! …Sentir-me amada! …. 

Amargosas e abundantes lágrimas de profunda tristeza, correram-me pelas pálidas faces.

Como nascessem dentro do peito, ouvi, em desespero, novamente a voz jocosa do passado: 

- Eras um pelintra! Pensavas que uma Noronha podia viver…Onde encontrarias tu, João-ninguém, dinheiro para: Casa confortável…Luxo…Férias no estrangeiro… Criadas para me servirem?…Querias transformar-me em Gata Borralheira! … Bobalhão! …

Não me contive. Alucinado, soluçando convulsivamente, pronunciei num suave sussurro - receoso que me escutassem, - envolto num choro abafado: 

- Mas amava-te! ….Loucamente….Como nunca havia amado!...

- Amor… – respondeu a voz sarcástica – é dar conforto. Amar, é ser respeitada.

Invejada pelas outras mulheres…. Amar, é conviver com antigas condiscípulas, de cabeça levantada…. Não se envergonhar de não ter vestido apropriado….

Amor, é possuir carro topo de gama! … 

Senti pejo de mim mesmo. Tremenda vontade de fugir. Vergonha dos meus sentimentos. E mornas lágrimas de dor encharcaram-me os olhos, raiados de sangue.

Precipitei-me, vexado, lívido, contristado, para a porta, levando no espírito: frases, palavras e episódios, cheios de ternura, de um passado que passou. 

Enquanto fugia, coberto de vergonha, suave e adocicado murmúrio de criança, ciciou-me muito baixinho, à puridade:

- Não chores! …Não sabe o que diz! … Dia virá – talvez já cá não estejas… – que há-de chorar lágrimas de saudade… 

Volvi-me para ver quem assim me consolava. Apenas vi: três camas de ferro cobertas de brancas colchas….e profundo silêncio.

Mas, não tenho duvida –  a voz, era da menininha, de vestido curto, que estava de pé, sobre a cama de ferro coberta com manta de pelúcia. 

Só ela compreendera a minha saudade…Os meus sentimentos…As minhas lágrimas….Só ela!…


Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ 
Página na Internet:http://solpaz.blogs.sapo.pt

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