"HÁ CONTROVÉRSIAS": UM MODELO DE NARRATIVA [Márcio Almeida]

"HÁ CONTROVÉRSIAS": UM MODELO DE NARRATIVA 

Ronaldo Werneck faz da crônica vida. Do fértil e importante provincianismo de Cataguases, cidade-ícone com sua reserva de ternura, ao cosmopolitanismo europeu e asiático da vivência do cronista cada página tem uma pulsação cultural própria, todas enfeixadas num estilo arisco, dinâmico, atualíssimo.

Além da profusão de assuntos o cronista se reinventa em cada texto, nunca se dando por satisfeito, donde ponderar, quase sempre, haver controvérsias. 

Suas crônicas recarregam as épocas de significação, satisfazendo a memória de quem foi lúdico na infância e na adolescência e foi adulto num país de exceção. De quem viveu o cinema no cinema e felineou a vida como Amarcord. De quem vivenciou bem a bossa nova, as Copas do Mundo, os festivais de música. De quem sempre teve com o Rio uma cumplicidade profunda. De quem estendeu um círculo de amizades cuja raiz traz à tona experiências existenciais arraigadas em porres de vida com todas as facetas. 

HÁ CONTROVÉRSIAS é plurivalente e surpreendente: há sempre uma palavra a seduzir numa narrativa veloz que arranca de si mesma o mundo macro/micro mágico, realista, poético, fílmico, musical, teatral, futebolístico, amoroso, fecundo até quando subentende a natureza da própria crônica. 

Os registros são deliciosos fatos pinçados para encantar os leitores, memórias, ousadias, buscas existencialistas, poéticas inusitadas, feedback e proposições de histórias de gente que perpassa ao longo da existência fértil, sábia, porralouca, lírica, cinematográfica em muitos sentidos, pronta para jogar na cara do leitor uma vida em trânsito mas com alguns portos de conhecimento que envolvem o leitor em sua própria vivenciação de tudo que emociona, exaspera, ilude, conflitua, constrói, faz o ser humano ser melhor. 

E há em tudo um prazer muito grande em saborear textos em nada caretas ou convencionais, mas velozes, com uma dicção nova para o cronismo brasileiro. Às vezes o autor monta um texto como Godard faria com um filme. Às vezes o texto é a surpresa de se identificar nele o inusitado, o neologismo, o quiprocó, o lance de dados. 

O autor destila uma cultura básica da (pós)modernidade, materializando em seus pensares o existencialismo que sobressalta de Rimbaud ao Cine Edgard, de um campo de futebol a sabores muito peculiares, de coisas especiais que arrasam na Conceição a lusco-Fuscos, de um ter filhos (e amá-los) sem ufanismo, de privilégios de ser amigo de vips e de personagens cataguariocas que sustentam os pilares da memória que escreve. 

HÁ CONTROVÉRSIAS é um exemplo da crônica nacional. Um marco que sem preconceitos ou frescuras faz da crônica uma voz ativa na comunicação de vivências. É a mineiridade universal. 

Ronaldo Werneck cria a própria crônica para a crônica-contra-estilo. Faz lembrar o que foi bom porque vivido com a gula de quem com inteligência sabe tirar proveito de lembranças: "aquilo que do sujeito emana e se escapa." Uma lição de vida para quem vive de futuro. 

Márcio Almeida

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