Poemas finalistas do III Concurso de Poesia Autores S/A [LOHAN LAGE PIGNONE]

Poemas finalistas do III Concurso de Poesia Autores S/A 

A terceira edição do concurso de poesia Autores S/A começou em agosto, com o período de inscrições, e somente agora, no dia 4 de dezembro, descobriremos, enfim, o nome do grande vitorioso. No entanto, sabemos que todos os participantes saíram vitoriosos desta labuta poética. Foi uma confraternização belíssima, que proporcionou diversos vínculos intelectuais e de amizade, sobretudo através do grupo do Facebook, denominado “III Concurso de Poesia Autores S/A”. E esta foi a vitória do concurso, organizado por Lohan Lage Pignone. “O grupo foi uma sacada que deu certo. As discussões entre os poetas foram muito ricas, deu mais emoção ao processo. Esta edição foi a mais concorrida, acredito”, avalia Lohan. 

A final é estrelada por um poeta do Rio de Janeiro, impetuoso e intenso; e um baiano, de Riachão do Jacuípe, comedido e certeiro. Herton Gustavo Gomes versus Ricardo Thadeu; ambos realizaram trajetórias consistentes neste certame. O campeão terá um livro de poemas publicado pela Editora Patuá, fora outras premiações. Ricardo Thadeu tem uma história curiosa nesta edição: foi reclassificado após a desistência de 04 participantes, na segunda fase do concurso. Desde então, não deixou mais a peteca cair. Já Herton se manteve regular durante todo o certame, surpreendendo pela coragem em se expressar tão genuinamente em seus trabalhos, deixando prevalecer o sentimento sobre a técnica. Ricardo, o oposto de seu adversário, conquistara a sexta colocação na primeira edição deste concurso, e, à época, foi considerado um dos grandes destaques. Herton é estreante no certame, e sua conduta poética tem provado, etapa após etapa, que ainda o coração pode gritar mais alto que a razão. E quem vencerá este derradeiro embate? O coração ou a cabeça? Tiremos nossas conclusões. Abaixo, apreciem a leitura dos poemas finalistas. Cada um deles teve de impor 03 palavras ao outro. Como era de se esperar, um tentou dificultar a vida do outro. Ricardo Thadeu impôs as palavras “coadunar, piço e ortônimo”; já Herton optou por impor “inconstitucionalização, inexorabilidade e buceta”.

Antes, uma pequena biografia dos poetas finalistas:

Herton Gustavo Gomes, 31 anos, reside no Rio de Janeiro/RJ. Formado em Publicidade e Propaganda e em Teatro pela Escola Martins Pena, Herton Gustavo é publicitário, ator, produtor e poeta. Participou de workshops e oficinas de dramaturgia e roteiro com profissionais como Jô Bilac, Pedro Brício, Gregório Duvivier, Márcia Zanelatto, Cláudia Souto, Audemir Leuzinger, Márcio Trigo, Henrique Tavares, Carla Faour, Daniela Pereira Carvalho, Walter Daguerre, Leandro Muniz, Camilo Pelegrinni, Márcia Zanelatto, Celso Taddei, Renê Belmonte, Adriana Falcão, Renato Fagundes, Domingos de Oliveira, e Roberto Alvim. E de reciclagens de interpretação com profissionais como Daniel Herz, Inez Viana, Thierry Trémouroux, Ignácio Coqueiro, Cris Moura, Helena Varvaqui, João Falcão, Celina Sodré, Ana Kfouri, João Fonseca, Amir Haddad, Hamilton Vaz Pereira, Vinicius Arneiro e Márcio Líbar.

Ricardo Thadeu, 25 anos, nasceu em Riachão do Jacuípe, onde reside. É mestre em literatura e atua como professor da rede pública. Seu último livro de poesia, “Trilogia do Tempo” (2014), integra a coleção Poieses, da Editora Kalango.









Títulos

“Percurso” 
(Ricardo Thadeu - BA) 

X

“Alonso” 
(Herton Gustavo Gomes – RJ)

Título: Percurso 

No silêncio da língua,
                        afio as palavras.
Todas tão belas e tão bravas.

São todas feras, como a palavra magma
e como a palavra buceta que, na língua
                             queima em brasa.

Amolo as palavras extintas e        arredias
que serpenteiam
              no movediço terreno do idioma.

Regulo seus sentidos e recebo um não
das palavras código, égua
                      e inconstitucionalização.

Contrario a inexorabilidade do ofício:
desafio os vocábulos, desafino a sintaxe
e os ouvidos.

Subverto a lâmina das palavras
para, novamente, (no silêncio) afiá-las.



Título: Alonso 

Alonso não volta.
Sentenciou Padre Olavo, previu a cigana Yolanda 
cujo ortônimo era Maria da Conceição;
garantiu o carteiro Hermógenes da Silva de Alcântara Machado 
com aquele nome rebuscado
de chefe de repartição. 
Olha, seu poeta, Alonso não volta mais.
Pro seu CEP só tem a fatura da Light, do Banco, da Renner e do Gás. 
Alonso não volta. Garantiu Edilamar, minha analista.                  Poeta, sofrer de amor só é bonito na revista.                       Arranja uma moça, vai lavar  louça, deixa de desperdício, encontra outro vício, outro ofício, outro hobby, outro norte, outro rapaz!
Arranja outro bofe!
Sugeriu Divandir, o cabeleireiro, 
que Alonso, esse truqueiro,
não volta mais. 
Alonso não volta.
Disse com uma voz robótica a locutora do metrô. 
Desça na próxima estação,
que nesse vagão é proibido sofrer de amor. 
Meu filho, escuta sua mãe: com tanta gente no mundo,
vai se coadunar justo a quem não te quer? 
Dona Lourdes, Dona Lourdes!
Em assunto do coração, ninguém mete a colher. 
Extra! Extra! Alonso não volta! Disparou Josimar, o jornaleiro.
Não é boato ou fofoca, mas não se fala noutra coisa no Rio de Janeiro. 
E disse Dalila, a atendente da sorveteria desaforada e sem compaixão:
“Alonso não volta, meu camarada. Só tem sorvete de limão”. 
Marco Aurélio da Cunha Siqueira, gerente do Bamerindus,
também não disse nada diferente. 
Alonso não volta. Se contenha.                                               Digite sua senha, mas antes me informe o número da sua conta corrente.
E sem fazer rodeios, me deu o troco, Soraia Ribeiro, 
a caixa pessimista do supermercado Mundial.
Alonso não volta.  E não: outro piço você não encontra igual. 
Reginaldo, o técnico de informática,
concluiu depois de formatar o meu computador: não tem   conserto.                                                                           Alonso não volta não, senhor. 
Karen Botelho, a oftalmologista zarolha,
disparou só pra me
contrariar:                                                                                            se me
permite um conselho, 
sai dessa bolha e se enxerga, querido. Alonso não vai voltar.
Alessandra Trindade , a âncora sensacionalista do jornal do meio-dia, 
informou que Alonso não volta, e que já passou da hora de eu fazer terapia.
Já faço, ô vadia! 
Josias, o vendedor seboso de cachorro quente,
Adelaide, a manicure mão de vaca, 
Gomides, o guarda municipal, e o resto do mundo,
incluindo Edmundo, o esquisito professor de canto, 
disseram em coro: Alonso não volta. Enxugue esse pranto.
E só de pirraça não parei de chorar. 
Embora eu saiba que, mais dia, menos dia,
só pra calar a boca dessa gente atrevida, invejosa e vazia, 
Alonso há de voltar.


LOHAN LAGE PIGNONE-Graduado em Letras (Port./Lit.) pela Universidade Estácio de Sá.Professor da rede Estadual do Rio de Janeiro, músico e roteirista.
Publicou, em 2011, o livro "Poesia é Isso" (Ed. Multifoco) e, por dois anos consecutivos, foi eleito destaque em arte e cultura na cidade onde reside, Trajano de Moraes (RJ).
Possui textos no blog coletivo Autores S/A. Escreve, mensalmente, para a Revista Samizdat.

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