Sobre quiabos, brócolis e Machado de Assis [Milton Costa]

Sobre quiabos, brócolis e Machado de Assis


Por Milton Costa 
Artigo publicado no site ATaba

Durante vinte anos, dessa vidinha, por duas décadas, eu não comi brócolis. Achava que não gostava, o verde muito escuro dos talos refogados, sei lá, tinha algo ali e eu não gostava daquilo. Ou melhor, eu achava que não gostava daquilo.

Então, provavelmente num sábado à tarde, provavelmente no Viena do Shopping Ibirapuera, em São Paulo, nós nos conhecemos, os brócolis e eu. Mais que isso: soubemo-nos, só pra usar – e surrupiar – a perfeita expressão de Guimarães Rosa, n’A estória de Lélio e Lina. E estamos juntos até hoje, leais, até aprendi a cozinhar com eles, fazer uns pratos. Numa dessas reflexões que a gente faz quando lava louça, chego a suspirar enquanto esfrego a buchinha na colher: “Como alguém pode viver sem brócolis?” 

Durante quarenta anos, uma vidinha inteira!, por quatro longas décadas, eu não comi quiabo. Aquela baba, sei não. Aquela cara, um verde chocho, aqueles pelinhos. Mas, aí vem a Carolina, louca alucinada e criança por quiabo, dessas que come até se tiver gelado. Não passa semana sem as rodelinhas. E começou o aliciamento: “Experimenta”, sugeriu, com aquele ar de traficante (eu queria dizer ‘olhar de cigana oblíqua e dissimulada’, mas parece que já usaram).

Comi. Fiz hum. Comi de novo. Admiti, depois de um tempo, que o quiabo que ela fazia (só o dela) eu comia. E comecei a comer, sempre. Outro dia, não tem nem um mês, fiz meu primeiro quiabo. Foi aprovado pelos convivas, como diria Alencar, e eu comi bem. Acho que deve dar casamento, que nem o brócolis.

Fui, pode-se atestar, um gourmet tardio. E fiz todo esse prêmbulo só pra dizer que também fui um leitor tardio.

Só comecei a comer livro com farinha muito tempo depois do que devia (e do que eu gostaria). E só experimentei várias obras e autores que eu adoro porque alguém me aliciou ou me forçou a ler. Com a comida, com exceção de quando ainda era bem pitico, não foi a mesma coisa, pelo menos não da mesma forma. Eu decidi que deveria experimentar tanto brócolis quanto quiabo, já era adulto, dono do nariz. Eu me forcei a mim mesmo. A leitura não. Fui obrigado a ler muita coisa. E essa obrigação teve vários efeitos.

O primeiro deles é que não morri, em nenhuma das vezes, nem precisei de terapia. O segundo é que só assim pude conhecer autores maravilhosos que de outra forma não conheceria. O terceiro é que pude dizer com propriedade de quem eu gostava e de quem eu não gostava, de quem eu gostava mais – os preferidos – e de quem eu gostava menos – os suportáveis, os necessários, os bacaninhas. Já não iria mais julgar o livro pela capa. Isto é, não iria mais condenar o livro pela capa. Não iria mais torcer o nariz pra comida por causa da cara dela.

Começo de ano, as aulas voltaram há pouco, é tempo de experiências novas para muitos alunos e de renovar a fé na profissão para muitos educadores. Eles discutem na sala dos professores sobre que livros adotarão, um levanta a lebre de que é preciso estimular a leitura, outro diz que ninguém gosta de ler obrigado, que assim não dá prazer. Outro cochicha que ninguém mais a não ser os professores de português adotam livro, ou que a coordenação quer empurrar um título tosco goela abaixo dos alunos e do próprio professor. Mas a questão, de uma forma ou de outra, gira em torno da adoção, da recomendação de uma ou outra obra, enfim, da obrigatoriedade de se ler ou não um livro e dele extrair uma avaliação, que vale nota etc. etc.

Num país com 75% de analfabetos funcionais, de maus leitores (que não leem plenamente, no sentido de ultrapassar o entendimento e desfrutar o sabor da leitura), as teorias acerca de como trabalhar um livro em sala de aula andam em círculo e estão longe do consenso. O que resta, com mais ou menos jeito, é obrigar o aluno a ler alguma coisa. Só que depois de tanta discussão, da obrigação imposta, ela, essa mesma obrigação, é demonizada. Eu mesmo já a demonizei inúmeras vezes. Mas os brócolis e os quiabos me fizeram pensar melhor (taí uma função pra esses alimentos tão malquistos pelos pequenos…).

Será que é tão ruim assim? Será que traumatiza a ponto de não querer ler nunca mais? Ou ainda: se causa isso, quantos atinge? E o contrário: quantos, como eu, descobrirão e se identificarão com tais e tais autores?

José de Alencar, por exemplo, sempre foi, pra mim, o passageiro chato da poltrona ao lado. Aí li um, depois li outro, mais outro, e outro, e constatei que sim, ele era chato, mas bem menos do que eu pensava, que era muito engraçado às vezes, que escreveu excelentes diálogos (o que me dá mais vontade de ler alguma de suas raras peças de teatro), que produziu tramas muito bem amarradinhas, mãe de todas as novelas das seis. Descobri também que não superaria Machado de Assis, que sua sanha em adjetivar tudo e todos a todo momento me levaria a nunca querer usar o termo inefável. Descobri também que não se deve, nem obrigado, ler Iracema antes dos 25 anos.

Obrigar alguém a ler alguma obra chantageando-o com a nota do boletim não é, portanto, tão cruel quanto se pinta. Acho, sinceramente, que professores devem ler mais e mais e mais, para falar mais das obras, de forma generosa e honesta.

Se o aluno enxergar verdade naquilo que o prô diz, é meio caminho andado. Eu sei, é difícil suprir a falta que faz uma família de leitores, ou, mais ainda, a falta de pais leitores, que leem com os filhos, para os filhos e que se deixam ser admirados pelos filhos quando leem. Um Brasil ideal seria feito de pais assim. Mas a realidade é bem diferente e não deve mudar muito a médio prazo. Talvez quando deixarem mais pessoas que querem ser pais – como os gays, p. ex. – ser pais de fato, e deixarem mais mulheres que não querem ser mães – como as que não abortam só porque é crime – a não ser mães.

Enfim, ser honesto com o aluno, desfazer mitos, como o que diz que quem lê escreve bem ou é mais inteligente. Escreve bem, em muitos casos, aquilo que lê, como reprodução. Mas a oferta de leitura deve ser variada, como uma feira, como as cores de legumes, frutas e verduras. É tudo diferente um do outro! Doces, amargos, azedos e estranhos, todos servem a um mesmo fim: alimentar o corpo. Variadas leituras alimentam o espírito, põem a alma pra ferver!

Ah! E concentrar-se naquele aluno que odeia ler, que odeia escrever, que adooora matemática e aaama jogar isso na cara do professor. Ele é o desafio. Aluno que adora ler e escrever não dá trabalho, dá alegria. Apostar na dificuldade; apenas um que se consiga aliciar já terá valido o dia, o ano, o diploma, a carreira.

As escolas brasileiras, infelizmente, não têm aula de leitura. Sei lá, devem achar que todo mundo que passou da alfabetização já sabe ler. Investir na leitura é muito eficiente, sobretudo ler para os alunos, apresentar uma possibilidade de interpretação (nunca a única!), dar a entonação, a prosódia adequada. Confere sabor e vida ao texto: certos alunos o “enxergam” melhor.

Muitos acham que só Jesus salva, mas eu digo que estão enganados. Machado de Assis, Guimarães Rosa, Dalton Trevisan, Kafka, Cervantes, Fernando Pessoa também são excelentes salva-vidas. Pode mergulhar, molecada! 


Milton Costa é professor e não vive sem leitura, chocolate, brócolis e, agora, quiabo, necessariamente nessa ordem.

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